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| A crise atual e a reconstrução da esquerda brasileira |
| João Machado |
| PALAVRA CRUZADA - 10/06 |
| O governo Lula e o PT entraram numa crise profunda. No momento, é impossível antecipar todas as suas conseqüências. Há várias questões difíceis de responder, como por exemplo: o governo Lula conseguirá fazer um acordo com Roberto Jefferson para reduzir os prejuízos, como parece estar tentando? O PSDB e o PFL terão interesse em impulsionar as investigações na CPI que acaba de ser aberta, ou sua comunidade de interesses com o campo majoritário do PT e com o governo Lula os tirará deste caminho? Quantos novos escândalos ainda vão aparecer? Serão encontradas provas das compras de deputados (para além do fisiologismo que já se tornou mais do que evidente — o governo Lula, aliás, pratica-o abertamente —, mas que não vem sendo considerado ilícito)? Mas é útil tentar avaliar qual pode ser o impacto da crise sobre a já muito abalada esquerda brasileira (abalada pelo curso social-liberal da direção do PT e do governo Lula), e o que ela pode fazer diante de tudo isso. Uma primeira constatação se impõe: a esquerda brasileira sofrerá um desgaste considerável, já que o descrédito em que está caindo o governo Lula, a completa frustração das esperanças antes despertadas, bem como a evidência de ele ter traído seus compromissos com o povo, estão reforçando a idéia de que “todos os partidos iguais”. Por outro lado, mais militantes estão chegando à conclusão de que estamos diante de uma vergonhosa falência do PT e da necessidade de um processo de reconstrução radical da esquerda brasileira. Ou podem chegar rapidamente a esta conclusão. Isto pode representar um passo decisivo para a superação da nossa crise. Se o desgaste da associação da esquerda com o governo Lula é inevitável, ele pode, por outro lado, ser reduzido se começarmos (o quanto antes) a deixar clara nossa distância em relação a este governo. Desta maneira, o aprofundamento da crise da esquerda brasileira pode vir a contribuir para impulsionar o início da sua superação. Há na situação atual, no entanto, o risco de queda numa armadilha: a de achar que o óbvio enfraquecimento político do “campo majoritário” do PT pode permitir à esquerda que ainda se identifica com este partido ganhar força no seu interior. Ou seja, a armadilha da avaliação de que a disputa no interior do PT não só ainda vale a pena, mas ainda poderia ser fortalecida. As declarações de Raul Pont, reproduzidas pela Folha Online, de que a crise atual deve favorecer os candidatos a presidente do PT mais à esquerda, constituem um exemplo deste tipo de avaliação. O problema desta linha (além do seu irrealismo: o provável é que haja mais setores da base do PT desistindo do partido, e não setores concluindo que a esquerda petista é a solução) é que ela passa pela defesa do PT realmente existente hoje. Ainda que seus defensores façam críticas a aspectos da orientação do governo Lula — principalmente à política macroeconômica e, em alguma medida, à sua política de alianças — e à atual direção do PT. Afinal, quem ainda pensa que o PT pode ser disputado deve também tentar preservar o que está disputando. Sendo assim, chega-se inevitavelmente a algum grau de cumplicidade com o “campo majoritário”, ou seja, com os principais responsáveis pela crise que se instalou. A esquerda que optar por este caminho estará colando sua face à imagem do PT falido — ainda que continue a criticá-lo. Os riscos que decorrem logicamente da opção pela defesa do PT ficaram claros na posição de dois dos principais dirigentes da esquerda governista do PT, Valter Pomar e Joaquim Soriano , que defenderam o tesoureiro Delúbio Soares na reunião da Executiva do partido, segundo diversas matérias publicadas na imprensa. Este comportamento tem permitido ao presidente do PT, José Genoino, destacar a unidade do partido no enfrentamento da crise (a despeito das críticas da esquerda à política econômica e às alianças). O que o momento pede à esquerda mais coerente do PT é algo muito diferente: que conclua o mais rapidamente possível que a falência enquanto partido socialista do PT realmente existente hoje já é uma realidade, e comece a contribuir para a construção de uma alternativa — ou seja, que dê passos para começar a reconstrução da esquerda brasileira. A entrevista do deputado Chico Alencar à Folha de S. Paulo de 09/06 — na qual, pela primeira vez, ele admite publicamente que parte da esquerda pode deixar o PT — mostra que, felizmente, a parte mais conseqüente da esquerda (ainda) do PT começa a refletir sobre a necessidade de tomar este caminho. |
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