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| Golpe e contragolpe |
| PALAVRA CRUZADA - 22/06 |
| Mesmo antes da arapuca em que o governo Lula se meteu tornar-se pública, com a performance do tenor Roberto Jefferson cantando [e contando] em minúcias a relação do governo com a base fisiológica que o apóia [ou deveria apoiar], líderes do governo e dirigentes do PT já estavam – em coro – entoando uma outra ladainha, a de que o governo e o PT são vítimas de uma onda golpista da direita. Esta tese também tem encontrado apoio em alguns intelectuais e entre a esquerda e movimentos sociais governistas. É claro que todos ficamos irritados com o descaramento de representantes da direita oposicionista – aqueles que sempre nadaram de costas no mesmo mar enlameado, onde parece que o governo do PT hoje dá suas braçadas – virarem os grandes defensores dos bons costumes políticos. É evidente, também, que eles têm explorado esta fragilização do governo e do PT, para investirem contra o patrimônio ético acumulado ao longo de grande parte da existência do Partido dos Trabalhadores. Era previsível também que esta direita tentasse usar a CPI dos Correios e o mensalão como palanque eleitoral antecipado, como, aliás, o PT sempre fez. Mas bradar aos 4 ventos, como estão fazendo os dirigentes petistas, que o que está sendo jogado é uma disputa entre “o projeto de esquerda do PT e do governo e o da direita golpista” é tão insustentável quanto a prestação de contas eleitoral do PTB. Antes de tudo, pela constatação cada vez mais evidente de que, se este governo tem algum projeto que não seja o do poder pelo poder, ele está longe de ser um projeto sequer social-democrata, quanto mais de esquerda. O Brasil do governo Lula concentra mais riqueza nas mãos de poucos, aumenta o número de ricos, diminui a renda da maioria da população, não gera empregos na proporção que os destrói, é um total desastre ecológico, transfere cada vez mais riqueza para a burguesia financeira e abre mão de sua soberania, se contentando em ocupar um papel subalterno no mundo. É um governo que propagandeou a esperança, mas que, por medo, preferiu transformar seus compromissos com o povo brasileiro em meras “bravatas”. Se alguém vem golpeando a esquerda já há algum tempo, e mais fortemente após as eleições de 2002, é a direção do PT e o governo Lula. São eles que têm desmantelado o próprio PT, levando o conjunto da esquerda de roldão, no imaginário da população brasileira. Foi o governo Lula que domesticou grande parte dos movimentos sociais, usando seu estoque interminável de cargos de confiança para cooptar várias das principais lideranças destes movimentos, transformando a CUT e a UNE, por exemplo, em tropa de choque do governo. É um governo “boa-praça”, sempre com a porta aberta, cafezinho e água gelada para o MST, mesmo que a Reforma Agrária continue caminhando a passos de tartaruga. Além disso, o governo Lula está destruindo, uma a uma, as tendências da esquerda petista. Ao aceitarem participar de um governo que já anunciava seu viés conservador, para, mais tarde – quando as piores expectativas foram confirmadas e ultrapassadas – continuarem nele, a esquerda governista trocou a coerência programática pela adaptação pragmática, abrindo uma enorme crise no interior de cada tendência. Totalmente sem agenda política, hoje se limitam a repetir o discurso oficial do partido, dando a ele algumas nuances à esquerda, como se isto fosse suficiente para redimir suas biografias. Não é à toa que, mesmo entre seus cachorros mais raivosos, não existe na direita oposicionista quem hoje fale em impeachment , a não ser, talvez, o prefeito maluquinho do Rio de Janeiro. Se existe um consenso em desgastar o máximo possível o PT, tornando-o cada vez mais “um dos seus”, esta direita sabe que, até o momento, não existe um administrador melhor para manter o fluxo de capital direto para seus bolsos, e de quebra, controlar os trabalhadores e movimentos sociais, do que o governo Lula. A disputa com o PT é uma disputa eleitoral, sobre quem vai administrar a máquina a partir de 2006. Não é, como insistem em dizer Zé Genoino e Zé Dirceu, uma disputa entre esquerda e direita, mas para eleger o staff mais eficiente em administrar os interesses do Capital. O presidente Lula está sendo preservado, quase que de forma obsessiva, até pelo truculento Jefferson. Para o PSDB é importante sangrar o governo, tomando cuidado em não matá-lo e tornando-o cada vez mais dependente de sua tutela. Fernando Henrique, no Globo de 19/06, fala abertamente que Lula “não é um líder, mas um símbolo”. Seguindo o mesmo roteiro, na discussão sobre a reforma política, o parlamentarismo voltou à tona. Os setores do PT que defendem a aproximação com o PSDB – Gushiken, os irmãos Vianna do Acre, entre outros – estão alvoroçados com a possibilidade. Arma-se um cenário onde, caso o carisma de Lula continue garantindo-lhe índices de popularidade satisfatórios, se possa transformá-lo em uma rainha da Inglaterra, reinando junto com suas metáforas, enquanto PT e PSDB disputariam o cargo de primeiro-ministro condutor da política econômica em vigor, com direito a alternância de poder. Por ora, Lula ainda tem muita gordura nos índices de aprovação para queimar. Além disso, o principal “arauto do Rei”, as Organizações Globo, mantém seu apoio a ele. Para a esquerda e os movimentos sociais não-governistas estão abertas enormes possibilidades de começo de superação de um enorme período de resistência. O PSOL, finalmente desvencilhado do processo de legalização, tem um papel importante na construção, junto com os demais setores da esquerda crítica ao governo – cada vez com menos espaço dentro do partido e de suas tendências – de uma agenda de propaganda e de mobilização popular, que exija a apuração total de todas as denúncias de corrupção e a imediata saída de Meirelles, Jucá e todos os membros do governo que estejam sendo investigados pela Justiça. Uma agenda que combata o aprofundamento da política econômica de Palocci, cobrando cada compromisso de campanha. Que lute pela independência da CUT, UNE e movimentos sociais em relação ao governo Lula, em um contragolpe que evite o descrédito, o escárnio e a vala comum onde, certamente, a população brasileira colocará Lula, o PT e seus aliados.
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