| Quem acompanha a TV Senado
se encanta com uma de suas atrizes principais, sempre no papel de uma
guerreira que, da tribuna, brada posições firmes, marcadas
com o dedo em riste. Nas recentes transmissões de CPIs e comissões
de falta de ética ela também rouba as cenas, peitando deputados
e depoentes, com seu uniforme de super-heroína simples – jeans
e camiseta – mas com a armadura das convicções. Por
isto quem conhece Heloísa Helena pessoalmente tem um primeiro
espanto: como pode esta mulher tão miudinha, tão magrinha,
doce e carinhosa e calma, ter tanta fama de brigona e brava? Mas, no
decorrer da entrevista, percebe-se o porquê da aura de valente.
Ao tocar em pontos dolorosos, ela se exalta, se inflama, se indigna!
Impressiona também sua velocidade com as palavras, encadeando
frases feitas com sua raiva das desfeitas, desancando e não permitindo
apartes até que se complete seu raciocínio. De tanto ler
os poetas, Heloísa adquiriu uma forma indireta de falar – que
procurei conservar aqui – e que torna seu discurso ainda mais interessante.
Neste encontro com a senadora-samurai, além dos entrevistadores
habituais do B, estiverem presentes Rodrigo de Almeida, editor da página
de Opinião do JB, e, escoltando a musa do partido, dois fiéis
escudeiros do PSOL: Martiniano Cavalcante e Milton Temer. (Ricky Goodwin)
Ziraldo - Você tá magrinha! Está menos ainda com
cara de senadora. Você anda malhando?
Heloísa Helena - Pior que não, foi doença mesmo.
Fiz uma cirurgia pra tirar uma nódoa da mama (ri) causada por
uma tristeza profunda...
Ziraldo - Heloísa, o mundo não pode prescindir de pessoas
como você. Eu queria, pois, conversar sobre essa menina que era
uma enfermeira do sertão de Alagoas...
Heloísa - Nasci num lugar com um nome lindo: Pão de Açúcar.
Mas o nome mesmo da cidade é mais belo ainda: Jaciobá,
espelho da Lua. Morei em cinco municípios do sertão - família
pobre anda muito - e um deles foi Palmeira dos Índios, a cidade
de Graciliano Ramos. Meu irmão todo ano ganhava um diploma de
maior freqüentador da Casa de Graciliano Ramos. Minha mãe,
filha de trabalhadores rurais, só sabia assinar o nome, mas, mesmo
não conseguindo decifrar as letras, gostava de dar livros pra
gente. Meu pai morreu jovem, de câncer, quando eu tinha três
meses. Meu outro irmão foi assassinado quando eu era pequena.
Meninas como eu nascem carimbadas com o destino de viver no quartinho
de empregada ou de vender o corpo por um prato de comida, mas algumas
se salvam. Tive a sorte de conviver com a Igreja libertária. Os
padres e as freiras holandesas nunca me ensinaram o Evangelho como uma
história de subordinação e subserviência aos
grandes e poderosos. Pelo contrário, aprendi que é a história
da luta de libertação do povo de Deus. Ao mesmo tempo,
eu lia um comunista que era Graciliano. Rodrigo
Almeida -
Leu Cartas a Heloísa?
Heloísa - (Ri) Muita gente pergunta se sou Heloísa por
causa de Graciliano Ramos, mas é que meu pai foi Luís e
minha mãe Helena. Entrei na escola com 8 anos, era muito doente,
tinha asma, problema renal, todo mundo dizia que eu não ia passar
dos 9 anos. Tinha um cabelo imenso, aqui, no joelho! Com 7 anos minha
mãe fez promessa e cortou meu cabelo homenzinho. Na hora em que
cortou me senti tão diferente. Fui levantar, fiquei tonta e caí,
imagina.
Ziraldo - Foi a sua primeira perda de peso.
Maria Lucia Dahl - Você diria
a sua idade?
Heloísa - Não tenho nem como esconder, porque sou senadora
há dois mandatos e a idade mínima é 35: estou com
43. Mas tem uma frase de Oscar Wilde que diz: ''Nunca confie numa mulher
que diz a idade, porque ela é capaz de dizer qualquer coisa!''.
Ricky Goodwin - Ih, então a entrevista vai ser boa!
Arthur Poerner - Na última vez em que nos vimos, em Cuba, em
2000, era inimaginável toda essa transformação:
você sair do PT, fundar outro partido, talvez ser candidata a presidente,
seus ex-companheiros te chamarem de traidora...
