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| Conspiração das elites... mas com qual objetivo? |
| João Machado |
| PALAVRA CRUZADA - 27/06 |
| O PT, os partidos “aliados” e o governo Lula, estão sob fogo cruzado. Todos sabem disso, a partir da série sempre renovada de matérias desfavoráveis a eles na mídia. O desgaste do governo é tão grande que assistimos a uma situação inédita na história recente do país: Lula ofereceu uma muito substancial ampliação da participação do PMDB no governo (para tentar reduzir a crise recompondo sua base de apoio), e este partido reluta em aceitar. Qual é a raiz desta crise? As pessoas mais ou menos normais, que acompanham o noticiário, acham que a crise começou a partir de uma briga dentro do governo. Afinal, a crise escapou do controle quando um “aliado” chave, chamado por Lula de “parceiro”, e a quem o presidente diz que daria um cheque em branco e dormiria tranqüilo, sentiu-se traído e começou a fazer acusações gravíssimas aos “parceiros” (tentando preservar o presidente). As “elites” (em particular os porta-vozes do grande capital, especialmente do capital financeiro) têm mostrado uma única preocupação: a de que a crise não leve à mudança da política econômica. A parte da direita política que não está no governo aproveita, é claro, para desgastá-lo. Mas tem predominado visivelmente a preocupação de não permitir que a crise leve ao impeachment do presidente. A palavra de ordem mais ou menos oficial do principal partido da direita que não está no governo, o PSDB, é “sangrar, mas não matar”. Lula tem demonstrado abundantemente que vai atender plenamente à preocupação do grande capital. O ministro Palocci está sendo reforçado, e anunciou em cadeia de televisão o aprofundamento da mesma política econômica. É neste contexto que é importante discutir a nova “Carta ao Povo Brasileiro” (desta vez, assinada pela direção da CUT, da UNE, do MST e de outras entidades e movimentos sociais) e a reunião de representantes dos signatários com o próprio Lula. A linha desta carta é denunciar o golpismo das elites contra o governo Lula e defender o presidente, de um lado; do outro, pedir a apuração das denúncias de corrupção e criticar a política econômica (pedindo a sua alteração). A mesma linha geral (com nuances secundárias) tem sido defendida por parte dos setores da esquerda do PT (isto é, pelos setores governistas da esquerda do PT) e de outros partidos. Tudo indica que este é um movimento completamente incoerente. Sua análise da situação política é fantasiosa, e se choca com o bom-senso (houve algumas manifestações desta “análise” em que a fantasia chegou perto do delírio: haveria uma conspiração que envolveria o imperialismo norte-americano e a direita brasileira — um pouco como se Roberto Jefferson fosse um “agente provocador da CIA”, especialmente designado para enganar a boa-fé do PT, que acreditou por mais de dois anos que ele era um aliado fiel). A avaliação do governo Lula (e do PT, etc.) é muito menos crítica do que a situação exige, e a “linha de ação” (se é que se pode dar esta designação) espalha confusão, bem como reforça as ilusões que ainda existem quanto à figura do Lula. Pior ainda, esta linha implica no grave risco de o desgaste já sofrido pela esquerda brasileira ampliar-se ainda mais. Pois todos nós, da esquerda, devemos estar conscientes de que, lamentavelmente, já sofremos um grande desgaste, cuja raiz é a traição da direção do PT e do governo Lula ao programa que o PT (e todos os partidos de esquerda) sempre defenderam — traição que foi cometida desde a montagem do governo Lula (já anunciada, de forma ainda ambígua, na própria campanha — mas então era difícil perceber isso) e que veio se tornando cada vez mais evidente desde então. A crise atual está acrescentando um novo elemento ao desgaste da esquerda: além de não cumprir as promessas mais fundamentais, o governo Lula está demonstrando que seus métodos de governar não diferem dos praticados nos governos anteriores, e os exemplos do enriquecimento inexplicável e acintoso de dirigentes petistas (ou “amigos do PT”, como o “publicitário” Marcos Valério) evidenciam que nem tudo o que se fez de ilícito foi pelo bem da causa. [Na verdade, o fato de que os métodos de governo usados por Lula não seriam diferentes dos anteriores ficou evidente desde a montagem da chamada “base aliada” — mas poucos poderiam imaginar que a imitação da direita tradicional chegasse tão longe (ao que parece, com menos competência para ocultar os mal-feitos). E, além disso, é só agora que estes métodos estão ficando claros para o grande público.] Ou seja: já sofremos, como esquerda, um desgaste enorme. E quanto mais setores importantes da esquerda demorarem em se afastar deste governo, e em avançar na reconstrução da esquerda brasileira, maior será o desgaste final. O fato de que muita gente boa de esquerda esteja defendendo a linha da nova “Carta ao Povo Brasileiro” — em particular a direção do MST — contribui para aumentar nossa preocupação e nos obriga a tratar com a máxima atenção esta discussão. Reproduzo abaixo duas análises que contribuem bastante. As duas são de analistas que não podem, de maneira nenhuma, serem considerados como parte da “esquerda sectária” (classificação com que a esquerda governista tenta se desobrigar de entender os argumentos dos militantes de esquerda que divergem da sua linha). Nenhum dos dois, além disso, pode ser considerado tolo ou manipulável pela propaganda da direita. A primeira análise é do economista Paulo Nogueira Batista Jr. A segunda, do também economista José Carlos de Assis. Este último tem uma conclusão que merece ser destacada: “O fato é que, se há alguma conspiração em toda essa história, trata-se de uma conspiração para manter a política econômica de direita num governo auto-denominado de esquerda, com o paradoxal apoio dos Movimentos Sociais”. |
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