Carta à Coordenação Nacional da Democracia Socialista
PALAVRA CRUZADA - 29/06

Companheir@s

Na última Conferência Nacional da Tendência Democracia Socialista, realizada de 21 a 23 de abril, sustentamos a necessidade de nos afastarmos do governo Lula, disputarmos o PT em um debate aberto na sociedade, impulsionarmos uma mobilização social autônoma frente ao governo e desempenharmos um papel estruturante do Bloco de Esquerda, entendido não só como um bloco parlamentar petista, mas também como um campo de mobilização política e social.

Neste debate firmamos um compromisso de unidade da tendência com base na incorporação de três pontos: a exigência de substituição imediata da equipe econômica por outra comprometida com o programa histórico do PT; a sustentação do Bloco de Esquerda; e a não subordinação da mobilização social à dinâmica governamental. Foi em função destes acordos que o companheiro João Alfredo retirou seu nome da disputa do PED e se engajou, com todos nós, na campanha do companheiro Raul Pont à presidência do PT.

Mas o pedido de substituição de Palocci e Meirelles durou o tempo de uma entrevista coletiva de imprensa dada por Raul durante a Conferência da DS. Na segunda-feira, face às repercussões de suas declarações e a afirmação de Genoino e Silvio Pereira de que então a DS deveria abandonar seu ministério, o discurso de Raul se alterava para pedir a mudança da política econômica e o afastamento dos ministros acusados de irregularidades (Meireles e Jucá), preservando exatamente Palloci e perdendo toda a contundência.

Os companheiros Tarcisio Zimmerman e Orlando Desconsi, deputados da DS pelo Rio Grande do Sul, jamais se integraram ao Bloco de Esquerda e, quando estouraram as denúncias de corrupção nos Correios, se recusaram a assinar o pedido de uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o tema, impulsionada pelos parlamentares do Bloco de Esquerda. Eles foram obrigados a assinar o pedido, uma semana depois, junto com toda a bancada parlamentar do PT, em função da gravidade das denúncias que foram surgindo.

E dirigentes da Democracia Socialista em distintos movimentos sociais apoiaram a assinatura de uma Carta aos Brasileiros e a convocação de um ato, em 1º de julho, em Goiânia, durante o Congresso da UNE cujo sentido é a defesa do governo (visto como sendo ameaçado por um movimento golpista da direita) e daqueles apresentados como sendo injustamente acusados de corrupção – o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, o secretário geral do partido, Silvio Pereira, e principalmente o ex-ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu (muitas vezes apresentado por setores governistas como representando uma ala esquerda do governo). Em poucos dias, as evidências cada vez mais fortes da existência de um grande esquema de compra de votos de parlamentares da direita envolvendo o governo de o partido, fizeram com que esta iniciativa desesperada destes setores governistas da CUT e do MST alinhados com Dirceu ganhasse um caráter caricatural e se esvaziasse melancolicamente.

Mas não é só isso. Quando, face às denúncias envolvendo Delúbio Soares e Silvio Pereira, dirigentes do próprio campo majoritário do PT defendiam o seu afastamento da executiva do partido durante as investigações, Joaquim Soriano, representante da Democracia Socialista na executiva nacional do PT, apoiou um resolução que dava um voto de confiança da direção do partido aos acusados. Depois, os membros da DS no Diretório Nacional do PT subscreveram, junto com outros setores da esquerda governista, um documento que retomava a tese da “conspiração da direita” e cederam às chantagens do presidente do PT, José Genoino, ele também envolvido nas acusações de compra de votos, e não submeteram a voto o pedido de afastamento de Delúbio Soares e Silvio Pereira da executiva nacional.

Durante esta que é a mais grave crise da história do PT e do governo Lula, a maioria da direção nacional da DS esteve omissa, perplexa ou a reboque dos setores do partido acusados de corrupção. São cada vez mais evidentes os indícios de que as acusações feitas contra setores do PT têm fundamento e o partido está se desmoralizando aos olhos da opinião pública. Esta situação, que mostra o caráter suicida da orientação adotada pela maioria da direção da tendência, não pode continuar. Ela levará à falência da DS como corrente política de esquerda. Solicitamos a convocação imediata de uma reunião da Coordenação Nacional da Tendência, ampliada com representantes das Coordenações Estaduais, para discutir a crise e reorientar a linha política da tendência.

29 de junho de 2005

Membros da Coordenação Nacional

Paulo Torelly - RS
Félix Sánchez - SP
José Corrêa Leite - SP
Rogério Alimandro - RJ
Arthur Vianna - ES
Waldemir Catanho - CE

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