Zezé Sack - Foi você ou
o mundo que mudou?
Heloísa - Não sei nem se foi o PT. A paixão nos
cegou a ponto da gente não ter conseguido desvendar os mistérios
da alma humana de algumas lideranças partidárias. Não
acredito que o poder tenha mudado as pessoas, que tenham se metamorfoseado
ao tocarem os tapetes supostamente sagrados dos palácios. O poder
não muda as pessoas, ele as revela.
Ricky - Eles eram assim mesmo? Não é um
caso de deslumbramento com o poder?
Heloísa - Evidente que tem o deslumbramento, mas já vinham
num claro processo de burocratização degenerativa, que
nós, por saudosismo ou por falta de análise, não
percebemos. Nem eu, que iniciei com eles dramáticas contendas,
imaginei que iria chegar onde chegou. Sei que o momento que estamos vivendo é doloroso.
Eu não comemoro.
Maria Lucia - É meio como um ex-marido. As amigas ligam contando
como ele se ferrou, mas você fica triste porque lembra o quanto
se amavam.
Heloísa - Mesmo após o processo doloroso pelo qual passamos
ao sermos expulsos, dos açoites, da humilhação,
da fogueira em que fomos jogados... Quando nos empurraram no tribunal
da inquisição não era apenas para aniquilar pessoalmente
algumas pessoas, era para que o nosso grito de dor simbolizasse para
outros o que lhes poderia acontecer se resistissem politicamente.
Ricky - Mantendo o paralelo amoroso: como começou
seu namoro com o PT?
Heloísa - Eu era militante da CUT e do movimento dos trabalhadores
rurais e entrei no PT pelo seu lado social. Tinha dúvidas com
relação à participação na institucionalidade,
mas acabei sendo candidata a vice-prefeita de Maceió pelo PT,
pra ajudar o partido, numa chapa destinada a perder. Só ganhamos
a eleição por causa do impeachment do Collor. O sopro das
ruas localizou na nossa candidatura a representação daquele
momento político. Depois de um ano como vice-prefeita fui a primeira
deputada estadual do PT. Qualquer um no meu lugar teria as condições
objetivas de ascender politicamente porque era um momento conturbado
em Alagoas, com uma Assembléia Legislativa vinculada ao crime
organizado. Mas meu temperamento pouco civilizado talvez tenha me ajudado
a fazer um bom mandato de enfrentamento.
Rodrigo Almeida - Recebeu muitas ameaças, Heloísa
?
Heloísa - Ameaças? Levei tapas, fui arrastada pelos cabelos,
jogada no meio de uma feira de tomates, coisas terríveis... É doloroso
ver hoje aqueles que foram parte da tropa de choque das coisas mais podres
na política de Alagoas serem os amores primeiros do governo Lula.
Pela generosidade do povo de Alagoas, porém, fui eleita senadora,
quebrando a tradição onde para tocar os tapetes azuis do
Senado tinha que ser da varanda dos usineiros ou da cozinha dos pistoleiros.
Alagoas botou no Senado uma mulher do povo, apesar de uma campanha difícil
onde se dizia ''quem é essa neguinha? Nem sabe se vestir, vai
querer ser senadora!'' (sorri) Bem, quanto a não saber se vestir,
tinham razão...
Rodrigo - Por que o PT escolheu você como
candidata?
Heloísa - O PSB nacional disse que só apoiaria o Lula
naquela eleição se resolvessem o problema de Alagoas. Que
era eu. Então retirei minha candidatura à governadora em
favor de Ronaldo Lessa pra poder consolidar essa aliança e passei
a ser candidata ao Senado. É por isso que eu digo que minha cota
de engolir política de alianças pra ajudar o PT já foi
dada. Na eleição de 2002, embora estivesse em primeiro
lugar nas pesquisas, deixei novamente de ser candidata a governadora
por causa da aliança do PT com o PL. Eu não queira compartilhar
o mesmo palanque com a canalha do meu estado.
Ziraldo - É possível, nesse mundo capitalista, com essa
poderosa ordem econômica internacional, governar sem fazer alianças?
Heloísa - A ordem jurídica vigente estabelece poderes
imperiais ao presidente da República. Pra investir nas políticas
sociais não precisa do Congresso Nacional. O governo Lula investiu?
A Lei Orgânica da Assistência Social é uma declaração
de amor aos miseráveis e oprimidos. O governo Lula cumpriu a lei?
