Desmatamentos 2005
Rodolfo Salm*
Correio da Cidadania - 07/06

A divulgação dos dados anuais de desmatamentos na Amazônia é um espetáculo repetitivo e deprimente. Há muito se sabe que as taxas crescem exponencialmente, aumentando ano a ano. Já perdemos até o momento cerca de um quinto de sua área original (18%) e todas as previsões apontam para a destruição quase que completa da floresta ainda na primeira metade deste século. Esperar que isso não aconteça é como esperar um milagre — a luta pela floresta não pode ser vencida mas o seu fim, nas diversas regiões, pode ser adiado, como procuramos fazer com os nossos corpos.

Nas cenas que se seguiram ao anúncio dos desmatamentos, a ministra Marina Silva culpou parcialmente a sociedade brasileira pela devastação da floresta. Segundo ela, a população se surpreende com o crescimento do desmatamento da Amazônia, mas continua a consumir “produtos que contribuem para a devastação da floresta... compram madeira cuja origem não sabem” — a variação ambiental daquela do Lula de que o cidadão tem que levantar a bunda da cadeira e buscar juros mais baixos!

Os manejeiros argumentam que até que nos preocupemos com as consequências socioambientais de nossas escolhas de consumo, sempre teremos uma parcela da culpa. Mas quem poderia acreditar que essa estória de “consumo responsável” e “manejo florestal” salvaria a Amazônia? Somente a máfia de madeireiros que toma conta do Ministério do Meio Ambiente e pretende levar esta aposta às últimas conseqüências com o projeto de lei (PL) da “gestão de florestas públicas para produção sustentável”. O secretário de Biodiversidade e Florestas, João Paulo Capobianco, quando estava no Instituto Socioambiental (ISA), conseguiu autorização para a implantação do primeiro plano de manejo de madeira em terras indígenas. A grande imprensa fez muita festa em torno da idéia e comemorou as primeiras “colheitas” de mogno. Ninguém divulgou que o trabalho sujo, de derrubar as árvores, ficou para os mesmos madeireiros que já trabalhavam na área, que passaram a perna nos índios e que os Xicrín-do-Cateté, lesados, tocaram os manejeiros de lá.

Jogar a culpa na sociedade, em uma atitude cômoda sem que o governo faça a sua parte, é típico do receituário neoliberal: Estado mínimo, lucro máximo e sociedade responsável pela solução de problemas sociais. Antes de nos culpar, o governo deveria investir no aparelhamento e capacitação do Ibama, polícias federais, rodoviárias e portuárias. Deveria aumentar a fiscalização nos rios, estradas e portos. Afinal, a madeira consumida pelos “irresponsáveis” do sul, teve que passar por inúmeros rios, estradas ou portos. E a punição exemplar daqueles que desrespeitam leis que já existem? E o consumo externo de madeira (a madeira tem que passar necessariamente por algum dos poucos grandes portos da região)? E o incentivo do governo ao cultivo de soja, responsável por boa parte do desmatamento no arco sul? Também é culpa nossa que o governo queira alimentar 1,3 bilhão de chineses e o gado europeu e norte-americano?

É triste pensar que o período da história da humanidade em que vivemos será lembrado pelas futuras gerações, acima de tudo, pela destruição das florestas da bacia amazônica e a sociedade brasileira, pela seqüência de irresponsabilidades de seus governantes, será responsabilizada por isso. Mas o atual governo, graças a uma das vitórias do MST como a Marcha Nacional pela Reforma Agrária, tem uma nova oportunidade de reduzir drasticamente os desmatamentos na região: elevando drasticamente os índices de produtividade mínimos das áreas de pastagens nos imóveis rurais da região norte, inviabilizaria a abertura de novas pastagens.

* Rodolfo Salm, doutorando em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos, é pesquisador do projeto Pinkaiti Aldeia A’Ukre.

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