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| Crise e discursos contraditórios desorientam militância petista |
| Marco Aurélio Weissheimer |
| Agência Carta Maior - 27/06 |
| A esquerda brasileira e a militância petista em particular estão vivendo dias difíceis. E, dependendo da evolução dos acontecimentos, há uma boa probabilidade dessa situação ficar ainda mais dura. O título do filme de Marco Bellochio sobre o seqüestro de Aldo Moro, na Itália, talvez possa servir como uma ilustração do presente: “Bom dia, noite”. A crise política envolvendo o governo Lula e o PT está alimentando uma mistura de sentimentos de perplexidade, dúvida e incerteza entre milhares de militantes e simpatizantes da esquerda em todo o país. Os sinais contraditórios que partem do núcleo do governo federal e da direção partidária não contribuem exatamente para diminuir essa sensação. Os militantes petistas estão sob fogo cruzado, à esquerda e à direita. Além dos ataques diários desferidos por lideranças do PSDB, PFL e outros partidos, diariamente novos artigos de ex-petistas denunciam, na imprensa e pela internet, o “fim do PT” e de um período histórico. Um dos mais ácidos críticos, César Benjamin, por exemplo, em um artigo intitulado “Triste destino”, de 16 de junho, diz que o partido “continuará a existir como uma legenda a mais na política institucional, cada vez mais distanciada da vida do povo”. E acrescenta, de modo duro: “é tudo melancólico e patético para quem, algum dia, sonhou em mudar o país. Estamos assistindo ao fim de um ciclo na existência da esquerda brasileira, um ciclo que não deixa legado teórico, político ou moral. Resta saber como e quando ela se recomporá. Seja como for, o PT pertence ao passado”. Artigos de Fernando Gabeira também enchem os correios eletrônicos com duríssimos ataques e críticas ao governo e ao partido. Essas críticas, na verdade, não trazem grandes novidades, mas aumentam a "sensação de desconforto". Conspirações e golpismo Perdidos no turbilhão que envolve o partido e
sua direção,
os petistas procuram se agarrar no que vai aparecendo pelo caminho. Uma
das “tábuas de salvação” que anda circulando
pela internet é uma denúncia sobre a conspiração
que estaria em curso contra o governo Lula, capitaneada pelo “Grupo
Rio”, supostamente liderado por Fernando Henrique Cardoso. Segundo
esse texto “a exemplo do que ocorreu no Chile, em 1973, os neoliberais
da elite pseudo-intelectual, os donos de latifúndios, os empresários
da imprensa falida e os serviços de inteligência norte-americanos,
preparam a derrubada do ex-metalúrgico Lula”. Para Mercadante, “a política é uma via de mão dupla” Outro elemento que contribui para a desorientação
geral da militância petista é a sensação de
que o governo federal desencadeou um processo de “despetização” que
prevê, entre outras coisas, o isolamento das denúncias de
corrupção nos limites da esfera partidária e a ampliação
do espaço do PMDB e do PP no governo. Para garantir esse apoio,
o Executivo estaria disposto inclusive a tentar garantir o apoio das
bancadas estaduais do partido nos estados governados pelo PMDB. Nesta
segunda-feira (27), o senador Aloísio Mercadante (PT-SP) propôs
que o partido reveja o formato de oposição que exerce nos
Estados governados pelo PMDB. Mercadante disse que os petistas precisam
entender que “a política é uma via de mão
dupla”. Vestindo vermelho, de olho no PMDB Ao mesmo tempo que
acompanham preocupados a possibilidade da “despetização” do
governo, setores da militância se mobilizam para defender o presidente
Lula. Nesta segunda, também começou a circular pela internet
um texto convocando petistas e simpatizantes a vestirem roupas vermelhas
no dia 29 de junho em defesa do governo e contra o golpismo da direita.
No entanto, a convocação é acompanhada de notícias
sobre a disposição do governo e da direção
partidária aumentarem as concessões para garantir o apoio
de adversários históricos que, em virtude de divergências
programáticas bem conhecidas, não tem lá grande
interesse em ajudar a reeleição de Lula em 2006. Para não
falar do sentimento de humilhação ao vê-los rejeitando
ofertas generosas como a ampliação de ministérios,
como ocorre agora com o PMDB. O cenário é confuso e emite
sinais contraditórios a cada momento. Então, neste momento, há vários discursos opostos – alguns contraditórios - sendo emitidos aos militantes petistas: denúncias de corrupção, denúncias de golpismo, crítica à hipótese do golpismo, tentativa de ampliar alianças com outros partidos, hipótese da despetização do governo, crítica à política de alianças e diagnósticos sombrios sobre o fim do PT e de um período histórico para a esquerda. A dificuldade toda é encontrar um fio condutor nesse emaranhado de movimentos e discursos. |
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