Pra fazer uma auditoria na dívida externa ou repactuar a dívida
interna não precisa do Congresso Nacional. Por que Lula não
fez grandes acordos com a sociedade? Essa baboseira de governabilidade,
de construir maiorias que são base de bajulação,
com delinqüentes de luxo, conhecidos saqueadores dos cofres públicos,
e mentir pra sociedade que isso é essencial, pra mim é um
misto de patifaria e cinismo. Pra estar confortável com estas
alianças eu teria que estar imbuída dos mesmos atributos
de cinismo e dissimulação que alguns consideram essenciais.
(Exaltada) As alianças feitas pelo Lula foram pra viabilizar qual
projeto? O da esquerda socialista democrática? Não! O projeto
de algum setor progressista que pensa na inserção do Brasil
na globalização capitalista preservando a soberania nacional?
Não! Foi para legitimar a verborragia da patifaria neoliberal!
Pra cumprir os memorandos do FMI!
Poerner - A começar pela Reforma da Previdência.
Heloísa - Mentirosos são os que dizem que essa reforma
foi pra combater privilégios! Criou mecanismos pra punir os filhos
da pobreza que entram mais cedo no mercado de trabalho. Pessoas que começaram
a trabalhar com 16 anos iam à prefeiturazinha do interior de Alagoas
pra começarem a receber sua aposentadoria e eram comunicadas de
que teriam trabalhar mais oito anos ou então receberem só 55%.
A Reforma da Previdência fez o jogo sujo de quem? Da nuvem de capital
volátil que paira sobre o planeta Terra, da canalha dos parasitas
sem pátria do capital financeiro! Tal qual aprendizes do publicitário
de estimação de Hitler, pegaram um setor odiado pela sociedade
- os funcionários públicos - e assolaram a opinião
a respeito de seus privilégios e mentiram muitas vezes pra que
virasse verdade. Noventa porcento dos funcionários públicos
ganham até um salário mínimo e meio.
Poerner - E a meia reforma tributária?
Heloísa - Outra farsa! Não taxou as grandes fortunas,
não diminuiu a carga tributária no setor produtivo que
gera emprego e renda, não taxou a remessa de lucros ao exterior
nem o capital especulativo! O que fez foi reeditar por mais quatro anos
a DRU criada por FH e que combatíamos com veemência e ferocidade!
Quando eu combatia a política econômica de FH não
era apenas para derrotá-lo, mas porque acredito nisso.
Ziraldo - O que é a DRU?
Heloísa - Autoriza o governo a saquear 20% dos recursos da Saúde
pra compor o superávit e encher a pança dos banqueiros
esvaziando a dignidade da grande maioria dos brasileiros. Só no
primeiro quadrimestre deste ano, além deste saque legalizado de
20%, saquearam R$ 17 bilhões a mais! E de quem? Do menino pobre
ardendo em febre em casa porque não tem hospital público,
da mãe na hora do parto, do velho gemendo por uma doença
crônica degenerativa! Metade da riqueza nacional está sendo
jogada na pocilga do capital! Nunca os porcos chafurdaram com tanta desenvoltura
quanto agora!
Rodrigo - E as Parcerias-Público-Privadas?
Heloísa - Nome lindo. Significa ''privatização
enrustida''. Que mais fez o Lula? A Lei das Falências. Antes, diante
da massa falida de uma empresa, a prioridade era pagar os trabalhadores.
Em segundo lugar, o interesse de todos, ou seja, o Estado. Em terceiro,
os outros credores. Hoje estão todos na mesma prioridade. Alguém
imagina que um trabalhador vai ter o mesmo acesso a uma massa falida
do que um banqueiro com seus gigantescos escritórios de advocacia?
Então pra que fazer alianças e conseguir maioria no Congresso?
Pra conspirar a favor do capital financeiro?
Poerner - Pra isso não precisavam
pagar.
Heloísa - Pois é, o PSDB e o PFL estrebucham na oposição
apenas pra reivindicar o direito autoral da obra, pois o projeto é o
deles. O governo Lula é mais do que a continuidade do governo
FH, é o aprofundamento do seu projeto. É uma traição
a todas as concepções programáticas do PT. É uma
agenda econômica distinta daquela com que nos comprometemos ao
longo de nossa história.
Ricky - Mas os próceres do PT não têm razão
quando dizem ''os incomodados que se retirem''?
Heloísa - O PT tem o direito de mudar de lado. Não pode é usar
a música de Raul Seixas. ''Ser uma metamorfose ambulante'' em
música é lindo, na realidade objetiva é outro tipo
de adjetivo. O PT deveria pelo menos ter honrado a tradição
dos partidos de esquerda e convocado um congresso pra mudar o seu programa.
