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| A metamorfose da ética petista no poder |
| Heloísa Helena |
| Folha de São Paulo - 04/06 |
| O PT no governo tornou-se menos rigoroso no combate à corrupção? Infelizmente, sim! E a minha tristeza em constatar é maior, não apenas porque dediquei os melhores anos da minha vida para ajudar na construção do PT mas especialmente porque todos esses infames episódios legitimam no imaginário popular que a vigarice política e a demagogia eleitoralista constituem atributos "essenciais" para a personalidade dos políticos e para a conquista das instâncias de poder, consolidando a generalização perversa. Mas, como já disseram há muito tempo, "o que se não pode calar com a boa consciência, ainda que seja com repugnância, é força que se diga". Qualquer pessoa de bom senso, independentemente de convicções ideológicas ou filiação partidária, apenas zelosa da honestidade intelectual, identifica claramente um abismo entre o que o PT se comprometeu ao longo de sua história e o que passa a realizar como ação de governo e funcionamento partidário após tocar os tapetes do Palácio do Planalto. Além do que podem revelar estudos sobre a subjetividade humana nas deslumbradas demonstrações explícitas de embevecimento com o luxo no convescote do poder, existem muitas e dolorosas contradições e traições às concepções programáticas e referenciais éticos da esquerda socialista e democrática. De um lado, o aprofundamento da política econômica do governo FHC, autenticando, assim, a verborragia neoliberal e potencializando a saltitante alegria dos que chafurdam na pocilga do capital. De outro lado, o plágio descarado à carcomida metodologia do governo passado na "partilha" do aparelho de estado, condenada com ferocidade quando estávamos na oposição e hoje executada de forma "primorosa" sob a égide do cinismo e da dissimulação. Às vezes, nem conseguimos acreditar no que estamos a ver. Da omissão cúmplice diante dos crimes contra a administração pública patrocinados pelo governo passado à distribuição de cargos, prestígio e poder a ilustres conhecidos delinqüentes de luxo que sempre parasitaram o espaço público com a leniência dos governantes. Se trágico não fosse, deveríamos rir ao identificar a vil reprodução pelo PT -e demais excelências da base de bajulação do atual governo- dos mesmos argumentos fraudulentos da cantilena enfadonha utilizada pelo PSDB e cia. no governo FHC. Em todos os momentos em que são apresentadas ao público denúncias graves de corrupção, imediatamente os cúmplices do PT e os neolulistas procuram desvairadamente reproduzir o "conhecimento" acumulado nas anteriores "operações abafa" para abafar também. É impressionante o coeficiente de "criatividade zero" das excelências para obstaculizar investigações. Usam e abusam das mesmas explicações tucanas, números e números, das operações da Polícia Federal etc, e muita publicidade. Sobram, entretanto, inúmeras perguntas sem resposta no campo da ética, ao menos entendida como profetizava Casaldáliga: "Ética na política é vergonha na cara e amor no coração". Por que aplicam o mesmo condenável balcão de negócios para impedir a CPI, comprando parlamentares e aprimorando a promiscuidade entre Congresso e governo? Por que assumem uma posição golpista contra o Parlamento, impedindo o exercício da nobre tarefa de fiscalizar os atos do Executivo? Por que a "agenda positiva" para o país só aparece como manobra, ridícula tática diversionista, para ludibriar a sociedade e impedir que sejam desvendados os mistérios sujos da corrupção? E o silêncio implacável da cúpula palaciana do PT diante de tantas perguntas mutila, à pior das navalhas, a alma e o coração de muitos que ajudaram a eleger o presidente Lula e a construir o que era o maior partido de esquerda da América Latina e se transformou, ao assumir a maior instância de decisão política do Brasil, na simplória propaganda do triunfo neoliberal e amoral. Mesmo que sintamos tal qual disse Mário Quintana: "Da primeira vez em que me assassinaram, perdi um jeito de sorrir que eu tinha.", a vida continua, e o generoso, honesto, lutador povo brasileiro continua renascendo a cada dia em coragem, solidariedade e esperança. E nós, que no PT já estivemos, analisamos com serenidade a paixão que nos cegou a ponto de não termos identificado, há mais tempo, a degeneração partidária. E seguimos lutando, engolindo nossos medos, colando nossos pedacinhos quando o mundo da política se encarrega de nos quebrar, acariciando as cicatrizes, porque elas testemunham que estamos no campo de batalha e não nos acovardamos para nos lambuzar no banquete farto do poder e, celebrando a esperança, continuamos acreditando na construção de um Brasil soberano, ético, igualitário, fraterno, socialista. Até porque, como diz o nosso Ledo Ivo: "Meu coração está batendo/ sua canção de amor maior./ Bate por toda a humanidade,/ em verdade não estou só". CPI já! |
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