Do príncipe ao sapo barbudo
PALAVRA CRUZADA - 03/06

Quando parecia que o presidente Lula ia ter alguma folga no front político, com o adiamento por uma semana da decisão da CCJ, sobre mais uma tentativa de abafar a CPI dos Correios, a política econômica – logo aquela que é o xodó de 9 entre 10 economistas/comentaristas – começou a dar sinais de ter sido atingida abaixo da linha d’água.

A semana começou com o governo comemorando o recorde do superávit primário. Pela primeira vez o Brasil conseguiu pagar a parcela da dívida externa, além dos juros e serviços, orgulhavam-se os assessores de Palocci e Meirelles. Bilhões de reais transferidos para os bolsos insaciáveis dos credores de rapina. No mesmo dia, a taxa de desemprego em São Paulo, novamente em alta, teimou em contrariar o discurso sempre superlativo do governo “que gerou mais empregos em 2 anos, do que FHC em 2 mandatos”. A conta, evidentemente, não inclui os postos de trabalho que o governo eliminou em 2003, com sua política recessiva.

Mas o pior ainda estava por vir. Os resultados do PIB em relação ao primeiro trimestre de 2005 são desanimadores, principalmente para os defensores do governo, que contam com cada vez menos estatísticas e números favoráveis para brandir contra a oposição. Nos 2 primeiros anos de governo, a política econômica havia conseguido a proeza de experimentar uma queda no PIB [0,2%] em 2003 e um crescimento de 5,2% [agora corrigido para 4,9%] em 2004. Ou seja, míseros 4,7% em 2 anos. Enquanto isso, só em 2003, nossos “hermanos” argentinos cresceram 8,4%. Os resultados divulgados, sobre o primeiro trimestre de 2005, comparados ao primeiro trimestre de 2004, mantém a mesma tendência. Com uma economia em ruínas e fortemente desnacionalizada, a Argentina cresceu o seu PIB em 9,5%, enquanto o Brasil patinou em 2,9%. Se estivéssemos disputando as eliminatórias sul-americanas para uma “Copa do Mundo Econômica”, a perspectiva de irmos para a Segundona seria grande, já que apenas o Paraguai nos separa da lanterna.

Por falar em 2ª Divisão, o IPEA também resolveu atazanar a vida do presidente. O seu estudo “Radar Social 2005” mostra que, em termos de distribuição de renda, o Brasil só ganha – entre 130 países – de Serra Leoa. E desta vez, os paloccianos não vão poder transferir a responsabilidade para o governo anterior, já que os dados são de 2003, primeiro ano do governo Lula. Os números impressionam e dão a dimensão exata do arrocho praticado sobre a população mais pobre, enquanto banqueiros e rentistas viviam, e continuam vivendo, no melhor dos mundos. 54 milhões de pessoas vivendo com menos de ½ salário-mínimo [R$ 130]. 22 milhões com renda menor do que ¼ do mínimo [R$ 65]. No mesmo período, 1,7 milhão de pessoas, os mais ricos, se apropriaram de 13% do PIB, enquanto que 85 milhões, os mais pobres, dividiram outros 13% da renda nacional. 1% da população brasileira com renda igual a outros 50%!

Fechando a enxurrada de péssimas notícias, a popularidade do presidente, mesmo que ainda em um patamar confortável [57,4%], manteve a tendência de queda. Já o desempenho do governo caiu abaixo do patamar de 40% de aprovação [39,8%]. De dezembro de 2004 até hoje, a popularidade pessoal de Lula diminuiu 13% e a aprovação de seu governo caiu 11%. Os resultados da pesquisa já sofrem o impacto das denúncias de corrupção nos Correios e no IRB. Daí o esforço governista para impedir a CPI dos Correios. O interessante é que 86% dos entrevistados são a favor da sua criação, o que pode fazer que uma eventual vitória na operação-abafa acabe se transformando em prejuízo mais grave nas eleições de 2006.

As perspectivas para o resto da ano não são muito diferentes. O setor agrícola, mesmo sendo o único que ainda apresentou algum crescimento, certamente não conseguirá os mesmos resultados do ano passado. Os juros escorchantes, feitos sob medida para o capital especulativo, somado ao dólar depreciado, prejudicam as exportações e, dessa forma, comprometem o superávit primário. Nos próximos trimestres as bases de comparação com 2004 são maiores. Será muito difícil conseguir superá-las, o que, provavelmente levará a uma queda do PIB deste ano. Valorizar o câmbio poderia aumentar a competitividade das exportações, mas aumentaria a dívida pública.

Se, pelo menos, a política de combate à inflação, posta em prática por Meirelles e Palocci, estivesse conseguindo êxito, o governo teria um salva-vidas em que se agarrar. Porém, a inflação em 12 meses está em torno dos 8%, contra 5,2% em maio de 2004. Ao estabelecer uma meta muito rígida e baixa, como se colocar o Brasil dentro da média internacional fosse obra de uma deliberação ou portaria, a equipe econômica criou uma armadilha para si mesma. A âncora cambial, se diminuiu a demanda interna, acabou por afetar as exportações, favorecendo as importações e diminuindo o nível de atividade econômica.

Trata-se, portanto de uma situação bastante difícil para o governo, que já vem tendo graves problemas na sua condução política. O governo Lula, a partir do segundo turno das eleições passadas, perdeu a iniciativa política. São 7 meses de paralisia, onde ele ficou mais e mais dependente das vontades de sua base de apoio, fisiológica e sem nenhum compromisso com o governo. A cada momento, Lula vai dilapidando o enorme patrimônio que o ele e o PT acumularam durante todos estes anos. Ao flexibilizar a ética em nome da governabilidade, o governo Lula ficou sem nenhuma das duas.

O governo que prometia mudar o país, hoje encontra-se na defensiva, sem conseguir sair da encrenca que criou. Ao aprofundar a política econômica que herdou – e que tanto criticara antes – Lula também aprofundou os danos causados por ela. Ao invés do tão decantado crescimento econômico sustentado, capaz de – como a fênix – fazer o Brasil renascer das cinzas, depois da destruição causada pelos governos anteriores, o crescimento econômico do governo Lula parece estar fadado a ser mais um vôo de galinha, raso e de curta duração. Aí então, a desilusão terá a mesma força que a esperança que o colocou na presidência. O príncipe voltará a ser o sapo barbudo.

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