Gutiérrez e Lula
Fábio Luís
Correio da Cidadania - 0505

A queda do presidente Gutiérrez no Equador revela uma vez mais a realidade convulsionada que subjaz o tecido político latino-americano.

Sua trajetória foi meteórica, nos dois sentidos: projeção e desterro. Alçou-se como figura política a partir da rebelião popular que destituíra o presidente anterior. O movimento fora protagonizado fundamentalmente pelas organizações indígenas, mas Lúcio Gutiérrez despontou como liderança do setor militar que aderiu às manifestações e terminou por efetivar o golpe. No entanto, beirando alguma semelhança com a Revolução dos Cravos portuguesa, entregou-se o mando à uma hierarquia que indicava adesão ao movimento. Estabeleceu-se a continuidade: o vice-presidente concluiu o mandato.

Nas eleições subseqüentes, Gutiérrez foi lançado candidato pelos setores identificados com as lutas que culminaram na deposição do presidente. Sua candidatura galvanizou o apoio do movimento indígena e das forças sociais progressistas, em um país de economia dolarizada onde grande parte da população trabalhadora está no exterior, buscando a sobrevivência. Encarnava a consecução de uma plataforma social que se viu frustrada – ou estancada, pelo sucesso parcial do movimento rebelde.

Insuficiente o empuxe popular para fazer da rebelião uma revolução, buscou-se a seguir a via da reforma. No entanto, apesar do triunfo eleitoral no contexto da vitória de Lula no Brasil, este caminho rapidamente mostrou-se inviável. Em pouquíssimo tempo tornou-se evidente que o presidente orientava sua administração no sentido do continuísmo e uma acentuada subserviência ao governo norte-americano. Nenhuma intenção de rever a relação com os organismos internacionais, a dolarização, a dívida externa ou a base militar norte-americana em Manta, por exemplo. Passados alguns meses, o movimento indígena retirou-se dos cargos que ocupava no governo e postou-se em oposição.

A derrubada de Gutiérrez explicita a insustentável situação de um presidente que, tendo esvaziado seu lastro popular, não poderia apoiar-se em uma direita que não o reconhece como um dos seus. Sua gênese bastarda na política o condenou.

Encontrou exílio no governo brasileiro, que aliás perpetrou um malabarismo notável para viabilizá-lo, orquestrando a fuga internacional de um militar acossado pelo povo.

Não é desprovido de sentido o episódio: a prática política do governo Lula não se diferencia, na essência, da efêmera experiência equatoriana. O contraste é que Lula goza de um patrimônio político acumulado em décadas de luta popular, sintetizado na trajetória e na força do PT. Já o capital político de Gutiérrez foi instantânea e explosivamente aquinhoado, como da eclosão de uma mina.

Isso resulta em reações populares vivamente contrastantes à desilusão imposta pelos fatos: o líder equatoriano foi velozmente escorraçado do governo e da história, enquanto Lula consome seu prestígio e o do PT na manipulação de uma energia social combativa que fatalmente, tarde ou cedo, lhe cobrará a conta do desastre. Um eficaz manejo da ambigüidade, sobretudo nas relações internacionais, ajuda a adiar mas não cancela a fatura.

Ambas experiências explicitam novamente a ausência de espaço para a reforma na América Latina. Lula e Gutiérrez são a cara direita, a farsa da moeda da reforma, que encontrou em Allende no Chile a sua face esquerda e trágica.

<<< voltar >>>
Hosted by www.Geocities.ws

1