Dor sem glória
Léo Lince
Correio da Cidadania - 28/06

Os últimos acontecimentos mostram, com contundência explosiva, que quem escolhe como um de seus aliados padrão Roberto Jefferson não precisa de opositores. Afinal, o ditado popular segundo o qual “passarinho que dorme com morcego termina de cabeça para baixo” é mais antigo do que a Sé de Braga. Não foi por falta de aviso. Opositores respeitáveis - no próprio PT, nos movimentos sociais, na intelectualidade – cansaram de alertar. A política de alianças do governo, que agora o enreda em formidável encalacrada, foi uma escolha errada.

Essa escolha errada, no entanto, não foi um erro solteiro. Ela está casada com uma outra escolha, ainda mais problemática, adotada por força de insondáveis desígnios naquele intervalo de tempo entre a vitória eleitoral e a posse do novo governo. A eleição estava ganha e o apoio popular aceso na esperança de mudança. Palavra chave na campanha, nas comemorações da vitória e no discurso de posse, a mudança sumiu do mapa. As elites ofereceram ao novo governo a alternativa do “baixo impacto”. Ao invés das asperezas próprias do processo de mudança, o leito liso e confortável do continuísmo. Em suma, a glória sem a dor que sempre acompanha o parto das novidades.

A “governabilidade” da mudança implicava em turbulências: “nova gramática do poder”, militância cidadã mobilizada, participação popular, o parlamento aberto ao dinamismo das lutas sociais. Em tal escolha, certamente, não haveria lugar para Roberto Jefferson, Meirelles, Severino e que tais. Outras palavras, outro eixo, outra dinâmica, outros personagens. Ao optar pelo facilitário do continuísmo, o governo teve que escolher a “governabilidade” que lhe é adequada: a velha aritmética onde prosperam os partidos de ocasião e os políticos de negócios. Ancorado nas piores tradições, esse é um tipo de política que sempre foi de grande serventia para reproduzir o mando das elites. Para mudar, no entanto, ele não tem serventia nenhuma. O continuísmo alimenta o intestino grosso da pequena política e nele se sustenta. E o resultado é o que aí está.

Não por acaso, muito se tem falado nos últimos dias em pacto com o diabo. Um tema terrível, que habita sempre as grandes encruzilhadas. Até o próprio presidente andou tratando dele, ao repelir a idéia de vender a alma para se reeleger. O que o diabo oferece aos que lhe vendem a alma é, exatamente, a possibilidade da glória sem dor, sem os sacrifícios que costumam acompanhar a construção de qualquer empreendimento humano. Antes e depois de Fausto, a sedução demoníaca sempre se apresentou como mecanismo capaz de conferir grandeza aos que dispõem de alma pequena. Uma transação tenebrosa que, por maior que seja a materialidade da contrapartida, não vale a pena.

O demônio tenta sempre, este é o seu papel. O caso mais famoso, que deu origem à série, foi o do crucificado do Gólgota. Está na Bíblia e em inúmeras citações de clássicos da literatura universal. Ele rechaçou de pronto, sabia que o anjo mau lhe oferecia o que não era dele. E sabia também que o caminho da glória passava pelo sacrifício do calvário. No reino deste mundo, a ilusão da glória sem dor pode resultar, em fração de segundos, em dor sem glória.

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