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| A prerrogativa dos juros máximos e a prerrogativa de viver |
| Luis Fernando Novoa Garzon* |
| Correio da Cidadania - 05/05 |
| A recomendação de Lula aos brasileiros para que se mexam em busca dos "melhores juros do mercado" faz lembrar a mítica frase de Maria Antonieta dirigida aos franceses para que comessem brioche na falta de pão. Depois, ainda encontrou fôlego para dizer que mesmo com a taxa Selic a 19,5% o mercado interno continua crescendo, por conta do micro-crédito! O oligopólio financeiro se belisca. A economia fictícia, de pura circulação e especulação, há muito sonha com um governo de igual natureza. Um deleite um presidente assim, o mais alheado possível em sua comovente "preocupação". A autoridade máxima da Nação, ao recorrer a argumentos tangenciais e a humilhantes tergiversações, dá prova definitiva de que considera intocável a política de juros máximos em vigor desde o Plano Real. Os juros no Brasil são definidos pelo piso da satisfação mínima dos especuladores. Não é pela demanda por liquidez, não é pelo volume de poupança disponível, não é pelas expectativas futuras de retorno de investimentos produtivos, não é nem pela famigerada taxa de risco-país. Os juros altos mantém o país de pé, na verdade de ponta-cabeça, dia após dia. Não há como rolar a sacrossanta dívida sem eles. Impossível deter a escalada dos preços de outro modo; cuidado, só de pensar em alternativas a inflação aumenta! As metas de inflação precisam ser baixas o suficiente para comprometer o orçamento público e a capacidade do Brasil de retomar o crescimento. Nossa confiança junto aos mercados depende muito disso. O desenvolvimento é primazia deles, uma dádiva dos mercados a quem merece, por isso não podemos decepcioná-los! Como podem ser tão rancorosos e injustos os que reclamam de juros tão providenciais... Temos é que dar graças e louvá-los. Palocci e demais porta-vozes oficiais do sistema financeiro, dizem que juros altos são como banho frio: robustecem os bancos, os mercados de capitais e eliminam resíduos econômicos indesejáveis. As suas máscaras tecnocráticas escondem uma relação de parceria íntima. Alguns, aliás, têm seus próprios bancos, outros têm cargos já prometidos. O cacife deles em futuras eleições e/ou em composições de Executivo está assegurado. A financeirização do Estado capilariza-se. Não sou banqueiro e continuo acreditando na máxima brechtiana de que roubar ou fundar um banco são ações equivalentes. A melhor imagem de ciranda financeira para mim é a da roda-viva, instrumento de tortura medieval em que o corpo amarrado da vítima vai sendo desmontado a cada giro. Eu que dependo de um mercado interno verdadeiramente dinâmico, preciso de uma economia capaz de gerar continuamente emprego, renda e inovação tecnológica. E “só” por isso exijo, me esgoelo e faço questão de uma nação como esteio de identidade, cultura e projeto coletivo. Não é por “ideologia” cara-pálida que defendo um minucioso controle de capitais. Basta querer viver dignamente para lutar por um sistema financeiro de caráter público voltado para o desenvolvimento, de curto, médio e longo prazo. Basta uma mínima noção do que significa penar para viver nesse país para considerar inadmissíveis as “obrigações” da dívida externa. Defenda o modelo rentista, criminoso e perverso quem for promotor ou beneficiário dele. Todos nós outros saberemos que o caminho é na direção oposta.
* Luis Fernando Novoa Garzon é membro da ATTAC - Ação pela Taxação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos |
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