EUA: a mau tempo, boa cara
Emir Sader
Correio da Cidadania - 10/05

Depois de investir 3 bilhões de dólares na maior operação já realizada contra as drogas na Colômbia, os EUA não conseguiram diminuir a oferta desse produto em seu país. Apesar das estratégias de erradicação da folha de coca, a área de colheita se mantém constante nos últimos anos. E a Colômbia continua a abastecer 90% do mercado estadunidense.

“Os indicadores de disponibilidade de cocaína estão estáveis ou ligeiramente maiores no mercado de drogas no país”, confessou a agência de política contra drogas na Casa Branca. Os preços permaneciam estáveis e a pureza da droga teria aumentado, segundo as mesmas fontes. Em suma, fracassou totalmente a operação de combate às drogas.

Ou não? Se imaginarmos que o objetivo é o combate às drogas, evidentemente a operação – chamada de Plano Colômbia – fracassou. O uso de 82 aviões para lançar herbicidas em plantações – em princípio de coca, mas atingindo de forma indiscriminada à agricultura em geral –, a militarização do país, o massacre de populações civis, nada teve efeito sobre o abastecimento de cocaína para os EUA.

Apesar disso, o governo colombiano pediu à secretária de Estado, Condoleezza Rice, na sua passagem pelo país, no mês passado, recursos para construir uma base aérea supostamente para avançar na luta contra as drogas, valendo-se da disposição do novo governo do Equador de desativar a base de Manta e de sua decisão de não conceder imunidade às tropas estadunidense presentes no país. O presidente colombiano, Álvaro Uribe, por sua vez, solicitou mais 734 milhões de dólares para o Plano Colômbia ao Congresso dos EUA.

As razões do fracasso são claras: se desloca para o exterior o combate às drogas, sem combatê-la dentro do país. Seguindo o mesmo procedimento que historicamente adotou, exorciza seus problemas, buscando bodes expiatórios no exterior. Neste caso, nos camponeses andinos, nos governos e nos movimentos sociais da região. Basta que nos perguntemos quantos chefões do narcotráfico estão presos nos EUA, para nos darmos conta de como não são combatidos dentro do país, o que provavelmente implicaria no enfrentamento das enormes máfias – que cruzam o sistema financeiro – que traficam no país que, de longe, é o maior mercado consumidor de drogas no mundo. Enquanto não combatem seus traficantes, exigem que os outros governos extraditem os seus para os EUA, para que tenham acusados a ser julgados pela Justiça desse país, no lugar dos seus chefões, dentro de suas fronteiras.

Sem nenhum efeito no combate às drogas, a Operação Colômbia segue, porque seu objetivo real é o combate às guerrilhas do país. É essa a finalidade real dos investimentos milionários realizados por Washington nesse país, intensificando o foco de enfrentamentos violentos e fazendo da Colômbia o país mais violento e conturbado do continente. E, no entanto, o diagnóstico do governo Bush – e dos seus porta-vozes locais – é o de que a Venezuela seria o fator maior de instabilidade na América Latina.

Pesquisa de opinião feito pelo Instituto Datanálisis indica que o presidente venezuelano tem o apoio de mais de 70% da população de seu país. E não porque intensifique os conflitos armados no país – como faz seu vizinho Álvaro Uribe –, mas pelas políticas sociais que leva a cabo e pela derrota institucional e pacífica que impôs à oposição no referendo e nas eleições do ano passado. Com isso, os EUA viram enfraquecer-se definitivamente as forças golpistas que promoveram e apoiaram nos últimos anos, infrutiferamente.

Instável é a Colômbia, com a operação levada a cabo pelos governos estadunidense e colombiano, instáveis são as situações internas no Equador, na Bolívia, na Nicarágua, pelas políticas levadas a cabo por seus governos, conforme os organismos internacionais apoiados por Washington.

Mas as péssimas notícias dos últimos dias para o governo Bush – derrota na eleição do secretário-geral da OEA, queda do governo aliado no Equador e substituição por um governo que se distancia dos EUA, e derrota da operação para impedir a candidatura favorita de López Obrador à presidência do México – fazem com que o governo Bush tenha de se consolar com a Colômbia e Álvaro Uribe, como seu principal aliado no continente.

Isolados e enfraquecidos, tenderão a intensificar as hostilidades na Colômbia, contra a Venezuela e contra Cuba. E mandar representantes fingir que tudo anda bem para eles no continente. A mau tempo, boa cara – como a da sua secretária de Estado, que partiu de mãos abanando de sua fracassada viagem ao continente.

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