| Hoje,
o Brasil está numa enrascada. Do ponto de vista político,
a briga entre o PT e o PSDB é só pelo poder. Nenhum dos
dois partidos tem um projeto nacional e soberano para oferecer ao país,
analisa a economista Leda Paulani, da FEA-USP, em entrevista ao Brasil
de Fato. Ela vai além, ao afirmar que o governo petista tinha
a faca e o queijo na mão para fazer algumas mudanças, o
que até o mercado financeiro esperava. Mas, não, ele preferiu
se manter na mesma toada da gestão tucana.
Brasil de Fato - Como define projeto nacional?
Leda Paulani - Por princípio, um projeto que tem que conseguir
o maior grau de liberdade possível para conduzir, com soberania,
os próprios destinos de um país. Mas se um modelo econômico
tolhe a liberdade, não pode ser chamado de projeto nacional, que
tem que ser sustentado pelos princípios democráticos. E
não basta uma democracia formal, representativa, mas intensificando
processos de democracia direta, do tipo orçamento participativo.
Para funcionar de verdade, não como o "Conselhão" do
Lula.
BF - Qual a importância de um projeto nacional para um país?
Leda - Não se pode sujeitar um país como o Brasil, com
170 a 180 milhões de pessoas, e com tantas necessidades, a variáveis
sobre as quais ele não tem qualquer controle. Isso é se
negar a construir o país. No caso do Brasil, é ainda mais
complicado porque, como ensinou Celso Furtado, o projeto de nação
em construção ficou pelo meio do caminho. Esse projeto
se configura com mais força nos anos 50, começo dos 60.
Aí vem o golpe militar que desmonta todo o arranjo de forças
que levariam a completar o que Furtado chamava de construção
da nação. O Chico de Oliveira, que trabalhou com ele, disse
que estava ao alcance de nossa mão, quase o tocamos.
BF - Os militares tinham um projeto?
Leda - Com o golpe, veio a preocupação de desenvolver o
país do ponto de vista capitalista. Os militares tinham um projeto
de país, de desenvolvimento capitalista stricto sensu. Pegaram
uma carona na capacidade instalada herdada dos anos 50-60, depois, frente
ao choque do petróleo, completaram a matriz industrial, mas tudo
em meio a forte arrocho salarial, sindicatos amordaçados, sem
democracia. A seguir, tivemos a esperança trazida pela redemocratização
e a nova Constituição. Só que o país continuava
se debatendo com a crise da dívida, com conseqüências
internas pesadas. Para Fernando Henrique, não é verdade
que não se tenha um projeto para o país. Mas o que ele
chama de projeto para o país, no meu entender, não é.
Afirmar o caráter do país como dependente, jogar o jogo
do inimigo e imaginar que, com isso, vamos construir a nação?
Imaginar que uma lógica que é cega, que é míope,
vá se interessar pelo problema dos brasileiros?
BF - O que o "projeto" de Fernando Henrique leva em conta?
Leda - O que a economia brasileira consegue produzir de ganhos em moeda
forte. A conjuntura atual permite isso, porque os capitais têm
completa liberdade de entrada e saída, se beneficiam de uma
taxa real de juros que é a mais elevada do mundo - taxa que
se transfere para as aplicações em dólar, também.
E qualquer mudança, os capitais vão embora.
BF - Por que Argentina, Chile, Índia, podem controlar o fluxo
de capitais e o Brasil não?
Leda - É uma pergunta que todos fazemos e as respostas das chamadas
autoridades econômicas não são nem um pouco convincentes.
O modelo da credibilidade, que chamo de modelo do cachorro mordendo o
rabo, vem desde a crise cambial de 99. O país precisa ter credibilidade
para quem? Para conseguir atrair investimentos externos, suprir a carência
interna de poupança (o que é outra falácia) para
sustentar o desenvolvimento interno? Mas qual o preço disso? Uma
credibilidade que faz com que os preços dos papéis brasileiros
no mercado internacional subam, que entrem no país investimentos
externos diretos, e capital especulativo à vontade? O preço é uma
elevadíssima taxa real de juros e um superavit primário
cavalar para garantir que os ganhos em moeda forte não sejam ameaçados.
Ora, é isso, justamente, que impede o crescimento. E não
adianta dizer, como disse o governo Lula no início, e repetiu
largamente, fazendo com que vários militantes de esquerda caíssem
no conto do vigário, que era só um momento, que se tinha
que enfrentar a crise e que, depois, seria tocado o verdadeiro programa.
