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| Nova manifestação do Bloco de Esquerda |
| João Machado |
| PALAVRA CRUZADA - 06/07 |
| A “Declaração à Militância” divulgada ontem pelo Bloco de Esquerda assinala mais uma diferenciação importante deste setor do PT com relação ao conjunto daquele partido e, inclusive, com relação às direções das principais correntes da esquerda petista. Além disso, vale notar que o documento inclui assinaturas de alguns deputados que até agora se tinham mantido alinhados com a esquerda governista e, portanto, com a direção do PT e com o governo. Se sua adesão ao Bloco de Esquerda se confirmar, será um sinal (positivo) dos tempos. Por outro lado, vale notar, também, que entre os signatários não há nenhum parlamentar da Articulação de Esquerda. Com isto, aprofunda-se a separação entre os parlamentares desta corrente e os demais parlamentares de esquerda. Em contraponto, com as recentes adesões, todos os parlamentares da Democracia Socialista (a outra grande corrente da esquerda petista) figuram como signatários (no caso da DS, desde 2003 vem havendo uma clara diferença entre a orientação da maioria da sua direção — governista — e a de muitos dos seus parlamentares). Há diversos pontos muito positivos no documento como, por exemplo, a explicação bastante radical da origem da crise vivida pelo PT:
Coerentemente, o documento critica a crítica a fantasiosa explicação da crise pelo “golpismo da direita”:
Além disso, o documento critica os movimentos que estão sendo realizados pelo governo federal para tentar superar a crise — a incorporação ao ministério do “pedaço do PMDB comandado pelos senadores Renan Calheiros e José Sarney” e a adoção da proposta de “‘déficit zero' capitaneada por Delfim Netto, czar da economia na ditadura militar, com aperto fiscal ainda maior e duplicação de cortes orçamentários”. O documento propõe, como saída, a recomposição da Executiva Nacional do PT, sem a presença dos dirigentes acusados, e um “choque ético-político” no governo Lula. Se este “choque ético-político” no governo Lula fosse possível, poderia ser uma boa idéia. O governo Lula deixaria para trás dois anos e meio de governo social-liberal, a serviço do grande capital, especialmente o financeiro, e se dedicaria no ano e meio que lhe resta a defender os interesses populares — depois de pedir desculpas por todo o mal que fez até agora. Lula e seu grupo romperiam com os marcos valérios, puniriam os delúbios e silvios pereiras, além de outros dirigentes envolvidos em esquemas pouco edificantes, e chamariam de volta a senadora Heloísa Helena e os outros parlamentares expulsos, depois de se ajoelharem em bagos de milho como penitência — tudo isso chorando, muito comovidos, de arrependimento. Mas alguém acredita que esta esplêndida hipótese possa ter alguma viabilidade prática? O governo Lula, ao contrário, não está demonstrando neste exato momento que sua opção é justamente pelo aprofundamento das barganhas políticas (com o PMDB, além de tentativas ainda um tanto envergonhadas em direção ao PSDB) e pelo consórcio com o ex-ministro Delfim Netto, entre outras medidas igualmente detestáveis? Não há como fugir da conclusão: para olhar de frente a realidade, os parlamentares do Bloco de Esquerda devem reconhecer que não haverá “choque ético-político” algum no governo Lula. O máximo de “ética” que se pode vislumbrar é o sacrifício de alguns dirigentes para tentar preservar o conjunto — ou seja, uma farsa. Quanto a “choque político”, o que está em curso é uma mudança de sentido oposto ao defendido pela esquerda. Daí que a coerência da esquerda passe, inescapavelmente, pela ruptura política com o governo Lula. As informações que vão aparecendo sugerem que os problemas do grupo dirigente do PT são mais graves e mais antigos do que imaginávamos. Mas as coisas pioraram muito desde o início do governo Lula. O nosso problema mais grave é o governo Lula, e não José Genoino (que, como todos sabem, nunca teve muito poder próprio) ou os operadores que armaram uma lambança inédita. Sem esta compreensão, a “Declaração à Militância”, apesar de seus grandes méritos, fica incompleta. Esperemos que esta lacuna seja preenchida proximamente. Temos diante de nós a enorme tarefa de reconstrução da esquerda brasileira, e os que já nos engajamos nela precisamos muito da ajuda dos companheiros do Bloco de Esquerda. |
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