O PT e a crise: a forma e o conteúdo
Fábio Luís
Correio da Cidadania - 14/07

Os escândalos que irradiam do governo federal ao financiamento do partido evidenciam que o PT converteu-se em um partido da ordem. A seus objetivos sociais conservadores filiam-se procedimentos políticos tradicionais. O receituário do FMI é tão incompatível com a mudança social como um fim, como a política feita por dinheiro público o é como um meio. A forma adequa-se ao conteúdo.

Ainda que não se provem judicialmente, os fatos expõem como opera o intestino grosso da política nacional e revelam que o PT no governo adaptou-se a este funcionamento.

Não existe “golpismo” por trás das denúncias, motivadas por mera disputa de poder. Roberto Jefferson é o chefe de uma quadrilha que se desentende com outra e o que revela é sua arma.

Tampouco o governo está “em disputa”: a reação do Planalto é acentuar a guinada à direita, abrindo espaço para o PMDB e considerando diminuir investimentos públicos em educação e saúde, sob pressão do capital.

Ao priorizar a disputa eleitoral, o Partido dos Trabalhadores cedeu paulatinamente na radicalidade do seu discurso e na novidade de suas práticas. Nos anos recentes, patenteado o convencionalismo de suas administrações públicas, pretendeu ancorar-se no suposto ético: fazemos o mesmo, mais colorido e sem roubar. Como se na política houvesse dissociação possível entre fins e meios.

Converteram o potencial de briga acumulado em lutas sociais que lhe convergiam durante décadas em uma geléia moral, que adoça o pão da continuidade. O que está azedando agora é a geléia.

O partido que germinou na intenção de transformar a realidade brasileira olha para trás e percebe que, em três décadas, ajudou o movimento popular a avançar algo nesta direção. Olha para frente, e enxerga que não pode mais, pelo contrário: agora segura e atrasa. O PT precisa ser superado.

Vista sob este ângulo, a crise que submerge o governo e o partido acirra as contradições intrínsecas a um projeto de reforma da realidade brasileira. Evidencia, assim, a insuficiência do projeto político galvanizado no PT. O sumo da experiência, projetada na história, revela uma lição: a rigidez dos limites para a mudança dentro da ordem no capitalismo dependente. O governo Lula consume o ápice a que se pode chegar por este caminho, para verificarmos, ao fim, que mal nos movemos.

A crise atual servirá aos setores da esquerda que tiverem a serenidade para encarar os fatos e a coragem de tirar suas conseqüências. O que se explicita é o esgotamento do PT como veículo das energias transformadoras da sociedade brasileira. Sua máxima ambição histórica - a Presidência -, ao consumar-se, revela que o pedágio ideológico pago no percurso corrompeu irremediavelmente a rota.

O saldo positivo da consumação do PT é trazer clareza sobre a dimensão do desafio de transformar a realidade brasileira e seu método. Saber montar nesta experiência é o que se chama acúmulo na linguagem da luta social.

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