BF - Havia ou não um plano B?
Leda - Até havia, mas o governo
Lula não teve peito de
levá-lo adiante. Vários economistas trabalharam nele. O
governo ganha credibilidade e depois nem pode fazer o que quiser, porque
se mexer em qualquer daquelas variáveis que garantiram a credibilidade,
ela se esvai. Este modelo de credibilidade é o mesmo da segunda
gestão Fernando Henrique. Depois do colapso, em janeiro de 99,
o governo abraça o modelo da credibilidade, com enorme arrocho
fiscal, superavit fiscal elevado, taxa real de juros muito alta (recurso
que já tinha sido usado para segurar o câmbio), e adota
um regime de metas de inflação, que não existia,
porque, até então, o câmbio era a âncora.
BF - O governo Lula simplesmente deixou tudo como estava?
Leda - Rigorosamente, importou a mesma lógica. E a aprofundou,
para surpresa de todos os militantes do PT. Parte das lideranças
do partido já vinha caminhando para o centro do espectro ideológico,
mas, ainda assim, imaginava- se que seria feita alguma sinalização
no sentido contrário do que Fernando Henrique implantou. Não
concordo quando setores da esquerda dizem que estávamos iludidos.
BF - A seu ver, a esperança tinha fundamento?
Leda - Quando pegamos o documento do encontro nacional do PT, em dezembro
de 2001, em Recife, o que está lá é comparável
aos discursos da Heloísa Helena. E ela foi expulsa...Lá estão
questões como soberania, enfrentamento com entidades tipo FMI,
além de propostas como a do controle de capitais. Mas esse documento
foi rasgado...
BF - O PT e o governo Lula trocaram um projeto de nação
por um de poder?
Leda - Exatamente. Mas, por quê? Porque não tiveram peito
para enfrentar uma mudança. E como o projeto maior já era
o do poder pelo poder, qualquer escolha, ainda mais numa conjuntura conturbada
por causa do terrorismo eleitoral, envolvia riscos. Eles calcularam que
manter a situação do jeito que estava era menos arriscado
do que tentar mudar. Então o que estamos vendo é isso:
a briga de tucanos e petistas não é por idéias, é pelo
poder. Só.
BF - Num cenário de dominância do neoliberalismo econômico,
de agressividade da política imperial, é possível
a um país como o Brasil ter um projeto nacional autônomo?
Leda - Ninguém é capaz de dar uma receita, mas se houver
vontade política, consciência dos constrangimentos que hoje
estão colocados para o desenvolvimento nacional, acho que dá para
começar. Não fazer isso é impedir o país
de promover políticas que, de fato, reduzam a desigualdade; condena
o país a uma lógica sobre a qual ele não tem qualquer
arbítrio.
BF - Mas como o país pode sair da situação em que
está num quadro de apatia dos movimentos sociais?
Leda - A grande tragédia que vivemos hoje decorre do seguinte:
se havia algum movimento político, algum partido com cacife, capital
político, apoio popular, para começar a virar o timão
para outro lado era o PT, o presidente Lula. Eles fizeram rigorosamente
o contrário. O governo Fernando Henrique não surpreendeu
porque sempre achei que o PSDB faria um governo de elite, preocupado
com o desenvolvimento capitalista, não com a nação.
Eles desenvolveram a agenda neoliberal inaugurada pelo Collor.
BF - E o PT?
Leda - Não dava para pensar a mesma coisa de um governo do PT,
por mais que tivéssemos clareza de suas mudanças. Não
dava para imaginar que Lula faria exatamente a mesma coisa. Imaginava-se
que faria muitas concessões, mas para começar a tentar
abrir um espaço para um desenvolvimento mais equânime, nacional
e soberano. Mas o governo do PT não só adotou o modelo
da credibilidade, como o aprofundou, amarrando ainda mais o país.
Hoje, para sair desta embrulhada, o custo é muito maior do que
teria sido no início, quando o governo tinha capital político,
apoio popular.
BF - O que segurou o governo Lula?
Leda - O mais surpreendente é que até o mercado estava
esperando mudanças. Para usar uma linguagem que economista de
mercado gosta muito, a vitória de Lula já estava precificada.
Isso quer dizer que o mercado estava dando de barato que haveria alguma
mudança contrária aos seus interesses, que alguma mudança
estava embutida em todos os indicadores. Ninguém achava que o
governo Lula ia simplesmente continuar o anterior, na mesma toada. Algo
espantoso: o próprio mercado esperando alguma mudançazinha,
mas nada foi feito.
