| "Je
weniger die Leute davon wissen, wie Würste und Gesetze gemacht
werden, desto besser schlafen sie." (Otto von Bismarck)
“Quanto menos o povinho souber como são feitas as salsichas e as leis,
mais dormirá tranqüilo.” À frase do Chanceler de Ferro,
acrescentemos uma outra, antiga e clássica: “Leis são como
teias de aranha que prendem os pobres e fracos, enquanto os ricos e
poderosos as quebram facilmente” (Anacharsis). Os fatos aterradores sobre o
Parlamento brasileiro e as relações perigosas entre Poder
Executivo e Congresso, denunciados por um líder político que
até ontem
possuía a confiança do presidente da República, tiram
o sono dos que pagam impostos. Quando alguém compra uma caixa de fósforos,
em nosso território, produz tributos para o Tesouro Nacional. Assim,
o mínimo que o Estado deveria fazer, para garantir a confiança
dos contribuintes, é providenciar leis que fossem de fato universais,
ou seja, não privilegiassem nenhuma das instâncias particulares
no plano nacional ou internacional. Se os indivíduos, grupos ou classes
sociais abdicam do seu direito natural de matar – segundo os maiores pensadores
e juristas da modernidade – é porque o Estado protege os direitos coletivos
e não permite que interesses privados se elevem acima do bem comum.
Tal é a única
base da governabilidade.
No Brasil, desde o início de nosso Estado nacional, a excessiva concentração
de todos os aspectos das políticas públicas no poder central
trouxe vários defeitos jurídicos estruturais, defeitos que não
podem ser sanados com medidas paliativas. Assim os atentados à ética
no trato com os dinheiros públicos. Dada a distância (geográfica
e jurídica) entre municípios e poder central, os impostos arrecadados
nas cidades são dirigidos para os ministérios para serem redistribuídos
aos poderes locais. Nesse itinerário, longo e tortuoso, os municípios
permanecem à mingua de recursos e não conseguem empreender
as obras públicas requeridas pela população. Longe dos
gabinetes e próximos do eleitor, os prefeitos precisam conseguir verbas
públicas.
Entre eles e os ministérios, aparecem os deputados federais e senadores
como intermediários eficazes na liberação dos mencionados
recursos, seja diretamente nos ministérios, seja na elaboração
do orçamento. Só existe um modo de assegurar os montantes necessários
aos municípios: a entrega dos votos no Parlamento, com o Executivo,
ou a adesão aos grupos de interesses que defendem projetos nos corredores
do Congresso. Temos aí a gênese do “é dando que se recebe”,
consagrado no Centrão durante o governo Sarney. A prática foi
tão
repetida, ao longo de nossa história política, que muitos eleitores,
para não dizer a maioria, julga que bom deputado federal ou senador é apenas
o que traz recursos para as cidades ou regiões. O custo, entretanto,
não é explicado
no dia-a-dia ou mesmo nos comícios.
Como acréscimo que complica tudo, os deputados federais e senadores ou
surgem das oligarquias ou a ela são obrigados a aderir, para que o seu “produto” (o
voto no Congresso) seja útil ao Executivo, sempre à busca de legitimidade
e sempre na premência de conseguir apoio das várias populações
regionais. Da maior ou menor acolhida dos governantes pelos munícipes
ou líderes regionais pode surgir a safra de votos que decide tanto a manutenção
dos partidos no poder central quanto no Congresso. As oligarquias são
bases de apoio para os tratos entre os municípios e os poderes das repúblicas,
no caminho que vai da base ao cimo, e são o filtro entre as aspirações
dos poderes superiores e as bases urbanas.
Apenas uma distribuição mais pronta e menos injusta dos impostos
pelos entes federativos poderia atenuar a necessidade de fazer dos deputados
federais e senadores caixeiros-viajantes das regiões na caça aos
recursos, vendendo o seu voto nas deliberações legislativas. Quem
tiver interesse na origem dos males da corrupção e da “ética” política
que vigora entre nós desde o século 19 pode ler o livro de Maria
Sylvia Carvalho Franco, Homens Livres na Ordem Escravocrata (São Paulo,
Unesp Ed. 1997, quinta edição). A autora mostra como a carência
de recursos e a péssima redistribuição dos impostos pelos
municípios produziram muitos dos males da vida política nacional,
sobretudo a indistinção entre dinheiros públicos e privados.
É importante pensar nessa escala histórica e genética para
não cair na armadilha da conjuntura. A compra e venda de votos, de eleitores
e de eleitos, não é prática nova no Brasil, ela vem dos
nossos primeiros dias como Estado nacional independente. Importa, e muito,
que o atual governo e o seu partido hegemônico tenham apresentado um programa ético
a atenuar esse defeito de origem. Como o programa não foi obedecido, as
práticas costumeiras apresentaram-se como as únicas vias “realistas” do
governo. Foi assim que surgiu a atual base de sustentação no Congresso.
Foi assim que o líder da tropa de choque "collorida" tornou-se aliado
do governo. Mais do que aliado, “companheiro”, no dizer do presidente da República.
As falas que anunciam golpes brancos e ameaças à governabilidade
não possuem sustentação lógica ou factual. As elites
apóiam o governo e sua política econômica. Os banqueiros
estão muito satisfeitos. Os industriais e líderes do comércio
pedem juros razoáveis, mas não querem o impedimento do presidente.
Os setores intelectuais ou estão perplexos com as políticas públicas
ou as apóiam, poucos as criticam com dureza (sou dos que criticam). Os
sindicatos apóiam os governantes, embora recusem aspectos de medidas como
a reforma sindical. A Igreja Católica torna-se a cada momento mais dura
com o governo, mas essa é uma característica sua, enquanto instituição
autônoma no interior da sociedade. A imprensa denuncia a existência
dos fatos. O melhor, para silenciar as denúncias, não se encontra
nas hipóteses de golpe, mas nas investigações corretas e
transparentes. Como exigiam os membros do atual governo quando lideravam a oposição.
Se assim for feito, o povo brasileiro poderá encarar as leis e as salsichas
com maior tranqüilidade. O chamado “patrimônio ético” não é riqueza
física, mas espiritual. Ele deve ser provado a cada dia, sob pena de se
perder. As investigações das CPIs precisam ser efetivas e não
podem descambar para a propaganda, tanto no caso da oposição quanto
no caso do governo. Se as investigações forem conduzidas com ética
pelos governantes e parlamentares, a atual administração terá prestado
grande serviço ao país. Caso contrário, ela apenas aumentará o
descrédito do povo diante das leis. E das salsichas, naturalmente.
*Roberto Romano é professor de ética e de filosofia política
da Unicamp. |