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| Kotscho defende CPI e vê "fim de feira moral" no país |
| Flávia Marreiro |
| Folha de São Paulo - 25/05 |
| Ex-secretário de Imprensa da Presidência e amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva há mais de 20 anos, o jornalista Ricardo Kotscho defendeu ontem a criação de uma CPI para investigar denúncias de corrupção. "Eu como cidadão, como jornalista, como petista, como eleitor do PT, sou a favor. Quanto mais se investigar e limpar este país, melhor." Kotscho, que deixou o governo em novembro de 2004, fez ponderações em relação à defesa da CPI pelos petistas: "Insisto neste ponto: quem é governo tem responsabilidade de governo". Questionado que "responsabilidades" justificariam o combate à CPI, disse: "Se o governo agir no sentido de pegar as pessoas envolvidas, fazer inquéritos para valer, como muitas vezes aconteceu, não haveria necessidade da CPI, que tem um ingrediente político". "Fim de feira moral" Em artigo publicado ontem no site Nominimo, Kotscho identificou no país um clima de "fim de feira moral" com a enxurrada de denúncias (leia a íntegra abaixo): "Você pega os jornais e não sobra pedra sobre pedra no cenário político, pinta um clima de fim de feira moral, de desesperança, de indignação, de salve-se quem puder, tudo ao mesmo tempo". Questionado se essa deterioração moral incluía o governo, disse: "Estou falando do noticiário e o noticiário é geral, pega tudo. Não é uma avaliação minha". No artigo, afirma que ele e "amigos do governo" demoraram para ver a mudança, para pior, no "conjunto da obra" no país. À reportagem, ele disse que o Planalto "demora" para perceber o impacto do noticiário negativo, porque ele perde peso quando chegam notícias boas ao gabinete. "Precisava ter outros instrumentos para perceber essas coisas mais depressa." Sobre reflexos da crise, disse: "Só se vai ter uma avaliação verdadeira na eleição do ano que vem". O vento virou e eu não percebi Céu azul e mar calmo, desses que chamam de almirante. Saímos cedo de Itapema para o passeio de barco até a ilha de Anhatomirim, na baía de Florianópolis, onde havia um forte que nunca foi usado e virou atração turística. Bem antes do combinado, em meio ao almoço, o velho barqueiro, que havia nos levado à ilha para passar o dia, voltou assustado e gritou: "Vamos embora que o vento virou! Tem que ser já!". Em segundos, Mara, minha mulher, o casal de amigos Décio e Lori Moser, nossas filhas e eu pulamos no barco e partimos de volta, sem tempo nem para perguntar nada. O céu pretejou de repente, ondas enormes se formavam à nossa frente, a chuva de vento veio forte e não se enxergava nada, muito menos terra à vista. O barquinho ziguezagueava meio à deriva, subindo e descendo as ondas, o motor rateando, o filho do barqueiro ajudando a abrir caminho com o remo. O passeio virou um tormento. Só me restava rezar. Nunca passei tanto medo na minha vida. Uma eternidade de meia hora depois, já na praia, o homem que nos salvou a vida e a dele, um pescador de barba branca que pensava saber tudo do mar, benzeu-se, beijou o filho e confessou que nem ele tinha visto coisa igual. Tomamos uma garrafa de cachaça no gargalo e, refeito do susto, comecei a pensar como o nosso destino pode mudar de uma hora para outra, dependendo da vontade do vento e de como reagimos à mudança do tempo. Por que esse episódio me veio à lembrança enquanto tomava um café na bucólica alameda Lorena, perto de onde moro, bem longe do mar? É que li, numa pequena nota na coluna de Tereza Cruvinel, em "O Globo": "Aqui em Brasília, o tempo virou de vez: chegaram juntos o frio, a seca e o pico da febre política que acomete o governo desde fevereiro". Nem faz tanto tempo, foi no começo de abril, neste mesmo canto do NoMínimo, escrevi um artigo com o título "Bons tempos, esses". Era sobre um jantar na casa do escritor Fernando Morais em que reencontrei velhos amigos e um baita alto astral, um pessoal de bem com a vida. Saí de lá feliz e resolvi contar uma história diferente, sei lá. Queria apenas fazer um contraponto, cair fora da mesmice da desgraceira geral, mostrar que, apesar dos juros, da corrupção e da violência, também tinha coisa boa acontecendo, mas os leitores não gostaram. Recebi uma tonelada de críticas, algumas até grosseiras. Faz parte do ofício. Ao contrário do que acontecia nos jornais e nas revistas em que trabalhei, onde eram raras e demoravam a chegar as cartas de leitores sobre o nosso trabalho, agora na internet a reação é imediata, fulminante. Deu para sentir que o pessoal anda tão bravo com a situação que não admite alguém falar em coisa boa. Ao bater de frente com o assustador noticiário dos últimos dias e a nota da Tereza Cruvinel, fui entender a justa revolta dos leitores comigo: o vento virou e só eu não percebi -eu e muitos amigos do governo em que trabalhei nos últimos dois anos. Trancado para escrever no apartamento, de onde só tenho saído para buscar a neta no berçário e dar algumas voltas no quarteirão, não me dei conta da radical mudança no tempo, que virou de vez o humor das pessoas. De volta à realidade, como escrevi outro dia, acabei me afastando dela, como notaram os leitores. Chove, depois de longa estiagem, os dias andam cinzentos e as noites paulistanas não convidam a sair de casa. Procuro descobrir onde foi, em que momento a coisa virou, pois não se trata de um fato ou outro, isoladamente, mas do conjunto da obra. A inflação continua sob controle, a economia, as exportações e os juros crescendo, o desemprego diminuindo, os números não mudaram. De repente, porém, você pega os jornais e não sobra pedra sobre pedra no cenário político, pinta um clima de fim de feira moral, de desesperança, de indignação, de salve-se quem puder, tudo ao mesmo tempo. É um velho filme que não gostaria de ver mais, mas que voltou às telas da vida. Dá para ficar assustado, como aquele dia no mar de Santa Catarina. O pior é que não há sinais de terra à vista e, em meio à tempestade, está cada um remando para um lado, querendo se salvar sozinho. Nessa hora, como diria o experiente pescador, muita calma - em vez de buscar um culpado, talvez seja melhor procurar uma saída. Afinal, estamos todos no mesmo barco. |
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