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Cidadania: Tarso Genro, ministro da Educação, realmente
concordou em apoiar a campanha da dívida?
Juçara Dutra Vieira: Na verdade,
o ministro tem uma disposição de apoiar o movimento da CNTE
pela conversão da dívida em recursos para a educação,
mas nós achamos que, dentro da organização sistêmica
do Estado brasileiro e também dos próprios estados e municípios,
o papel dos ministros e secretários de educação não
tem sido o papel de decidir sobre finanças para a área da
educação. Portanto, ainda que achemos que a atitude, o gesto
e a iniciativa do ministro da educação é muito importante
como uma palavra do governo brasileiro, queremos que essa palavra também
seja empenhada pelo ministro da Fazenda (Antonio Palocci), pelo chefe
da Casa Civil (José Dirceu) e pelo próprio presidente Lula.
Esta campanha precisa de um aval do governo pois ele é o interlocutor
da dívida que existe, especialmente, com os organismos multilaterais.
O apoio do ministro (Genro) é uma vitória parcial, mas precisamos
incidir sobre todo o conjunto do governo, ainda mais por estarmos conseguindo
outros apoios importantes, como o da Unesco.
CC: No que consiste,
exatamente, esta proposta de converter a dívida externa em recursos
para a educação?
JDV: Fizemos um levantamento da dívida
externa brasileira e descobrimos que é um pouco superior a R$500
bilhões. Paralelamente, levantamos qual seria o recurso necessário
para ter uma educação de qualidade. O parâmetro que
usamos foi o definido pela sociedade brasileira quando da formulação
do Plano Nacional de Educação (PNE): 10% do produto interno
bruto (PIB). Hoje, isto representa algo em torno de R$180 bilhões.
Dessa forma, nossa referência é o valor que necessitamos
para uma educação de qualidade e não as parcelas
da dívida e a sua forma de composição. Isso porque
sabemos que a dívida foi contraída em diversos períodos
históricos e é muito heterogênea, ainda que a dívida
interna seja superior à externa. Então, estamos fazendo
seminários – realizamos um em Brasília dia 26 de abril
– para termos também a contribuição de outras
entidades que fazem este debate e que fazem campanhas voltadas para a
questão da dívida, como as que reivindicam a auditoria.
Nos seminários analisamos estas questões tecnicamente. Temos
essa referência dos 10% do PIB e, como meta para aplicação
deste recurso, o define no PNE. E, internacionalmente, temos as Metas
do Milênio – um acordo entre vários países organizados
numa discussão dentro da Unesco – que podem servir de referência.
Resumindo, não queremos fazer esta campanha sozinhos, achamos componentes
técnicos a serem discutidos mas sabemos que, fundamentalmente,
dependemos de uma decisão política do governo de encarar
este debate. Solicitamos uma agenda com o governo para fazer essa discussão
e o ministro Genro disse que a teríamos a partir de junho.
CC: Levando em conta
a política econômica posta em prática pelo governo
atual, qual a probabilidade da proposta se viabilizar?
JDV: Uma campanha desta natureza não
pode ser apenas pragmática – escolher uma parte dos recursos
e converter aleatoriamente. É uma campanha que, do nosso ponto
de vista, também questiona a política econômica do
governo e envolve outros temas. Ela se dá em paralelo com a questão
da auditoria e outras iniciativas que visam dimensionar a questão
da dívida. É claro que, aí, temos interesses diferenciados:
os movimentos sociais querem a conversão e também procuram
alterar a política econômica, mas isso não vai coincidir
com o governo. Por isso, propusemos uma agenda onde queremos ser reforçados
pela opinião dos movimentos e, claro, o governo também apresentará
o seu ponto de vista. De todo modo, estamos num momento em que é
possível retomar o tema da dívida. Há 10 anos essa
discussão esteve no cenário político nacional, fizemos
campanhas muito grandes em relação ao não pagamento,
tiramos posição em congressos mas esse tema acabou sendo
deixado de lado por outras urgências que o movimento social e a
própria sociedade tinham. Agora, achamos que há novo período
favorável à retomada do debate. Achamos que a sociedade
quer fazer essa discussão. Há uma geração
que nem havia nascido nos anos 1970 e que sofre os impactos da remessa
de recursos para o exterior a título do pagamento da dívida.
No dia 1º de maio, por exemplo, tivemos um pronunciamento do senador
Paulo Paim (PT-RS), que homenageou a CNTE e fez a divulgação
da campanha. Veja que vão aparecendo outras propostas de interesse.
Eu ouvi, recentemente, uma manifestação do senador Cristóvam
Buarque (PT-DF) fazendo a mesma proposta, só que para a dívida
interna.
CC: A campanha toca
principalmente na questão do financiamento. A falta de recursos
é o principal problema para a educação no Brasil?
