Saída de José Dirceu dá início à reforma ministerial
Marco Aurélio Weissheimer
Agência Carta Maior - 16/06

Deixo parte da minha alma e do meu coração. Mas não deixo minha alma. Ela vai comigo com a luta. Eu sei lutar na planície e no planalto. Volto como militante e dirigente do PT. Vou mobilizar o PT para dar combate aqueles que querem interromper o processo político e democrático e que querem desestabilizar o governo do presidente Lula”. Com essas palavras, o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, anunciou seu retorno ao Congresso Nacional na condição de deputado federal eleito pelo estado de São Paulo. A saída de José Dirceu da Casa Civil era dada como certa há alguns dias. Ele entregou sua carta de demissão ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva na manhã desta quinta-feira (16). Demissão aceita, Dirceu agradeceu a oportunidade de ter servido ao Brasil e ao presidente Lula, garantindo que continuará esse trabalho no Parlamento a partir da próxima quarta-feira.

Logo após a confirmação da demissão, o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) disse que a saída de José Dirceu foi uma medida “difícil, dolorosa, mas necessária”. Para Mercadante, o agora ex-chefe da Casa Civil deu um exemplo de “humildade e grandeza política”. “Na vida, você tem adversidades e tem que estar preparado para enfrentá-las. As contribuições de José Dirceu como ministro ficarão. Ele contribuiu muito nestes dois anos e meio e continuará a fazê-lo”, comentou Mercadante. O ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP) confirmou que o presidente Lula deve dar prosseguimento à reforma ministerial nos próximos dias, provavelmente após sua viagem ao Paraguai na próxima semana, indicou. A saída de José Dirceu, acrescentou, servirá para “lavar a honra do PT no Congresso”.

Ao confirmar sua saída, o agora deputado José Dirceu convocou os petistas a uma luta contra aqueles que querem desestabilizar o governo. Ele disse que vai percorrer o país nesta luta, ao lado do presidente do partido, José Genoino, e que, no Congresso, vai responder todas as denúncias feitas pelo presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, defendendo o patrimônio ético do PT. “Temos um patrimônio ético que a sociedade conhece. Eu vou defender esse patrimônio. Acredito que, na Câmara, vou poder esclarecer ao país e à opinião pública os temas em debate na sociedade, tanto com relação às profundas transformações sociais e políticas que estamos fazendo sob a liderança do presidente Lula, quanto em relação às denúncias infundadas contra minha pessoa, meu partido em meu governo”. Sobre as denúncias de Jefferson, ele comentou, enfático: “eu não me envergonho de nada do que fiz no governo. Tenho as mãos limpas, o coração sem amargura e a mente colocada naquilo pelo que sempre lutei, o povo do Brasil”.

A saída de José Dirceu será o ponto de partida para uma reforma ministerial mais ampla que diminuir o espaço do PT no governo, abrindo espaço para outros partidos, especialmente o PP e o PMDB. Na noite de quinta-feira, a bolsa de especulações em Brasília apostava fortemente na ida para a Câmara Federal de outros ministros como Ricardo Berzoini, Aldo Rebelo e Eduardo Campos. Para ocupar o lugar de Dirceu, os nomes eram os mais variados: Tarso Genro, Antonio Palocci, Patrus Ananias, Marcio Thomas Bastos, Jorge Viana, Marcelo Deda e Fernando Pimentel, entre outros. Outra aposta forte era a de uma reestruturação do governo com extinção de ministérios e diminuição de cargos de confiança.

