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| Os ratos da Monsanto |
| Silvia Ribeiro, La Insignia |
Planeta Porto Alegre - 27/06 |
| No dia 22 de maio, o jornal inglês The Independent revelou um estudo secreto da Monsanto que mostrava que um grupo de ratos alimentados com milho transgênico dessa multinacional sofreu mudanças em órgãos internos e no sangue. No México, a Secretaria da Saúde, equivalente a Ministério, aprovou esse milho para consumo humano em 2003. O estudo revelado dá conta de uma experiência que compara os efeitos em dois grupos de ratos: um grupo alimentado durante treze semanas com uma dieta rica em milho Mon 863 (um tipo Bt) e outro grupo com milho convencional. O informe, de 1.139 páginas, mostra que os roedores que comeram o produto transgênico sofreram anormalidades nos rins e na composição sangüínea, o que não aconteceu com os que comeram milho convencional. Devido às repercussões em jornais importantes da Europa e muitos outros no mundo (a notícia, saiu, por exemplo, na primeira página da Folha de S. Paulo, um dos principais jornais do Brasil), a Monsanto disse que tornaria público o estudo. Porém, só circularam press-releases e um resumo de onze páginas do documento. O restante, segundo a empresa, "contém informação empresarial confidencial que poderia ser usada pela concorrência". No México, talvez por não ser um tema relevante - o país é apenas o centro da origem do milho e a população o consome de forma massiva - ou talvez porque haja ratos em demasia ou amigos da Monsanto em demasia, a notícia foi ignorada pelas autoridades e praticamente não difundida pela mídia. No entanto, vários especialistas consultados pelo jornal britânico opinam que os dados são alarmantes, já que as mudanças no sangue poderiam indicar que houve danos ao sistema imunológico, ou outros distúrbios, como tumores. Michael Antoniu, especialista em genética molecular da Guy's Hospital Medical School, declarou que as descobertas descritas no resumo são "altamente preocupantes do ponto de vista médico" e afirmou estar "impressionado pela quantidade de diferenças significativas que se encontraram" na experiência. Para a Monsanto, de outro lado, as mudanças registradas são "insignificantes" e devem ser atribuídas a "variações normais entre ratos". Além disso, alega a empresa, o milho Mon 863 foi aprovado em vários países, e acrescenta cinicamente que, "se qualquer crítico da biotecnologia tivesse dúvidas sobre a credibilidade dos estudos, deveria tê-las expressado junto aos órgãos regulamentadores". Problema dos Roedores O México é um dos países a que a Monsanto se refere. A Comissão Federal para a Proteção contra Riscos Sanitários (Cofepris), da Secretaria da Saúde, aprovou a liberação da Monsanto em 7 de outubro de 2003. No ano seguinte, a organização não governamental Greenpeace denunciou que a Cofepris não faz as suas próprias avaliações científicas, mas se baseia nas avaliações entregues pelas empresas produtoras de transgênicos. Se a Cofepris teve acesso ao estudo da empresa, quais foram suas conclusões e em que as baseou? Ou simplesmente lhe bastou a interpretação da transnacional, de que as anormalidades relatadas são problema dos próprios ratos? A Monsanto argumenta que o Mon 863 foi analisado pela Agência de Segurança Alimentar Européia (EFSA, na sigla em inglês), que essa agência conhece a totalidade do estudo e recomendou o milho à Comissão Européia (que não aprovou o Mon 863). O que a empresa não conta é que essa agência contratou primeiro o doutor Arpad Pusztai, conceituado especialista em genética molecular e nesse tipo de experiências, obrigando-o a assinar uma declaração de confidencialidade, que ele assinou pensando que o texto logo seria publicado pela EFSA. Pusztai encontrou "uma lista imensa de diferenças significativas" entre os dois grupos de roedores, além de ter feito críticas severas à metodologia e às conclusões do estudo da empresa. A agência não gostou do chamado "Informe Pusztai", que coincidia com as conclusões de outros especialistas europeus, que tinham obtido antes uma versão censurada do texto, como GillesÉric Seralini, da Universidade de Caen, na França. Para Seralini e outros colegas, o Mon 863 poderia ter efeitos nocivos e não deveria nunca chegar à cadeia alimentar. A EFSA, no entanto, descartou esse alerta e procurou outros "cientistas" que tivessem a mesma opinião da Monsanto. Logo a agência publicou uma recomendação favorável. Ao que parece, cientistas independentes das multinacionais, populações preocupadas com sua saúde, camponeses que não querem que seu milho se contamine com elementos tóxicos e milhões de outros cidadãos que dizem não aos transgênicos, por essas e por muitas outras razões, não são elementos que devam ser levados em conta pela EFSA, pela Secretaria da Saúde ou pelos legisladores que votaram a mal chamada Lei de Biossegurança. Com a Monsanto, tudo bem. |
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