![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
| Memórias dos tempos de opressão |
| Emir Sader |
| Agência Carta Maior - 28/04 |
| Ninguém tem o monopólio da memória. Cada um pode lembrar o que queira, o que consiga, o que sua memória lhe permite. Mas o que não é possível é que o monopólio privado da mídia trabalhe sistematicamente para apagar da memória dos brasileiros, o que foram os anos da ditadura militar. Se eles o fazem, é porque todos se alinharam a favor do golpe militar e da ditadura, se comprometeram com a repressão, a tortura, os desaparecidos e todo o regime de terror que se impôs, pela força, aos brasileiros. Agora se fala dos últimos 40 anos – 20 durante a ditadura – como se tivessem se passado em outro país, sem que a TV Globo tivesse nada a ver – nem no seu nascimento, nem nas suas prerrogativas, nem no seu papel de porta-voz do regime – com tudo aquilo, apenas registrasse o que acontecia. Fala-se de 1965 com assepsia, como se se tratasse apenas do ano de nascimento da TV Globo. Nem sequer se menciona que sua certidão de batismo foi o acordo com a Time-Life. Apenas para recordar algumas das coisas que ocorreram naquele ano e que, provavelmente, primarão pela ausência nas reportagens feitas sobre 1965 e estarão ausentes também das crônicas dos bajuladores e dos que comem nas mãos dos que nasceram mediante as vantagens da ditadura e sempre foram fiéis a ela. Vejamos alguns dos fatos resenhados por Darcy Ribeiro – que naquele momento vivia no exílio, condenado e perseguido pela ditadura – em seu livro (esgotado) “Aos trancos e barrancos”. Pode-se pesquisar para saber como essa mesma imprensa privada cobria (ou desconhecia absolutamente) esses fatos essenciais: - “Os norte-americanos concedem ao novo governo vários empréstimos no valor total de quatrocentos e vinte e cinco milhões de dólares e doam vinte e três bilhões de cruzeiros, resultantes dos acordos do trigo e que sobraram do financiamento do golpe.” - “O Serviço Geológico dos Estados Unidos rouba e entrega à US Steel os levantamentos realizados por uma empresa brasileira para o governo, graças aos quais se localizou na Serra dos Carajás uma grande jazida de calcário e minério de ferro.” - “Os milicos instalados no poder se surpreendem e se enfurecem com as eleições para governadores, nas quais a oposição venceu em cinco estados.” - “O Ato Institucional n. 3 implanta o bipartidismo, dando nascimento à Arena”. “Daí em diante, todo deputado que se opõe efetivamente à ditadura tem seu mandato cassado. Sai quem tem dentes, ficam os que mordem com as gengivas.” - “O novo Ato Institucional autoriza o governo a legislar por decretos-leis.” - “As Forças Armadas, acatando seu novo destino proclamado, de força auxiliar do exército norte-americano, mandam tropas brasileiras participar das tropelias ianques na República Dominicana.” - “Castelo Branco começa a falar de fronteiras ideológicas, interdependências e de mundo livre: de fato, se entrega ao alinhamento automático com os Estados Unidos para apoiar todas as tropelias que eles fazem pelo mundo afora.” - “É promulgada e posta em execução a Lei 4.725, destinada a reduzir os salários reais através dos critérios de fixação do salário mínimo e de controle dos aumentos salariais. A nova lei, somada à repressão policial e à intervenção nos sindicatos, submete o trabalho à servidão frente ao capital.” - “Intelectuais de prestígio – Antonio Callado, Carlos Heitor Cony, Jaime de Azevedo Rodrigues, Flávio Rangel, Glauber Tocha, Marcio Moreira Alvez, Joaquim Pedro e Mario Carneiro – são presos por se manifestarem contra a ditadura abrindo a faixa “Queremos Liberdade” em frente ao Hotel Glória do Rio de Janeiro, onde se realiza um Congresso da OEA. Outra faixa em espanhol dizia: “Bievenidos a nuestra dictadura””. - “Grave crise na Universidade de Brasília em conseqüência de repressão a dezessete professores tidos como subversivos e que recebem solidariedade de todos os demais.” - “A USP e a UFRJ, bem como uma dezenas instituições culturais, vêem surgir dentro delas, espumantes de ódio, intelectuais repressores que aderem à ditadura e passam a apontar, de dedo duro, a seus colegas mais competentes como subversivos.” - “O reitor da USP, Gama e Silva, se credencia para ministro do Justiça nomeando uma Comissão Dedo-duro, que compõem laboriosamente uma lista de cinqüenta professores e estudantes dos mais brilhantes e remete aos órgãos de segurança para serem punidos e demitidos.” - “’É promulgada a Lei Suplicy, que legaliza a perseguição, expulsão e demissão de estudantes e professores e a intervenção nas universidades.” - “Entra em ação o Acordo MEC-USAID – ratificado secretamente em 1967 para implantar a reforma universitária, que corresponde ao espírito da ditadura, privatizando as universidades públicas e dissolvendo as organizações estudantis. Para isto, o general Meira Matos junta milicos e deseducadores brasileiros com sub-intelectuais norte-americanos contratados pelo mesmo órgão de Washington que patrocinou o treinamento dos torturadores.” - “A Revista Civilização Brasileira, mensário cultural e político da oposição de esquerda, alcança uma tiragem de quarenta mil exemplares. Eram os brasileiros se perguntando, aflitos: por que o Brasil não deu certo?” São apenas alguns dos fatos de 1965, ano que marcou também a reocupação das ruas do país por manifestações estudantis, que abriam um novo período de mobilizações populares contra a ditadura. A conferir quanto disto contará dos balanços do ano em que nasceu aquela que – apesar de um de seus porta-vozes dizer que se tornou um “sonho totalitário destruir a Rede Globo” – teria imortalizado o lema popular nas grandes manifestações de fim da ditadura: “O povo não é bobo. Abaixo a Rede Globo”. Por algo será. |
| <<< voltar >>> |