Política de subdesenvolvimento
Adriano Benayon*
Tribuna da Imprensa - 05/05

A imprensa noticiou no início de abril: "O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o Produto Interno Bruto (PIB) em 2004, que atingiu R$ 1,769 trilhão, 5,2% maior que o do ano anterior [1] . O Produto Interno Bruto (PIB) representa o total de riquezas produzido num determinado período num país."

Parece bom, não? Não. Em primeiro lugar, há que calcular corretamente o valor real do PIB. O IBGE aplicou deflator de 8,5% para a variação dos preços 2003/2004. Entretanto, deveria ter usado o índice geral de preços (IGP-DI) da Fundação Getúlio Vargas. Como o IGBE só divulga os resultados trimestrais do PIB, mas não, os mensais, corrigi os valores do PIB de cada trimestre em relação ao respectivo trimestre de 2003, utilizando a média trimestral dos índices mensais do IGP-DI.

Em preços correntes, os valores foram R$ 1,77 trilhão em 2004, e R$ 1,56 trilhão em 2003 (alta nominal de 13,7%). Feita a correção pelo método exposto, o crescimento real não foi os 5,2% dos dados oficiais, mas, sim, 3,3%. Disso se infere o deflator de 10,4%, de resto, menor que a variação do IGP-DI entre dezembro de 2003 e dezembro de 2004, i.e., 12,14%. Excluindo-se as exportações, o "crescimento" real do PIB fica ainda mais acanhado:1,4%.

Outra coisa: em 2003, houve queda brutal, de sorte que a mirrada elevação de 2004 ainda deixou o PIB 2,4% inferior ao de 2002. Sem exportações, 4,9% menor. Para uma idéia de como a economia brasileira está sendo manietada pela política econômica, a Argentina teve, nesses dois anos, crescimento acumulado de 17,9%.

Ademais, o PIB não é sinônimo de "total de riquezas produzido". Além da produção de bens e serviços, ele inclui os impostos incidentes sobre ambos. Conta também os juros, o que não é razoável. De fato, o grosso da renda dos juros excede o valor resultante de taxas compatíveis com a contribuição do capital para a produção, acrescida da correção monetária. A conclusão é que, se os impostos e os juros têm subido, o produto real cresceu ainda menos do que dizem os números oficiais .

Se é verdade que a economia brasileira foi estabilizada, por que o Tesouro Nacional tem que pagar as taxas reais de juros mais altas do Mundo? E por que o Banco Central não pára de elevá-las? Com o novo aumento em 20 de abril, elas já são o dobro das da Turquia, segunda colocada, e quase três vezes as da África do Sul, terceira. Ora, no Mundo há cerca de 200 países!

Essa política faz crescer as despesas públicas improdutivas e torna mais pobres as empresas produtivas e as pessoas físicas, as quais são dessangradas por taxas de juros anuais de três dígitos.

A classe média, que já encolheu para 31% da população (a média alta, para apenas 3,4%), vem sendo desgastada por taxas anuais de juros dez vezes, e até mais, maiores que as toleráveis sem causar danos à economia do País.

Tenho mostrado muitas razões pelas quais altas taxas de juros fomentam a inflação, em lugar de contê-la, ao contrário do que diz o Banco Central e a "equipe econômica". Aduzo mais uma: os juros excedentes da razoável remuneração do capital geram renda em favor de seus receptores sem correspondente acréscimo na oferta de bens e serviços.

É pertinente também considerar quem fica com a renda. No Brasil cerca de 50% do PIB toca às transnacionais e outras grandes empresas, inclusive bancos. Já a participação dos assalariados caiu para menos de 30% em 2004, tendo-se acelerado a queda sob o governo petista. Já os lucros dos grandes bancos tiveram incremento real de 14,5% aa. (2002 a 2004), superando o enorme crescimento médio anual de 11,7%, de 1994 a 2002.

O PT aplica, com ainda maior ardor, a política econômica "collorida" e "tucana", a qual restringe os investimentos e o emprego. Ela faz com que as empresas produtivas e, em geral, os trabalhadores tenham escassas possibilidades de ganhar dinheiro. Mais: o que conseguem ganhar lhes é retirado por meio dos impostos, dos juros e de outros mecanismos que acentuam a concentração.

Escrito em 25/04/2005

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[1] N.E.: Posteriormente o IBGE refez os cálculos, diminuindo o índice para 4,9%

* Adriano Benayon, Doutor em Economia pela Universidade de Hamburgo, Alemanha. Autor de "Globalização versus Desenvolvimento"

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