O impacto Ratzinger
Adital - 19/abr

Habemus Papam - Quando o cardeal protodiácono, o chileno Jorge Medina Estévez, foi à sacada do Vaticano anunciar o novo papa, ainda havia esperança na América Latina de uma mudança de rumo na Igreja Católica. Antes de saber que o novo chefe católico é o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Josef Ratzinger - agora Benedicto XVI -, havia a esperança de parte dos católicos de que se seguisse a tradição dos conclaves e o novo pontificado surgisse com uma renovação, uma mudança de linha de trabalho e pensamento, que aproximasse a igreja, hoje em crise, das necessidades do mundo atual.

"Estou perplexo", confessou a um canal de televisão brasileiro o teólogo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Fernando Altemeyer Junior. Ele acreditava na força de Ratzinger como eleitor e não como elegível. O teólogo da libertação Leonardo Boff, ex-padre perseguido por Ratzinger e obrigado, na década de oitenta, a fazer voto de silêncio na defesa de suas idéias disse: "Dificilmente ele será chamado de Papa". Boff avalia que a era "invernal" que hoje caracteriza a Igreja se prolongará com o novo Papa, só que de forma ainda mais dura porque Benedicto XVI não terá o mesmo carisma de João Paulo II. "É um homem voltado para dento da Igreja e a protege como um bastião. Esta estratégia está fadada ao fracasso".

O teólogo e homem forte de João Paulo II, agora ele mesmo Papa, já disse a que veio, No discurso aos cardeais na abertura do Conclave, segunda-feira, reafirmou sua linha dura e ortodoxa de trabalho, confirmando a concentração de poder da Igreja européia. Conclamou aos eleitores que defendessem uma igreja firme e conservadora, capaz de enfrentar o marxismo, o liberalismo e as seitas. E é essa linha a escolhida por mais de 78 (2/3 + 1) dos cardeais do mundo, que renunciaram a uma igreja que valorizasse a aproximação com a humanidade, abrindo frente para combater os problemas como a fome, a pobreza, a guerra, o pluralismo das culturas e, dentro da igreja, renunciaram à colegialidade, à participação, ao pluralismo teológico a um novo entendimento da moral e da ética no mundo de hoje, e a valorização plena da mulher.

O teólogo suiço Hans Küng afirmou à imprensa alemã que a eleição de Joseph Ratzinger é uma "grande desilusão" para "muitos católicos", embora se mostre aberto aos primeiros atos do novo Papa. Segundo ele, a esperança era de um "Papa pastoral de reformas". E dessa opinião compartilha Boff em entrevista recente à Adital, quando indagado sobre a possibilidade de um papa vindo da cúria romana: "Raramente vem um Papa dos círculos da Cúria, pois aí estão Cardeais, 24 hoje, que não possuem experiência pastoral nem se confrontam diretamente com os desafios da pobreza e da miséria da humanidade. E existe uma certa animosidade contra eles por causa da forma como se relacionam com as Igrejas nacionais e locais. Sobram, então, as áreas onde existem Cardeais-pastores como a África, Ásia e América Latina, com larga vantagem para a América Latina."

O novo papa
Um perfil Joseph Ratzinger por Weltton Máximo

Por trás da doçura dos olhos azuis e da inteligência reconhecida entre os colegas cardeais, está a mão de ferro que mantém ativa a linha mais dogmática da Igreja.

Grande ideológico do pontificado de João Paulo II, o alemão Joseph Ratzinger, 78 anos, chega ao trono de São Pedro como a figura ideal para garantir a ortodoxia da doutrina católica. Eleito para um pontificado de transição, dada a sua idade, o novo Papa participou de todas as polêmicas dentro da Igreja e do mundo católico sempre com o objetivo de frear mudanças.

Um dos cardeais mais influentes da Cúria Romana, o governo central da Igreja, Ratzinger chefiava, desde 1981, a poderosa Sagrada Congregação da Doutrina da Fé, antigo Tribunal da Inquisição. Ele também era o decano do Colégio dos Cardeais, além de presidente da Pontifícia Comissão Bíblica e da Comissão Teológica Internacional. Um dos três cardeais-eleitores que participaram da eleição de João Paulo II em 1978, Ratzinger defendeu com veemência as posições do antecessor.