BF - Nada, mesmo?
Leda - Pelo contrário. É só lembrar
das três primeiras medidas de política macroeconômica,
stricto sensu, tomadas pelo governo Lula. Uma, a elevação
brutal da taxa de juros, que foi parar em 26%. A segunda, superávit
primário maior do que o pedido pelo FMI - ao invés de 3,75%,
4,25%. Por fim, um aumento na taxa de redesconto dos bancos comerciais
que implicou um corte da ordem de 10% nos meios de pagamento que circulavam
na economia - isso é a mesma coisa que pegar uma pessoa que respira
normalmente e enforcá-la - porque a liquidez, os meios de pagamento
em circulação são o oxigênio da economia.
Se, de uma hora para outra, de uma tacada só, corta 10%, a economia
leva uma cacetada que, até se reerguer, demora. Não por
acaso o resultado de 2003 foi praticamente zero. Um governo com cacife
e apoio tomar tais medidas mostrava que alguma coisa estava errada...
BF - Quais os fundamentos do neoliberalismo?
Leda - É uma doutrina que faz a defesa incondicional das supostas
virtudes do mercado, mas que depende mais de crença do que de
ciência. Quer dizer, é uma questão de fé. É também
um conjunto de práticas de política econômica que
se destinam única e exclusivamente a ampliar o espaço do
mercado. Quer um Estado mínimo, rigoroso controle dos gastos orçamentários,
superavits primários elevados, privatização. Enfim,
desregulamentação total da economia, o que implica fluxo
de capitais liberado, serviços públicos privatizados, flexibilização
do mercado de trabalho, de todas as regras trabalhistas etc. etc.. E,
também, mudar o sistema previdenciário, do regime de repartição
para o de capitalização, uma coisa na qual o mercado financeiro
privado estava de olho há pelo menos duas décadas. O Fernando
Henrique conseguiu fazer uma mudança que atingiu os trabalhadores
do setor privado, e não conseguiu o mesmo com os do setor público
- eles, muito organizados, conseguiram barrar.
BF - Aí veio o governo Lula e entregou a Previdência do
funcionalismo ao setor privado...
Leda - Ele fez o que Fernando Henrique não conseguiu. O mercado
dos servidores públicos é muito mais interessante do que
o do setor privado. Primeiro, porque a renda do funcionalismo é muito
mais alta e quem trabalha no setor público, em princípio,
tem estabilidade, o que significa que não há quebra nos
fluxos de recursos que vão para as entidades privadas que gerenciam
os fundos de pensão.
BF - Vamos voltar ao neoliberalismo...
Leda - De um lado, a partir dos anos 70, temos uma nova configuração
do capitalismo. Nela, de acordo com os parâmetros neoliberais,
o comportamento dos países periféricos deve atender aos
interesses dos países do centro, isto é, o capital não
pode ser queimado. Hoje, o papel de um país como o Brasil no capitalismo
internacional, predominantemente financeiro, é ser uma plataforma
de valorização financeira internacional que possibilita
ganhos reais muito elevados em moeda forte, praticamente sem riscos devido à liberdade
do fluxo de capitais.
BF - Onde está a saída?
Leda - O papel dos movimentos sociais no Brasil, e no mundo, é fundamental
para alterar o que quer que seja. Pela lógica do sistema capitalista
não se tem uma saída. É pela via política.
Da contestação, do enfrentamento. Em resumo, com o modelo
que aí está, nada de desenvolvimento sem exclusão,
com geração de emprego e renda, nem desenvolvimento nacional,
com soberania. Este modelo não é uma saída para
o Brasil. Isso tem que ficar claro. Por maiores que sejam os riscos de
mudanças, se não forem feitas, as perspectivas para o país
são muito ruins.
Quem é
De orientação teórica marxista, a
economista Leda Paulani é professora-doutora de história
do pensamento econômico da Faculdade de Economia e Administração
da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Dedicada à pesquisa
de metodologia da Economia, sua tese, em 1992, teve como tema "Do
Conceito de Dinheiro e do Dinheiro como Conceito". Entre os livros
que escreveu incluem-se A Nova Contabilidade Social (Editora Saraiva)
e Modernidade e Discurso Econômico (Boitempo Editora). Leda é,
também, presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política. |