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| A ambigüidade de opção dos Movimentos Sociais |
| José Carlos de Assis |
| www.desempregozero.org.br - 25/06 |
| A comunicação de massa não suporta ambigüidade. É pão, pão, queijo, queijo. Sim ou não. Nenhuma proposta política pode ser levada ao grande público como algo mais ou menos bom, como algo condicionado, como um talvez. A busca de adesão de massa a qualquer proposta política implica clareza de objetivos e de meios. Os marqueteiros sabem disso, e às vezes exageram na simplificação. Mas engana-se quem pensa, em sentido oposto, que é possível convencer o grande público de uma determinada opção política com o recurso a racionalizações cabalísticas e discussões bizantinas. O Manifesto ao Povo Brasileiro lançado pelos Movimentos Sociais defende Lula e ataca a política econômica. Pede rigorosa apuração das denúncias de corrupção e sugere que há uma conspiração de direita contra o governo do PT. Bate e assopra ao mesmo tempo. Eu entendo exatamente as boas intenções desse Manifesto, mas tenho grandes dúvidas sobre como ele "caiu" na opinião pública. O brasileiro médio, que tem em alta conta os Movimentos Sociais, deve ter ficado meio tonto. Então, como é possível defender Lula e ficar contra a política econômica que só ele, Lula, pode mudar, mas não muda? O título do Manifesto reproduziu o que Lula deu ao seu, quando se deixou capitular ao ultimato de Fernando Henrique antes das eleições de 2002. Aquele manifesto subalterno marcou todo o Governo Lula até aqui, como prolongamento e aprofundamento das políticas neoliberais do antecessor. O que os Movimentos Sociais quiseram dizer usando o mesmo nome para seu Manifesto de agora? Muito provavelmente, estão manifestando a esperança de que, por artes de alguma mudança mágica da política econômica, os interesses reais do povo brasileiro sejam levados em conta de agora em diante. Não é difícil entender essa manifestação dos Movimentos Sociais como uma angustiante busca idealista de uma saída desta crise menos traumática para o povo. O raciocínio tortuoso que está por debaixo do Manifesto é o seguinte: sim, este Governo comanda uma política econômica anti-povo e anti-Nação, mas é nosso; não podemos nos arriscar a perder todo o Governo para a direita, sobretudo na perspectiva de um agravamento da crise e das eleições de 2006. Portanto, temos que defender Lula de qualquer maneira, já que não temos alternativa política à vista. Essa racionalização tem várias falhas, mas a principal delas é achar que basta um grupo de líderes dos Movimentos Sociais se reunir e lançar um manifesto para o povo seguir atrás. É que eles são relevantes só quando estão afinados com o povo. O Governo Lula está virtualmente liquidado. E a reeleição de Lula é um projeto agora morto. Não consigo imaginar um único fato político ou social futuro que possa ajudar a reverter esse quadro, enquanto posso imaginar vários fatos políticos, no âmbito das investigações nas CPIs, que podem contribuir para piorar ainda mais a credibilidade do Governo. Mas a falha maior é de perspectiva. Achar que não haverá em 2006 uma alternativa política ao duplo neoliberalismo, do PT e do PSDB, é fazer pouco da criatividade política no plano real. Um ano antes das eleições, nem Collor, nem Fernando Henrique pareciam ter qualquer chance. Acabaram ganhando, por razões diversas. Os Movimentos Sociais, em vez de se comportarem como coro grego atrás do caixão do PT e de Lula, fariam melhor se começassem a buscar pragmaticamente um projeto político alternativo e um nome para defendê-lo nas próximas eleições. Só assim dariam uma opção válida real ao povo. É preciso se preparar também para o pior, se é que é possível. Ninguém sabe o que tem na caixa de Pandora das CPIs dos Correios e do Mensalão. O Presidente merece o benefício da dúvida quanto a seu envolvimento pessoal, mas o envolvimento político é inevitável. Se houve compra de votos e de apoio parlamentar pelo PT, foi compra para o Governo. Portanto, em última instância, para Lula. Obviamente não se formaria prova para a incriminação jurídica de Lula, mas os juristas e políticos estão cansados de ensinar que processo de impeachment não é propriamente jurídico, mas político. Já sabemos que a oposição, sobretudo o PSDB, não quer o impeachment de Lula. Seu interesse é vê-lo sangrando aos poucos, para chegar exangue às eleições de 2006 e perdê-las vergonhosamente. Contudo, perdê-las para quem? É justamente nesse ponto que os Movimentos Sociais deveriam parar para pensar. Se decidirem manter o apoio passional a Lula, a despeito da política econômica, estarão viabilizando os tucanos no ano que vem, e o discurso deles será preservar a política econômica lulista e cair de pau no plano ético. O povo pode gostar. É isso que os Movimentos querem? Ou não seria mais útil buscar logo uma alternativa menos vulnerável? Por último, ocorreu a muita gente, e isso também deve ter inspirado os Movimentos Sociais, que o presidente Lula aproveitasse esta crise para mudar a política econômica. Eu próprio acreditei nesta hipótese, porém apenas até a demissão de José Dirceu e as recorrentes manifestações do Presidente de que a política de Palocci é intocável. Na verdade, a Grande Imprensa conservadora se apressou a blindá-la, e apresentou Palocci como um oásis de credibilidade num deserto de corrupção. O fato é que, se há alguma conspiração em toda essa história, trata-se de uma conspiração para manter a política econômica de direita num governo auto-denominado de esquerda, com o paradoxal apoio dos Movimentos Sociais. |
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