Responsável pela excomunhão de teólogos reformistas como Hans Küng e Eugen Drewermann, na Alemanha, Ratzinger foi um dos que impuseram o silêncio ao brasileiro Leonardo Boff, hoje afastado da Igreja. No documento “Dominus Jesus”, Ratzinger acusou as outras igrejas de errarem por não aceitar o Papa como líder religioso de todo o mundo, o que provocou uma onda de críticas na ocasião.

O novo Papa considera o feminismo um fenômeno inquietante porque “equipara homens e mulheres e ignora as diferenças biológicas entre os sexos”. No ano passado, eliminou a participação da Igreja em programas de apoio moral a mulheres que fariam aborto. Em agosto de 1999, suspendeu as atividades pastorais de uma freira e um padre americanos que davam assistência a comunidades de gays e lésbicas de Washington.

A linha dura vem desde a conclusão do doutorado em 1953 quando Ratzinger passou por cátedras de Teologia em diversas cidades alemãs e centrou o ensino no dogma e na Teologia Fundamental. Nos anos 60, teve a oportunidade de difundir suas idéias na revista “Communnio”, da qual foi um dos fundadores. Importante espaço de debates na Igreja, a publicação serviu como “laboratório” do pontificado de João Paulo II.

Nascido em Marktl am Inn, na Baviera (sul da Alemanha), em 1927, Ratzinger entrou no seminário aos 12 anos e foi ordenado padre em 1951. Estudou Filosofia e Teologia na Universidade de Munique. Depois de anos como professor, foi designado arcebispo de Munique e Freising e promovido a cardeal em 1977.

Na Segunda Guerra, Ratzinger chegou a ser convocado para combater nos esquadrões antiaéreos alemães. Dispensado, foi recrutado pela legião austríaca e depois pela infantaria alemã, da qual desertou em menos de dois meses e retornou ao seminário. Para se defender das acusações de que teria colaborado com o nazismo, ele alega ter sido obrigado a ingressar no Exército.

Com a função de cuidar da máquina administrativa da Igreja, a Cúria Romana, onde brilhou o novo Papa nos últimos anos, tem mais poder do que aparenta. Constituída por cardeais que residem em Roma, ela não pode legislar em questões de fé, mas controla a burocracia no Vaticano e sempre influi nas sucessões papais.

Beneficiada no último pontificado, a Cúria passou a coordenar a Igreja quase que por conta própria após o agravamento da saúde de João Paulo II. Encastelados nos muros da cidade-estado, esses cardeais caracterizam-se pelo conservadorismo e quase não interagem com os fiéis e os bispos.

Ao longo de 26 anos de pontificado, o papa João Paulo II enfraqueceu as igrejas locais e centralizou as decisões no Vaticano, o que naturalmente beneficiou os máximos dirigentes do governo da Igreja. Além da Secretaria de Estado, a cúpula é constituída de sete congregações, duas comissões pontifícias, três tribunais, 12 conselhos pontifícios e três ofícios. Na Constituição apostólica divulgada em 1996, o papa João Paulo II determinou que, após sua morte, todos os membros da Cúria deveriam renunciar. Até a escolha do sucessor, o único com poderes administrativos foi o cardeal carmelengo, o espanhol Eduardo Martínez Somalo.

Mas a poderosa sombra daquele que foi o ideólogo de João Paulo II ditou todo o processo entre a morte do último Papa e a eleição do novo. Josepf Ratzinger, o decano dos cardeais, foi o principal cabo eleitoral de si mesmo. E venceu. (extraído do blog de Ricardo Noblat).

As cartas-bomba do cardeal

Alguns links para documentos oficiais do Vaticano, redigidos por Joseph Ratzinger e aprovados pelo Papa João Paulo II:

<<< voltar >>>
Hosted by www.Geocities.ws

1