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| O culpado é o bode |
| Paulo Piramba |
| PALAVRA CRUZADA - 16/05 |
| A cassação do deputado federal André Luiz [sem partido – RJ], no último dia 4, deve ser comemorada por quem acredita que o Parlamento, mesmo com todos os seus problemas, deva ser – no mínimo – ético. Afinal, em gravações feitas pelo “empresário lotérico” Carlinhos Cachoeira, o ex-deputado aparecia tentando extorquir R$ 4 milhões de Cachoeira, para livrar o bicheiro das acusações que pesam contra ele, fruto do episódio ainda não esclarecido, que envolve o ex-assessor do ministro José Dirceu, Waldomiro Diniz, igualmente protagonista de uma fita de Cachoeira, onde também aparecia pedindo propina. Porém, a cassação do deputado apresenta todas as características de mais uma operação-abafa, onde André Luiz é o bode expiatório da vez. A eleição de Severino Cavalcanti para a presidência da Câmara de Deputados colocou o parlamento na alça de mira da mídia. Diariamente, seja através de charges, artigos analíticos, ou pelos seus atos e declarações – às vezes hilários, quase sempre lamentáveis –, Severino vem ocupando espaço na imprensa, despertando interesse e se transformando no bobo da corte. Para provar que de bobo não tem nada, ele tem se utilizado do cargo para dar uma ajudazinha aqui para um amigo, arrumar um empreguinho lá para o filho. E la nave va. Contudo, a presidência de Severino tem o mérito de expor a fragilidade de uma outra presidência pernambucana: a do presidente Lula. Desde que Lula resolveu passar “para o outro lado da Força”, ele vem sustentando o seu governo sobre uma composição de forças heterogênea, do tipo vaca-com-burro, que não tem lhe dado leite, nem ajudado a puxar a carroça do seu governo. Se antes da eleição de Severino as coisas já estavam complicadas, neste primeiro semestre a sensação é de estouro da boiada, com os líderes tendo perdido completamente a autoridade sobre os liderados. Respaldado por Severino, o baixo-clero se sentiu à vontade para barganhar cada votação. E como os líderes do governo, além da arrogância, têm mostrado freqüentemente uma grande incompetência na ação política, o resultado são derrotas inesperadas e em número maior do que o governo gostaria. Outra virtude da gestão de Severino Cavalcanti é desmascarar, também, o papel que o Legislativo cumpre, hoje, de ser balcão de negócios e negociatas, livre-mercado de lobistas. E é justamente aí que o bode – digo, a porca – torce o rabo. Para a grande maioria dos parlamentares, que estas tenebrosas transações aconteçam, tudo bem. Mas que elas sejam escancaradas, mostradas no horário nobre da TV, é coisa bem diferente. Principalmente levando-se em conta que estamos às vésperas das eleições federais de 2006. Assim, era necessário criar um fato político e arranjar um bode expiatório, que servissem para mostrar ao distinto público, que o Congresso Nacional não poderia ser “denegrido”, como disse o presidente do Senado Renan Calheiros, ex-collorido e atual defensor da moral e dos bons costumes do Congresso. Então, o bode “respiratório” [citando um ex-presidente corintiano] escolhido foi o deputado André Luiz. O destino do deputado já estava decidido, apesar do apoio de parte da bancada evangélica. Em um culto em sua solidariedade na Câmara, foram ouvidas pérolas como: “Precisamos nos unir nesta casa, que é envolvida pelos espíritos demoníacos”, pregou o exorcista-pastor-deputado Philemon Rodrigues [PTB-PB]. Todavia, o próprio Severino Cavalcanti chegou à Câmara no dia da votação, com a cara-de-pau devidamente envernizada, dizendo que a degola de André Luiz seria “a prova de que a Câmara não tolera quem comete desvios éticos e morais”. Mas o bloco de detratores do deputado não era apenas composto por espertos e cínicos. A esquerda, que sempre combateu a corrupção e os desvios de conduta no Legislativo, cumpriu o seu papel. Da bancada do PT, por exemplo, partiram sonoros e contundentes discursos contra o deputado, sempre destacando o compromisso do partido com a ética. Mas a TV Câmara não conseguiu mascarar a sensação de que algo estava fora de lugar naqueles discursos. Afinal, toda esta encrenca envolvendo o bicheiro Cachoeira não é nenhuma cascata [com direito a trocadilho], e sua origem está nas tratativas entre ele e o ex-assessor especial da Casa Civil, Waldomiro Diniz, que supostamente envolveria dinheiro para as campanhas do PT, em troca de facilitação de negócios com a Caixa Econômica Federal. Na época, o PT tratou de sair da linha de tiro, dizendo que Waldomiro não era [mais] filiado ao PT. Por outro lado, o governo Lula disse que o problema era com a Casa Civil, e Zé Dirceu devolveu a batata quente para Waldomiro que, disciplinadamente aceitou jogar gasolina em si mesmo, ateando fogo às vestes e queimando, na esperança que as suas cinzas fossem varridas para baixo do tapete. As “rigorosas investigações” prometidas pelo governo não avançaram e o ele fez uma aposta – talvez na banca de Cachoeira – no proverbial esquecimento brasileiro. Por isso, a sensação de travo na boca dos oradores petistas. Não falo da maioria da bancada petista, que trocou o “tudo pelo social”, pelo “tudo pelo pessoal [do Planalto]”. Falo das deputadas e deputados petistas, que discordam da trilha que o Campo Majoritário impôs ao PT, mas que, franciscanamente, insistem em continuar no trem, mesmo sabendo que a passagem é só de ida e que o rumo do partido não tem volta. No caso em questão, deve ser complicado administrar a [correta] cassação do deputado, e ter que conviver diariamente num partido que tem uma série de caveiras-de-burro enterradas, como o assassinato do prefeito Celso Daniel, por exemplo, que, supostamente, tem a ver, também, com o financiamento das campanhas eleitorais petistas. A gente torce para que este episódio sirva, pelo menos, para mostrar quais são realmente os limites da participação de militantes de esquerda dentro do PT. A impossibilidade de criação de “ilhas vermelhas” dentro do arquipélago petista, que é – sem nenhum engano – banhado pelo mesmo mar de lama. Que est@s deputad@s, companheir@s de tantas batalhas, percebam que nem mesmo uma atitude independente de recusa do voto em projetos anti-povo, como o governo Lula tem nos brindado, vai conseguir tirar da boca o sabor amargo que as vitórias de Pirro costumam ter. |
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