O modelo antigo era bem melhor
Milton Temer
Jornal do Brasil - 31/05

Desse rolo enovelado de CPI dos Correios, uma conclusão cai por gravidade. Eram bem melhores os modelos antigos de alguns dos principais líderes governistas atuais. Porque, francamente, ouvir de José Dirceu que propor CPI contra as gritantes evidências de corrupção nos Correios ameaça as instituições democráticas, nos coloca, no mínimo, diante de uma grande falácia. Mais ainda; dizer que o governo tentou bloquear a CPI por vê-la desnecessária diante das investigações, em curso avançado pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, é escárnio.

Está aí o episódio Valdomiro, para provar a insuficiência do instrumento. Por que labirintos caminha o processo instalado há bem mais de um ano? E olha que até a esfarrapada investigação da Assembléia Legislativa do Rio conseguiu estabelecer, com dois ou três depoimentos, estarrecedoras relações do citado delinqüente com as trampolinagens na Loterj. Ressalve-se não ser só incompetência que labora negativamente. Outra razão tem peso. Limitadas a tais instituições, as investigações são constantemente atravessadas pela interferência dos grandes poderes. Por isso, por paradoxal que pareça, aos próprios membros do MP interessa, em determinadas questões mais complexas, que os parlamentares de oposição não recuem na batalha pelas CPIs. Pela exposição pública dos seus desdobramentos, auxiliam qualitativamente a ação dos procuradores, naquilo que seria esfriado pelos corredores dos “segredos de Justiça”.

Não é lícito, também, invocar a “paralisação dos trabalhos do Legislativo pelo estabelecimento de uma tribuna eleitoral antecipada”, como foi feito no primeiro momento. Os líderes maiores do governo sabem muito bem serem as Medidas Provisórias do Planalto que, despejadas em fluxo incessante, bloqueiam as pautas do Congresso. As comissões só funcionam quando não há sessão de plenário.

Diante de toda essa pantomima, francamente, o Zé Dirceu antigo era bem mais palatável que o José Dirceu, ministro-chefe da Casa Civil,. Defrontado com a denúncia da influência nefasta de Roberto Teixeira – amigo dileto de Lula, para além de seu advogado – sobre contratos com prefeituras administradas pelo PT, não hesitou em submeter o então presidente de honra do partido à Comissão de Ética. E, por acaso o partido acabou diante das investigações? É verdade que o resultado final – Lula e Roberto Teixeira poupados, com o denunciante sendo o único punido – foi bizarro. Mas a memória da iniciativa não se apaga.

Preferível ainda o José Dirceu, deputado federal de expressão nacional, propondo uma CPI que me orgulho de ter assinado – a CPI das Privatizações, genérica, sem fato determinante, dispensável de pronto, diante de indícios pesados que surgiram de gravações das conversas da diretoria do BNDES com o presidente da República, por ocasião do leilão das teles.

Bem mais digno, também, o modelo antigo de Aloísio Mercadante – o deputado combativo contra o neoliberalismo do mandarinato tucano-pefelista, comprovando com cifras incontestáveis a bandalheira estabelecida pelo governo Fernando Henrique na desvalorização do real no primeiro mês de seu segundo mandato. Desvalorização que enriqueceu mais ainda a tropa de banqueiros predadores, com especial destaque para os do BankBoston, então presidido pelo atual condutor do Banco Central, o ínclito Henrique Meirelles.

Vendo-o, agora, a invocar o paralelismo no golpe contra Salvador Allende, não posso deixar de lamentar a blasfêmia. Salvador Allende, meu caro Mercadante, tinha como parceira a versão chilena da senadora Heloisa Helena, que o presidente Lula operou para ver expulsa do PT. Era a então jovem dirigente comunista Gladys Marins que sentava ao seu lado nas reuniões tensas do La Moneda.

Roberto Jefferson, Pedro Correia, Romero Jucá,ou Henrique Meirelles, apenas para citar os proeminentes aliados atuais do Planalto; estes, se chilenos, estariam nas conspirações da fascista Patria y Libertad, o principal braço político do golpe de Pinochet. A brava Maria da Conceição Tavares, que viveu o Chile da saudosa Unidade Popular, e hoje assessora a liderança do PT no Senado, certamente confirmará tal avaliação.

Por fim, “companheiros”, relaxem. A não ser que saibam da possibilidade da revelação de algo até agora oculto, inalcançável ao comum dos mortais, a CPI só pode comprovar a probidade do governo que os transformou em senhores.

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