Avisando abertamente: ''Mudamos. Quem quiser, fica, quem não quiser,
saia''. Ao mudar de lado, o PT sepultou o que não era de sua propriedade.
Aniquilaram bandeiras históricas da classe trabalhadora! É exatamente
por isso que temos a obrigação de entrar na disputa. (Ziraldo
tenta fazer uma pergunta mas ela se exalta novamente) Não criamos
o PSOL por sermos masoquistas! Foi a obrigação histórica
de criar um abrigo pra esquerda democrática que não se
vende pra se lambuzar no banquete farto do poder. Criar uma estrutura
partidária, nadar contra a correnteza, não é uma
coisa fácil. É como se todos os dias as ameaças
fossem tantas que acabariam por esgotar nossa capacidade de ação.
Mas em memória a todos os militantes da esquerda que entregaram
sangue e suor e lágrimas na luta pela construção
de concepções democráticas, não podemos ficar
no falso dilema entre os neoliberais tucaninhos e os neoliberais de estrelinha.
(Ziraldo tenta interromper mas ela está embalada) ''O PSOL é muito
pequeninho!'' Não importa. Se continuar pequeno, não será um
dos nanicos que funcionam como moeda de troca. Se crescer, jamais entregará sua
alma e suas convicções para ser aceito no convescote do
poder.
Ziraldo - Mas Heloísa, fazer política não é justamente
ter jogo de cintura? Não é atravessar um campo minado sem
pisar numa mina que detone seus ideais?
Heloísa - (ri) Pra escolher qual o campo entre as minas você tem
que saber onde quer chegar. O objetivo escolhido define seus passos. É uma
questão de opção de vida. O poder é muito
sedutor, claro, mas existem outras coisas maravilhosas. Fala-se no Oriente
que é melhor ter a flexibilidade do bambu, que passa por todas
as tempestades, do que a solidez do carvalho, né? Mas eu não
sou bambu. Pra mim bambu só serve para aquelas cenas maravilhosas
dos filmes orientais, com os samurais duelando e tocando levemente nas
plantas.
Ziraldo - Você diz que continua socialista. Que experiência
socialista você conhece que tenha dado certo? Ainda não
conseguiram fazer o socialismo conviver com a liberdade.
Heloísa - Só sei de uma coisa: conheço muito bem
as experiências capitalistas e a liberalização financeira
significa dor, miséria e sofrimento pra grande maioria da população.
Não temos nenhum entusiasmo em transpor mecanicamente nem os modelos
de outros países nem as lutas dos movimentos sociais em outros
lugares do mundo. Não podemos desmerecer a criatividade do povo
brasileiro. Por que não criar uma coisa nova aqui?
Ziraldo - Heloísa, tem uma coisa de que não gosto no seu
discurso que são os chavões e as frases feitas. ''Verborragia
da patifaria neoliberal.'' ''Parasitas sem pátria do capital financeiro.''
Tiram todo o caráter coloquial da sua fala. Parece que você está lendo
ou então decorou o texto. São como toque de clarim numa
canção de ninar.
Heloísa - (faz um carinho no braço do Ziraldo) Mas são
palavras em que acredito, flor! É o meu jeito de falar, uso muito
as adjetivações.
Ziraldo - Você sempre teve esse discurso fácil? Como você consegue
guardar tantos dados na cabeça? E essa extraordinária organização
das informações da atividade política? Você formula
pensamentos com a velocidade de um computador!
Heloísa - Ziraldo, sou uma pessoa normal! Sou provinciana e simplória.
Só viro uma onça pintada naquele Congresso porque aqueles
homens dão muito trabalho!
Ricky - Essa fama de brava é boa pra você usar
como uma arma ou acaba sendo um fardo?
Heloísa - É só fama. Eu acho que sou uma pessoa
superboazinha. Um poço de ternura. Sou como toda mulher que vive
engolindo seus próprios medos, escondendo suas fraquezas, mas
que renasce todos os dias com coragem, solidariedade e esperança.
Antonia Leite Barbosa - E por que
sempre jeans e camiseta?
Heloísa - Mania. Agora ainda tenho que agüentar quando falam
na ''moda Heloísa Helena''! Respeito todas as tribos, quem quiser
andar de salto alto, fazer plástica, usar cabelo vermelho... agora
quero que me respeitem também. As pessoas falam que faço
isso pra provocar, mas é por comodidade mesmo. Prefiro provocar
em coisas mais nobres do que no vestuário.