A carta de demissão e a resposta de Lula

Na carta de demissão endereçada ao “querido companheiro e amigo”, José Dirceu expõe as razões de sua saída: “Diante dos graves ataques desferidos nos últimos dias ao nosso governo, ao nosso partido e a mim mesmo, decidi pedir-lhe meu afastamento das funções de Ministro de Estado Chefe da Casa Civil, para reassumir meu mandato na Câmara dos Deputados. Como parlamentar, junto a meus companheiros, estou seguro de que poderei esclarecer todos os temas que ora ocupam a atenção da opinião pública de meu país, rebatendo ponto por ponto aqueles que tentam agredir o Executivo, o Partido dos Trabalhadores e minha pessoa. Servi o Governo durante estes trinta meses com lealdade e dedicação. Foi um privilégio reservado a poucos. Por essa razão, sou-lhe eternamente grato. Em minhas novas funções, contribuirei para a continuidade e o aprofundamento do grande projeto de mudança social que nosso Governo está empreendendo sob sua liderança. Agradeço seu apoio, assim como o de todos meus colaboradores, companheiros e amigos. A luta continua. Receba, querido Presidente, meu reconhecimento e amizade”.

A resposta do presidente Lula, também na forma de uma carta, foi a seguinte: “Querido Zé, Recebi seu pedido de afastamento das funções de Chefe da Casa Civil. Decidi aceitá-lo, louvando seu desprendimento pessoal. Só pessoas de sua grandeza são capazes desses gestos. Compartilho seu sentimento de que esta decisão permitirá a você melhor defender nosso Governo, nosso partido e sua própria pessoa. Como parlamentar brilhante que é - um dos líderes políticos mais importantes e respeitados da República - você poderá, na Casa do Povo Brasileiro, desfazer as infundadas acusações lançadas por aqueles que querem desconstruir nossa história e nosso projeto de mudança social. Esta é a ocasião para expressar meu apreço por sua lealdade, dedicação, competência e honestidade no trato da coisa pública, como Ministro Chefe da Casa Civil. É também a ocasião para reiterar minha amizade e gratidão por tudo o que fez pelo povo brasileiro em nosso Governo. Como você mesmo diz em sua carta, a luta continua”.

Nota da CUT

No início da noite, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) divulgou nota oficial sobre o afastamento de José Dirceu da Casa Civil. Assinada pelo presidente da entidade, Luiz Marinho, a nota destaca a trajetória política de Dirceu: "o deputado federal e ex-ministro José Dirceu tem sua história política ligada à defesa e organização dos movimentos sociais, contribuindo enormemente para que esses setores populares se convertessem em sujeitos da História e adquirissem a expressão social que hoje possuem". O texto diz ainda que "José Dirceu continuará defendendo, no Congresso Nacional, um governo democrático e popular". A CUT informou que participará, com movimentos sociais, da mobilização marcada para esta sexta para pedir mudanças na política econômica e uma reforma política democrática

Adversários comemoram

O significado da saída de José Dirceu pode ser dimensionado pela reação de seus principais adversários. No site Primeira Leitura, ligado ao PSDB, Reinaldo Azevedo escreve: "A fala de Dirceu carrega na emoção e na grandiloqüência para tentar diminuir a fealdade do atual momento político. Não faltaram os clichês da honradez política — ‘cabeça erguida‘, ‘mãos limpas‘ — e também um certo tom de ameaça, que sempre fica muito bem ao agora só deputado José Dirceu: ‘Percorrer o Brasil para mobilizar o PT e o Brasil contra aqueles que querem interromper o processo democrático‘. Quem quer? Dirceu deveria dizer. Ou está prevaricando. Desestabiliza a democracia quem transforma um dos Poderes da República num balcão de negócios. As oposições, a exemplo do PT no passado, cumprem a sua obrigação: cobrar investigação".

E acrescenta: "Primeira Leitura defendeu aqui, na terça-feira, a sua demissão. Aliás, deveria tê-lo feito já quando explodiu o caso Waldomiro Diniz. A demissão era inevitável, mas vem, ainda assim, num momento ruim. Roberto Jefferson está surgindo como o grande reformador de ministério do governo Lula.

É neste cenário que o PT e o governo Lula acordam neste dia 17 de junho de 2005.

<<< voltar >>>
Hosted by www.Geocities.ws

1