JDV: É o principal porque ele
está combinado com a inexistência de um sistema nacional
de educação. Embora tenhamos algumas responsabilidades compartilhadas
como na Lei de Diretrizes e Bases, o sistema é mal articulado.
Existe uma grande dificuldade porque, no Brasil, a educação
se organiza de modo que a responsabilidade para com o ensino infantil
é dos municípios, do ensino médio é dos estados
e o ensino fundamental dos estados e municípios. Ou seja, os entes
federados que, em tese, têm menos recursos – temos muitos
estados que sobrevivem de repasses da União – são
responsáveis por um grande contingente de estudantes. Portanto,
precisamos repensar a responsabilidade da União. De certa forma,
agora com a determinação do governo de passar de R$450 milhões
para R$4 bilhões as verbas do projeto do Fundeb (Fundo de Manutenção
e Desenvolvimento da Educação Básica), já
temos uma posição nesse sentido. Mas sem o financiamento
não temos condições de valorizar os profissionais
de educação, de manter os profissionais nas escolas, a pesquisa,
etc. O financiamento é o principal problema.
CC: Fora do financiamento,
o governo fez algumas tentativas com relação ao ensino superior
como a criação do ProUni e do Sinaes e a aprovação
da Lei de Inovação Tecnológica. Como a senhora avalia
estas iniciativas?
JDV: Nós da CNTE fizemos uma
avaliação do projeto de reforma da educação
superior e achamos que é preciso realmente retomar uma proporção
mais adequada entre educação pública e privada pois,
hoje, a educação privada detém cerca de 70% das vagas
no ensino superior. O Estado brasileiro deve desempenhar um gerenciamento
da educação superior. É importante, por exemplo,
ter um sistema de cotas para valorizar os estudantes das escolas públicas.
E ainda que reconheçamos o grande apelo que o ProUni tem, ele não
resolve essa questão estrutural de recompor as vagas na educação
pública. Fizemos então um documento - e o entregamos ao
Ministério da Educação - defendendo o compromisso
de elevar o percentual das escolas públicas pois ele passa pelo
aumento de vagas, pelo o crescimento dos cursos noturnos – as universidades
públicas precisam entender que temos muitos trabalhadores que estudam,
não estudantes que trabalham. Além disso, faz-se necessário
garantir a qualidade e de descentralização da universidade.
O Estado brasileiro deve apostar nessa capacidade porque ela significa
soberania e independência e hoje a educação e o saber
são componentes estratégicos para o desenvolvimento.
CC: Qual sua opinião
sobre reforma universitária? O ProUni é parte dela?
JDV: O problema com o ProUni é
que ele já aconteceu paralelamente com a reforma que tramita. O
governo tomou algumas iniciativas que de certa forma antecipam as mudanças.
A necessidade de reforma é no sentido de a sociedade pensar, novamente,
naquelas reformas básicas que há uns 40 anos foram ensaiados
mas acabaram sendo abortadas pelo golpe militar. Isto é, uma reforma
da educação superior, basicamente, deveria colocar o ensino
como uma estratégia nacional de articulação do papel
do Estado, uma estratégia de inclusão e de desenvolvimento.
O ensino superior deveria integrar um sistema nacional de educação
onde o Estado tivesse grande governabilidade, inclusive sobre as instituições
privadas, no sentido de fazer um acompanhamento e um controle de qualidade
que hoje não existe no Brasil. A iniciativa privada não
é controlada a não ser a implantação de cursos
que, depois de serem implantados, não sofrem nenhum tipo de gerência.
Digamos, por exemplo, que em alguma universidade tenha alguma denúncia
de corrupção. Não é o Ministério da
Educação que intervir neste processo, deve-se procurar outras
vias. Isto diz respeito ao conjunto da educação e a qualidade
que o Estado brasileiro deveria preservar. Portanto, entendo que a reforma
deveria dimensionar o papel do Estado como indutor do conhecimento, um
agente que possibilita a inclusão. Uma reforma que vise também
diminuir desigualdades sociais e regionais. Temos uma agenda produtiva
agora. Bem diferente daquela primeira implementada pelo governo, que foi
a reforma da Previdência. Uma agenda negativa pois não colocava
a ampliação de direitos mas a sua retirada.
CC: O governo Lula
está abaixo ou acima das suas expectativas?
JDV: Achamos que o governo Lula levanta
muitas expectativas por ser um governo dos trabalhadores e de esquerda.
Portanto, achamos que o governo não tem cumprido com sua pauta
em relação às políticas sociais, pois a expectativa
era mais elevada e também porque ele tem mantido uma política
econômica ortodoxa que inviabiliza, ou pelo menos compromete, iniciativas
na área social. O governo não priorizou, ainda, as políticas
sociais e o que ele apresentava como uma necessidade de equilíbrio
político, de não por em risco a estabilidade, já
não se sustenta depois da segunda metade do mandato.
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