A ruína de um modelo partidário
Jeferson Miola
Agência Carta Maior - 08/07

O abandono de uma perspectiva de esquerda, por parte da direção do PT, é uma das principais causas da crise atual. A amplitude de alianças sem identidade programática comprometeu a identidade do próprio PT e não significou avanços importantes.

A gravíssima crise política que abala a nação brasileira tem contornos e significados que transcendem os eventuais desfechos factuais – políticos ou legais - que venha a ter. Da mesma forma, os aspectos que conformam a origem da presente crise foram fecundados em períodos muito anteriores à assunção do Partido dos Trabalhadores ao governo central do país. Portanto, suas causas também não são meramente circunstanciais ou fruto de erros contingentes, o que desgraçadamente torna ainda mais dramático seu sentido e suas implicações estratégicas.

Independentemente da extensão de verdade que as acusações feitas por um ex-aliado do Governo Lula (que também foi grande artífice do Governo Collor) possam possuir, o fato é que as graves revelações que não têm sido convincentemente refutadas pela direção nacional do Partido dos Trabalhadores sugerem a existência de nexos que supostamente envolveriam dirigentes partidários com esquemas escabrosos da pior espécie da política oligárquica nacional.

Um estado de estupefação, dor e vergonha domina toda a militância e um imenso contingente de simpatizantes do PT. No Brasil e também no exterior, dada a enorme expectativa internacional gerada pelo PT e o Governo Lula na luta pela superação do neoliberalismo e na construção de uma alternativa de esquerda num país com grande importância na geopolítica mundial.

E parece ser justamente o abandono de uma perspectiva de esquerda uma das principais causas dos acontecimentos atuais; ou de outra forma: a renúncia, de parte do setor majoritário do PT, da construção de um projeto verdadeiramente democrático e popular para o Brasil, tem como ponto final de condensação o estágio atual em que o Partido e o Governo estacionaram.

Da célebre participação eleitoral de 1989, quando o PT foi fraudulentamente derrotado pelas elites nacionais com o conluio dos monopólios de comunicação, lamentavelmente a lição recolhida não foi a do conhecimento e interpretação da estrutura e da natureza perversa da classe dominante do país e de sua disposição intransigente de liquidar qualquer adversário de classe que ameace seus interesses históricos. Ao contrário, foi crescendo ao interior do PT uma vertente teórica e ideológica que preconizou a incondicional adaptação e internação ao jogo político conservador e à “parlamentarização da política” em desfavor das estratégias de acumulação de forças que combinam as conquistas institucionais fundadas (i) na afirmação programática (como a democracia participativa com inclusão social e desenvolvimento endógeno), (ii) na nitidez ideológica (iii) com os avanços das lutas sociais e o apoio popular aos governos de esquerda como mecanismos de construção de uma nova hegemonia na sociedade.

O curioso, inclusive, é que o centro de gravidade daquela política majoritária no PT sempre esteve distanciada dos principais centros de experimentação vividos pelo PT, como Porto Alegre, Belo Horizonte e Rio Grande do Sul. Pode-se alegar que nestas localidades simbólicas, especialmente em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, o PT sofreu derrotas. Sim, é verdade, sofreu tão somente derrotas (embora perfazendo mais de 47% dos votos), mas nunca sofreu tamanha desmoralização como atualmente o PT vem sofrendo. Ainda assim, tais derrotas podem ser em boa medida atribuídas a fatores internos como a primazia da luta interna em detrimento do enfrentamento aos adversários externos ao projeto partidário.

Esta parte do PT que “parlamentarizou a política” reservou para si a tarefa de falar, decidir e (mal) agir em nome de todo o PT e de sua apaixonada e inocente militância. Ao invés do fortalecimento do espaço público de participação e deliberação social e da fundação da verdadeira res pública brasileira, esta forma de condução partidária fez da patrimonialização, do clientelismo e do convívio político promíscuo um método natural da atividade política.

A confusão vivida na relação Partido-Estado-Governo apresenta contradições tão eloqüentes que ganha ilustração quase enciclopédica, se torna fonte literária com riqueza e refinamento de detalhes do protagonismo de agentes políticos que afrontam as melhores aspirações republicanas e democráticas. Além dessa forma de atuação, desse modus operandi que guarda similitude com a forma tradicional e retrógrada de fazer política no Brasil, é notável também o mimetismo econômico do PT, cujo programa conservador vem comprometendo a possibilidade de desenvolvimento com justiça social e distribuição de renda, ao mesmo tempo em que continua favorecendo os setores rentistas e o capital financeiro.

Esta forma de condução partidária definitivamente faliu; demonstrou-se ineficiente em absolutamente todos os seus pressupostos e objetivos. A amplitude de alianças sem identidade programática comprometeu a identidade do próprio PT e não significou avanços e vitórias congressuais importantes. Ao contrário, a eleição do Severino Cavalcanti para a presidência da Câmara dos Deputados é o melhor sinal deste fracasso, ainda que a divisão da bancada do PT tenha contribuído para tanto.

Ao invés da construção de uma maioria social, alicerçada no controle social do Estado e na participação direta da população na definição dos rumos governamentais, prevalece uma visão equivocada de governabilidade focada no Congresso Nacional, que tem sido cada vez mais onerosa política, ética e moralmente.

O abrandamento programático – para alguns a “modernização” do PT – tem representado um refluxo político e social importante para a maioria pobre do povo brasileiro. Com exceção de alguns avanços pontuais no Governo – área externa, agricultura familiar, meio ambiente, questão habitacional, etc – no conjunto o PT e a esquerda vêm sofrendo uma derrota histórica de sentido estratégico, pois as atuais orientações preservam fundamentalmente os pilares da dominação, da miséria e da exclusão social no país. Além disso, são políticas que não empolgam as grandes massas, que já não encantam multidões que poderiam sustentar um governo de esquerda com ousadia para superar a ordem secular perversa vigente no país.

Este momento representa a ruína definitiva de um modelo de condução partidária que ocasionou um processo acelerado de deterioração ideológica do PT. Este modelo comprometeu o PT e representa o abandono de referenciais estratégicos que sempre fizeram do PT um instrumento estratégico de disputa e construção de um novo poder, democrático, popular e socialista.

Dessas ruínas, a tarefa é reconstruir e refundar o PT a partir de sua razão essencial de ser, qual seja, a de um partido de esquerda, ético e construtor de um futuro generoso para o povo brasileiro.

* Jeferson Miola é integrante do Instituto de Debates, Estudos e Alternativas de Porto Alegre (Idea), foi coordenador-executivo do 5º Fórum Social Mundial.

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