O "mensalão" e o "golpismo branco"
Demétrio Magnoli
Folha de São Paulo - 20/06

João Pedro Stédile, um dos líderes do MST, ofereceu uma narrativa curiosa sobre o escândalo que abala o governo. Classificando as denúncias do "mensalão" como "factóides", decretou: "A crise instalada em Brasília é resultado de um movimento golpista que inclui motivações internacionais. Os interesses do capital internacional, representados pelo governo Bush e as transnacionais que atuam no Brasil, estão inquietos com a política externa do governo Lula, independente e de integração regional."

A narrativa, com variações negligenciáveis, é compartilhada por quase toda a esquerda do PT. Nessa versão, a suposta solidariedade de Lula ao presidente venezuelano Hugo Chávez estaria na raiz de um suposto "movimento golpista" articulado na Casa Branca e operado, internamente, pelo PSDB e pelo PFL, com apoio da mídia.

Obviamente, nada disso tem sentido. A política externa brasileira alinha-se basicamente com os interesses de Washington e recebe elogios sucessivos de Bush e Condoleezza Rice (o que, para desespero do Itamaraty, não muda a posição americana sobre a reforma da ONU). Em sintonia com Bush, o Brasil leva recados de Washington a Caracas e procura, nem sempre com sucesso, moderar a política de Chávez.

As denúncias do "mensalão" originam-se na base aliada do governo e são repercutidas, discretamente, por setores do PT. O PSDB e o PFL querem, sem dúvida, sangrar o PT e cortar o nó que liga Lula a José Dirceu, o dono da máquina petista. Mas estão profundamente engajados numa operação de proteção da figura do presidente, pois temem a desestabilização da política econômica num hipotético governo do vice-presidente José Alencar e apavoram-se diante do espectro do vazio de poder, que abriria caminho para a emergência de um aventureiro.

A narrativa da conspiração não foi elaborada para fazer sentido, mas para fornecer um álibi político. A esquerda petista necessita uma teoria capaz de justificar seu alinhamento e apoio a José Dirceu e sonha forjar uma nova aliança para combater Palocci e a política econômica. Seus líderes não acreditam no que dizem. Mas a mensagem só precisa ter credibilidade entre as suas bases militantes. O requisito essencial é rimar as palavras "imperialismo", "golpe", "PSDB" e "Palocci". A rima está feita. Agora, é cantar o refrão.

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