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| Deputados da esquerda do PT rejeitam punições e querem debate aberto |
| Maurício Thuswohl |
| Agência Carta Maior - 31/05 |
| Corrigir os rumos da política econômica brasileira, estabelecer um novo arco de alianças para dar sustentação ao governo Lula e aproximar as iniciativas do governo dos anseios dos movimentos sociais e populares. Esses foram os principais caminhos propostos pelos parlamentares da esquerda do PT durante o evento, realizado nesta segunda-feira (30) no Rio de Janeiro, de lançamento do bloco de esquerda da bancada petista na Câmara dos Deputados. Com o objetivo declarado de ajudar o governo a sair da crise política em que se encontra atualmente, os parlamentares petistas também pediram o afastamento imediato do ministro da Previdência, Romero Jucá, e do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, além de lançarem um documento com 13 proposições de ação ao governo. “Trata-se de trocar a agenda punitiva por uma agenda positiva para o governo”, resumiu o deputado federal Chico Alencar (RJ), fazendo referência às ameaças de punição feitas nos últimos dias pelo presidente do PT, José Genoino, e pelo ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, aos 14 deputados federais petistas que assinaram o requerimento de abertura da CPI para investigar o esquema de corrupção nos Correios. O tema da CPI, naturalmente, dominou os debates que reuniram cerca de 500 militantes petistas no teatro da Faculdade Cândido Mendes. O futuro do PT também foi discutido no evento, que contou com a presença de dois candidatos à presidência do partido: Valter Pomar e Plínio de Arruda Sampaio. Um terceiro candidato, Raul Pont, acabou ficando retido numa outra atividade em São Paulo e não compareceu, mas enviou mensagem solidarizando-se com o evento realizado no Rio e com os “deputados rebeldes” do PT. Chico Alencar comandou as atividades ao lado dos deputados federais Ivan Valente (SP), Maninha (DF), Dra. Clair (PR) e Mauro Passos (SC), com a participação especial do sociólogo Emir Sader. Os deputados Paulo Rubem Santiago (PE) e Walter Pinheiro (BA) enviaram mensagens se solidarizando com o evento. Alem destes, também assinaram o requerimento da CPI dos Correios e apoiaram a formação do bloco de esquerda no Congresso os deputados petistas João Alfredo (CE), Gilmar Machado (MG), Orlando Fantazini (SP), Dr. Rosinha (PR) e Nazareno Fonteles (PI). Os deputados Virgilio Guimarães (MG), em rota de colisão com a direção do PT desde que se lançou candidato avulso à presidência da Câmara, e Antônio Carlos Biscaia (RJ) também assinaram o pedido de CPI, mas não fazem parte do movimento pela criação do bloco. A ausência de alguns deputados petistas foi compensada pela presença de ex-parlamentares emblemáticos do partido, como Fernando Gabeira (PV-RJ) e Milton Temer (sem mandato, atualmente do PSOL), que foram levar seu apoio e solidariedade aos colegas que assinaram a CPI. A deputada Maninha também mencionou o apoio de alguns senadores petistas ao movimento, como Eduardo Suplicy (SP, o único que assinou o requerimento da CPI), Cristovam Buarque (DF), Paulo Paim (RS), Serys Shlessarenko (MT) e Flávio Arns (PR). Acusados de “trair a confiança do governo Lula” por Genoino e ameaçados de exclusão do partido por Dirceu, os parlamentares rechaçaram a postura da cúpula do PT: “Não havia nenhuma deliberação da bancada ou do Diretório Nacional determinando que o requerimento da CPI não fosse assinado. Além disso, José Dirceu é ministro do governo, e não dirigente do partido”, afirmou Chico, ressaltando que 11 deputados do bloco de esquerda já não têm “cargo ou qualquer outra benesse do governo” desde as votações da reforma da Previdência e do salário mínimo, ainda em 2003. “CPI do Roberto Jefferson” “Essa é a CPI do Roberto Jefferson, a CPI do PTB, a CPI dos Correios, mas não a CPI do PT. Por isso, a direção do partido não deveria ter se empenhado tanto em impedir o requerimento”, afirmou Ivan Valente. O deputado disse confiar nas investigações da Polícia Federal e do Ministério Público, mas defendeu a CPI mista no Congresso, uma vez que existe um parlamentar envolvido nas denúncias. Na opinião dos deputados, o PT deveria ter se antecipado e tomado a iniciativa de pedir a CPI: “Deveríamos pedir a CPI com a assinatura dos 91 deputados do PT. Ao tentar barrá-la, o que o partido fez foi deliciar a oposição tucano-pefelista, que