La garantía soy yo
Fábio Luís*
Correio da Cidadania - 28/06

A saída (ou queda) do ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu expõe, como uma ferida purulenta, o estado em que está o PT.

Pese o esforço de seus integrantes, remunerados por serem governo, em provar por sutileza retórica ou por contraste com o PSDB os avanços do atual governo, o tempo vem explicitando a absoluta identidade entre os dois principais partidos. A “âncora ética” do PT afunda.

Não é de surpreender. O que caracteriza a política do Planalto, da qual o povo tem nojo, é a cobiça do poder pelo poder e não como via de mudança. O meio de ascender e manter-se no poder é pactuar com os interesses dominantes, que são os mesmos há muito tempo. Não há mistério.

Assim, uma vez que o PT assumiu seu papel como partido da ordem, o método da política já estava dado por seu fim. Um partido que negocia a aprovação de projetos por verbas, distribui cargos segundo as alianças que faz, refuta CPIs... Coloca todos em dúvida sobre o mensalão. Quem bota a mão no fogo?

O presidente Lula aprofunda o recurso ao carisma. Esbarrando na soberbia, esbanja tiradas quase sempre demagógicas e auto-referentes. Descontando o teatro comunicativo, no qual é muito bom, seu conteúdo resume-se ao lema dos comerciantes paraguaios: “la garantia soy yo”.

No dia seguinte à renúncia do ministro, dois remanescentes de esquerda petistas, Ivan Valente e Plínio de Arruda Sampaio, recorrendo aos estatutos do partido, reclamavam um congresso extraordinário. Intuímos tratar-se de um jogo de cena.

Não que estes homens de integridade inquestionável estejam blefando. Sinceramente desejariam tal congresso, mas sabem por experiência que isto é impossível: a democracia interna foi há muito tempo sepultada no PT. Este não é mais um partido de base, onde os militantes discutem, opinam e participam saudavelmente da construção do seu rumo.

O PT converteu-se em uma poderosa máquina partidária orientada para ganhar eleições e ocupar cargos da maneira mais eficaz, alicerçada no dinheiro e no marketing. O PT perdeu o seu encanto popular e com isso também a sua razão de ser.

Os políticos e militantes petistas identificados com as causas que fertilizaram o partido têm consciência disto. O chamado ao congresso é um movimento pedagógico, buscando explicitar o estado putrefato do partido às suas bases mais fiéis. Em uma palavra, acirrar a contradição entre o que o partido representou e o que o partido é. Só assim, forçando a implosão do velho, é que se pode semear a fundação do novo.

* Fábio Luís é jornalista.

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