Pesadelo, sonho, pesadelo
Clóvis Rossi
Folha de São Paulo - 24/05

O leitor mais jovem certamente não lembra, mas Sandra Fernandes de Oliveira foi aquela moça que teve a coragem de correr todos os riscos para pôr o último prego no caixão do governo Fernando Collor de Mello ao denunciar a chamada Operação Uruguai. Ajudou, portanto, a livrar o país daquele que foi o mais nefasto de seus governos democráticos.

Sandra deveria, portanto, estar orgulhosa, certo? Errado, diz ela em carta que enviou a parlamentares de TODOS os partidos e da qual me fez chegar uma cópia.

"Sinto uma enorme tristeza ao ver que o Brasil não mudou depois do impeachment de Collor", começa dizendo. Depois grita: "É absurdo o presidente Lula dizer quer daria um cheque em branco ao deputado Roberto Jefferson e dizer que dormiria tranqüilo... É absurdo ver a cúpula do PT - Dirceu, Genoino e Mercadante, entre outros - manobrar para abafar a CPI dos Correios".

Os três citados foram importantes na apuração do esquema Collor, de que Roberto Jefferson foi um dos chefes da tropa de choque.

Depois do grito, a desolação: "Se eu pudesse [voltar atrás], jamais teria denunciado Collor na farsa da Operação Uruguai. Eu tinha a esperança de que poderia viver, com a destituição de Collor, num Brasil melhor, com mais dignidade, honestidade e justiça social. Sonhei, pelos líderes do PT que falavam em nome da ética na política, que o Brasil teria jeito, poderia melhorar! Que desilusão e que decepção! Um choque, um trauma...".

Continuo achando que Sandra foi além do dever e que o afastamento de Collor foi profilático. Não acho que Sandra ou qualquer outro que tenha ajudado a afastá-lo deva se arrepender. Pelo contrário. Mas entendo perfeitamente a frustração com o que veio depois. O Brasil continua sendo um pesadelo tanto mais aterrorizante quanto mais doces foram os sonhos.

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