agora insufla artificialmente uma crise de governabilidade”, avalia Chico. Valente citou quatro motivos pelos quais o PT, na sua opinião, deveria ter liderado o movimento pela CPI: “Primeiro, desmascararíamos PSDB e PFL. Segundo, mostraríamos que não há impunidade para quem quer que seja só porque é aliado do governo. Terceiro, intimidaríamos outros membros da administração que quisessem cometer irregularidades. Quarto, faríamos com que o PT continuasse empunhando a bandeira da ética na política. Dessa forma, o PT estaria na ofensiva e eles na defensiva, e não o contrário, como acontece agora”, disse. A possibilidade de envolvimento de dirigentes petistas no esquema de corrupção dos Correios, sugerida em reportagem da revista Veja com o deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) onde são citados o secretário-geral do PT, Silvio Pereira, e o tesoureiro do partido, Delúbio Soares, não assusta os deputados do bloco de esquerda. Para Chico, “tudo que tiver nexo e objeto claros deve ser apurado”: “Se for comprovada participação do Silvinho e do Delúbio, assim como seria se fosse qualquer um de nós, o militante deve ser afastado liminarmente do partido e depois investigado. Precisamos de um choque ético, e o governo Lula é o único capaz de fazer isso”, disse. Valente completa: “Não tememos encontrar petistas no esquema. A CPI deve investigar a tudo e a todos, doa a quem doer. A direção do PT não deveria estar preocupada com isso, pois é aquele velho ditado: quem não deve, não teme”, disse. Punição em dezembro A intenção, manifestada por Genoino e por outros dirigentes do partido, de aguardar o encontro nacional do PT que será realizado em dezembro para punir os deputados rebeldes e assim “evitar que se tornem vítimas frente à opinião púbica” foi deplorada pelos deputados do bloco de esquerda: “Falar em punição em dezembro é extremamente grave. Dessa forma, a direção do PT parece querer fugir do debate que tem de ser feito agora e no Diretório Nacional. Não queremos punição em surdina, e sim um debate aberto, franco e leal”, afirmou Valente. A possibilidade de afastamento imediato da bancada também foi recebida com farpas: “Excluir da bancada esses 14 deputados, que são ativos e atuantes, seria um ato de auto-flagelação do PT, que hoje em dia raramente pode contar com seus 91 deputados. Além disso, modéstia à parte, sem o bloco de esquerda o nível do debate na bancada cairá muito”, afirma Chico. A política econômica e o perfil da atual base de sustentação do governo Lula no Congresso foram apontados pelos parlamentares como principais fatores de crise na administração petista. A deputada Dra. Clair propôs um novo arco de alianças, dessa vez alinhado à esquerda: “Somos contrários à atual política de alianças. Queremos um governo que construa sua base de apoio em cima do programa do PT e não através da barganha política tradicional”, disse. Quanto à economia, a deputada sugere uma mudança de rumo: “O PT deve recuperar seu papel hegemônico e influenciar o governo na mudança da política econômica”, disse. “PT não tem dono” Valente afirmou que o bloco de esquerda do PT na Câmara “não tem a pretensão de substituir os movimentos sociais”, mas quer atuar de forma firme para que o governo Lula volte a ter conexão estreita com eles: “A política econômica desmobilizou parte dos movimentos sociais, mas são eles que podem exercer a pressão de baixo para cima para alavancar mudanças. O PT não tem dono. Não é do José Genoino nem do José Dirceu, é dos milhares de militantes que construíram o partido nesses mais de 20 anos”, disse, sob intensos aplausos, gritos e até lágrimas dos militantes que lotaram o teatro. Chico Alencar também criticou as políticas econômica e de alianças: “Só a opção pela condução de uma política econômica neoliberal pode criar a lógica de um Roberto Jefferson como aliado e amigo de um governo do PT”, disse. O deputado confessou estar magoado com a forma como o grupo de parlamentares que assinou o pedido de CPI foi atacado pela direção do partido: “Descobrem um esquema de corrupção e de provável vício de licitação nos Correios, com o Roberto Jefferson e a quadrilha do PTB, e nós é que somos os culpados? O Campo Majoritário nos acusa de fazer oposição ao governo Lula, mas eles é que estão se opondo ao programa e à história do PT”. Os 13 pontos da agenda do bloco de esquerda do PT
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