Martiniano Cavalcante - Uma das principais características da
Heloísa é ela ser prática. Outra característica
dela é ser trabalhadora.
Heloísa - Sou muito disciplinada e quero saber de todos os detalhes!
No gabinete me ironizam, dizem que não superei a fase do ''por
quê''. Minhas coisas são todas organizadas, desde o tempo
em que eu dava aula. Sou neuroticazinha no sentido de buscar cumprir
minha obrigação da melhor forma possível. Não é capricho
ou coragem pessoal: é fazer as coisas certas. Gosto de me sentir
como um samurai. (Ri) Leio muitas coisas orientais, no meu aniversário
meus filhos me deram uma espada de samurai lindíssima.
Antonia - Você pratica remo, né? Seu professor falou que
você não rema pra direita, só pra esquerda! (risos)
Heloísa - Ah, ele faz a maior brincadeira comigo! Eu adorava
remar, era um momento de tranqüilidade, mas depois a polícia
do governo Lula me deu uma paulada e dei um jeito no meu pé. Uma
dúzia de servidores, inclusive mulheres idosas, estávamos
no prédio do INSS e mandaram a tropa de choque da Polícia
Federal - criada pra combater seqüestradores e narcotraficantes
- dizendo que estávamos fazendo uma ocupação. Nunca
imaginei que eu fosse tão leve! Na hora doeu no corpo, mas quando
eu vi as cenas pela TV Senado, eles me jogando longe, doeu na alma.
Maria Lucia - Lula tem consciência
de que se desviou do caminho?
Heloísa - Pelo que conheço da estrutura partidária, é impossível
que Zé Dirceu, Delúbio e Silvinho fizessem alguma coisa
sem conhecimento do Lula. Nunca compartilhei com a visão elitista
de dizer que Lula é um incompetente ou pau-mandado. É um
homem brilhante e profundo conhecedor da máquina administrativa.
A opção foi clara: partilhar o Estado brasileiro com os
saqueadores dos cofres públicos, que, ao invés de serem
obrigados a restituir o que roubaram, foram reconduzidos aos cargos para
roubarem ainda mais.
Ricky - Um efeito triste dessa história é o desencanto
da população com a esquerda. Isso não dificulta
ainda mais o nascer do PSOL?
Heloísa - Muito! Legitimar-se no imaginário popular é um
atributo essencial para as personalidades políticas fazerem parte
dessa malandragem toda. Isso é ruim para nossa democracia representativa,
que já não é boa, e péssimo para a esquerda.
Muita gente me diz: ''Olha, eu adoro você, Heloísa, mas
não entra nessa história de partido não. Quando
chegar lá vai fazer tudo igual''.
Antonia - As pessoas gostam muito de você também por suas
frases de efeito, né? ''Comigo é quente ou frio. Morno
eu vomito''.
Heloísa - Isso é de uma passagem bíblica lindíssima.
O velho camarada Trotsky dizia que a verdade é revolucionária,
mas, antes mesmo de descobrir os mais belos textos da esquerda socialista,
já aprendi isso lendo a Bíblia. Onde também diz
que os capitalistas vão virar churrasco do diabo, pois ou se serve
a Deus ou ao dinheiro.
Ricky - Outra sua é a expressão
''neo-qualquer-coisa''.
Heloísa - Muitos dos cavaleiros audazes de FH são os cavaleiros
audaciosos do governo Lula. São esses os neo-qualquer-coisa. Estavam
esculhambando Lula e Zé Dirceu e hoje estão na galinhagem. É por
isso que tenho que dizer: haja engov pra tanto gov!
Maria Lucia - Estamos terminando a entrevista e não falamos do
seu gosto pelo poesia. Você conhece muito os poetas, né?
Heloísa - Leio muito Fernando Pessoa e Ledo Ivo. As lágrimas
fazem cicatrizes na alma, né, mas digo sempre que só tem
cicatriz na alma quem nunca esteve no campo de batalha e quem nunca se
acovardou. Toda vez que estou desanimada recito parte de um poema de
Ledo Ivo: ''Meu coração está batendo / sua canção
de amor maior / bate por toda a humanidade / em verdade eu nunca estou
só''. Outro dele termina assim: ''Eis o regimento do mundo / relâmpagos
e raios / depois flores e frutos''. No auge de uma briga com o PT eu
disse uma dele também: ''Quem cala a minha / boca não perde
por esperar / o silêncio de agora / amanhã é voz
rouca / de tanto berrar''.
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