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| A crise no PT tem nome e sobrenome |
| Marco Aurélio Weissheimer |
| Agência Carta Maior - 05/07 |
| Para além de possíveis desvios éticos de integrantes da direção do PT, o que a crise que atingiu o partido em cheio demonstra, acima de tudo, é o estrondoso fracasso da política implementada pelo chamado Campo Majoritário. A raiz do problema é política e as saídas, portanto, são da mesma natureza. Não reconhecer isso e reduzir a situação atual à conduta individual deste ou daquele dirigente é o caminho mais curto para a destruição completa do partido. Neste sentido, o afastamento de Delúbio Soares e de Silvio Pereira de suas funções dirigentes é um passo necessário mas absolutamente insuficiente para dar conta dos dilemas que o PT enfrenta hoje. Há um problema político de fundo que não está sendo debatido com os milhares de militantes petistas espalhados pelo país que assistem, perplexos e desorientados, a corrosão do tecido partidário. A construção de uma política de alianças baseada em um pragmatismo rasteiro, regido pela lógica do “vamos fazer o que for preciso para ganhar”, teve como uma de suas conseqüências mais perversas a constituição de um modelo de governabilidade completamente estranho às idéias e princípios que formaram a identidade do PT como um partido de esquerda capaz de se tornar uma referência internacional. Esse pragmatismo rasteiro já havia atingido o partido muito antes da vitória de Lula com a drástica alteração da vida interna partidária. A intensa vida orgânica que caracterizou o PT, particularmente na sua primeira década, foi substituída por uma ênfase absoluta na lógica eleitoral. Os animados debates que marcavam a vida dos núcleos e setoriais do partido foram sendo progressivamente empurrados para a periferia até seu quase total esvaziamento. Na maioria dos casos, os mandatos foram se transformando em pequenas tendências e os interesses particulares de cada um (sua reeleição ou eleição para um cargo maior) foram subordinando qualquer tipo de interesse estratégico coletivo. A crise tem nome, sobrenome e CPF Essa metamorfose traduziu-se também no campo programático, com sucessivas concessões e abdicações de agendas históricas do partido, processo este que teve seu ápice no governo Lula. É importante assinalar que a “conversão” do PT à “modernidade”, o abandono de “radicalismos” do passado, foi cantada em prosa e verso por boa parte da mídia e de formadores de opinião como um avanço para a democracia brasileira. O partido havia saído de um período de adolescência rebelde e, finalmente, tinha atingido a maturidade, diziam muitos. Pois bem, essa conversão não foi um fenômeno natural mas sim o resultado das concepções e práticas políticas do chamado Campo Majoritário. E a crise que assistimos hoje tem nome, sobrenome e CPF bem definidos. Muitas dessas mudanças foram resultado, é verdade, da vitória no voto, nas instâncias partidárias, das posições da maioria. Mas nem todas. O apoio que a direção partidária deu a várias escolhas do governo Lula, particularmente na área econômica, não só entra em conflito com as resoluções do último Encontro Nacional do partido, como se deu sem qualquer tipo de consulta e debate com a militância petista. A deterioração da vida democrática e do debate teórico interno não poderia ter ilustração mais eloqüente. Mais grave ainda, esse processo de deterioração foi marcado por declarações e posturas arrogantes, personalistas e autoritárias, que procuravam desqualificar quem tentasse questionar a correção dos rumos então escolhidos. Tudo isso é bem conhecido de quem acompanha a vida partidária nos últimos anos. O que é bem conhecido também é que os dirigentes petistas que defendem e ajudam a implementar a atual política econômica estão sendo blindados e deixados fora da crise, como se não tivessem nada a ver com as escolhas partidárias que conduziram o PT ao ponto em que está. Aliás, a separação entre economia e política, o discurso do pensamento único que afirma não haver outro caminho a seguir, são primas-irmãs da política de alianças abraçada pela atual direção petista. Este modelo foi construído meticulosamente dentro do partido nos últimos anos e seus construtores não pouparam críticas a quem via nele o caminho mais curto para o aniquilamento das idéias que embalaram o nascimento do PT. O PTB como aliado estratégico? Ainda permanecem vivas na memória de militantes do PT gaúcho, por exemplo, as pesadas críticas dirigidas ao “radicalismo” e ao “caráter estreito” do governo Olívio Dutra e da postura geral do partido no Estado. Essas críticas se referiam, em especial, à resistência em adotar uma política de alianças mais ampla. Há alguns meses, documentos de representantes do campo majoritário no Estado defendiam que o caminho para o partido voltar ao poder no RS passava fundamentalmente por uma aliança com o PTB. A ironia histórica é cruel. O governo Olívio Dutra teve seus erros, é verdade, nenhum deles, porém, comparável a estes que ameaçam agora a própria sobrevivência política da sigla. A experiência do PT gaúcho em 16 anos de prefeitura de Porto Alegre e quatro no governo do Estado teve como símbolo máximo o Fórum Social Mundial. Qual será mesmo o símbolo deixado pelos críticos dessa experiência? Um deles servirá como lembrança para o futuro: a prática do auto-engano. Uma das coisas que mais chama a atenção nas declarações de muitos dirigentes partidários nos últimos dias é a insistência em tergiversar sobre as causas da crise e em tentar minimizar a extensão do estrago feito. O estrago é devastador e suas dimensões só poderão ser avaliadas com maior precisão nas próximas eleições. Pouca gente duvida que as bancadas petistas sofrerão reduções significativas, a menos que uma reação enérgica recomponha ao menos algumas das pontes com a sociedade e com a própria base social do PT, pontes estas que foram destruídas ou seriamente danificadas. Muitos parlamentares petistas, dirigentes partidários e militantes comuns já vivem a desconfortável experiência de ouvirem piadas e mesmo xingamentos nas ruas, em aeroportos ou cinemas. Mesmo assim, muitos deles permanecem acreditando que é possível superar o atual momento sem medidas drásticas quanto à atual direção partidária, sem atritos ou conflitos com aqueles setores que se negam a reconhecer os erros cometidos. Uma lição dos generais romanos Os generais romanos gostavam de citar uma máxima estratégica: em situações de extrema adversidade, quando você está cercado por todos os lados e em situação de fragilidade, é preciso ser o mais ousado possível. A julgar pelas declarações de vários dirigentes petistas nos últimos dias e pelo imobilismo que toma conta do partido, o caminho adotado será outro que o da ousadia. Enquanto isso, a cada dia que passa, militantes e simpatizantes do PT jogam a toalha, desencantados e sem esperança. Neste momento, há uma luta dentro do partido entre aqueles que querem mudar drasticamente de rumos, o que implica, fundamentalmente, mudar a direção política do partido, e aqueles que acham que o diabo não é tão feio assim e que tudo pode ser resolvido com uma boa conversa, sem maiores atritos, fazendo uma pequena reforma na casa, trocando alguns móveis. Bem, cada um acredita no quer e colhe os resultados de suas crenças. Quem anda pela rua diariamente vê a percepção e a reação que a população vem construindo em relação ao PT diante dos últimos acontecimentos. A imagem e os símbolos do partido se deterioram rapidamente. Cada dia sem decisões é um dia que aumenta a fragilidade do paciente. Esse quadro parece sugerir fortemente que o caminho para o PT, se quiser sobreviver politicamente como um partido de esquerda, democrático, militante e de dimensões nacionais, passa muito mais por uma refundação do que por uma repactuação que mude apenas alguns móveis de lugar. Considerando a rápida dinâmica da crise, as próximas semanas dirão quem está mais próximo da verdade. E a verdade, neste caso, é a sobrevivência política do PT. |
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