| Um projeto sul-americano
alternativo à hegemonia norte-americana na região é
viável e necessário, aposta o economista
e escritor Cesar Benjamin, autor de “A opção Brasileira”
e da coletânea de artigos “Bom Combate”. Juntos, países
como Brasil, Venezuela e Argentina reúnem riquezas, interesses
próximos e os povos do continente podem construir com facilidade
uma identidade comum. Mas o Brasil, maior economia e mercado regional,
e que teria o papel central neste projeto, pode estar se furtando a cumprí-lo
– por escolha ou por mediocridade. Ele fala de ambas.
Como você analisa
a conjuntura internacional deste início de século?
O grande desafio é tentar compreender a profundidade e a estabilidade
da hegemonia estadunidense. Há interpretações diversas
sobre isso. Alguns afirmam que é uma hegemonia muito firme, pois
os Estados Unidos têm uma economia poderosa e controlam a moeda
mundial, as armas, as principais instituições multilaterais
e os meios de comunicação. Outros afirmam que é uma
hegemonia em crise, que desestabiliza o mundo e necessita do uso contínuo
da força. Eu acho que os dois pontos de vista têm alguma
razão. O mais importante é tentar vê-los dinamicamente.
O aprofundamento da hegemonia estadunidense tem tido
de fato um efeito negativo, e às vezes fortemente desagregador,
em vastas regiões. Coincide com uma fase de grande estagnação
na América Latina, uma crise dramática na África
e uma enorme instabilidade no Oriente Médio. Há problemas
também nos outros pólos do mundo desenvolvido: o Japão
está em recessão há mais de dez anos e a Europa não
consegue crescer. Todas essas regiões, em princípio, teriam
interesse em uma nova ordem, embora não se veja bem como possam
reagir. Mas é preciso reconhecer que a ordem estadunidense ainda
abre espaços para o crescimento do Leste da Ásia, que é
a atual área dinâmica do sistema-mundo, onde está
situado o grande Estado em ascensão, a China. O gigantesco déficit
comercial dos Estados Unidos, sustentado em última análise
com a emissão de dólares, é o grande gerador de demanda
mundial, e esse mecanismo tem sido aproveitado especialmente pelos asiáticos.
Aí há uma dinâmica muito interessante em curso. Creio
que ela será determinante para o desdobramento da situação
mundial.
Como você imagina a
evolução dessa relação dos Estados Unidos
com a Ásia?
Se a China mantiver suas taxas de crescimento atuais por mais uns quinze
anos, seu produto interno bruto se aproximará muito do produto
dos Estados Unidos, podendo até ultrapassá-lo. Esse cenário
contém uma ameaça à hegemonia militar estadunidense.
Se a capacidade produtiva de ambos os países ficar no mesmo patamar,
os investimentos militares chineses poderão equiparar-se aos investimentos
dos Estados Unidos. Se levarmos em conta que a Ásia abriga também
as grandes economias do Japão e da Índia, podemos ver que
o jogo se tornaria muito mais complicado.
O que isso quer dizer?
Por motivos geopolíticos, e não especificamente econômicos,
os Estados Unidos terão de bloquear o crescimento chinês.
Isso significa bloquear o crescimento de todo o Leste da Ásia,
pois hoje a economia chinesa é, de longe, o mais importante centro
cíclico da região. Falando de forma muito simplificada,
o arranjo atual é o seguinte: o déficit dos Estados Unidos
cria demanda para as exportações chinesas, e o superávit
chinês ativa as demais economias asiáticas. No momento em
que os Estados Unidos tiverem de bloquear o crescimento chinês,
a hegemonia estadunidense passará a ter um papel desagregador na
área dinâmica do sistema-mundo, cujo potencial de resposta
não deve ser subestimado. O Estado chinês sabe que elevadas
taxas de crescimento serão, por muito tempo, condição
necessária para manter a estabilidade interna no seu país.
Ele terá de responder duramente à nova situação.
Não se deixará desconstruir passivamente.
Como ele poderia reagir?
Ele já está reagindo preventivamente, com muita competência,
evitando um confronto prematuro e ampliando parcerias no mundo inteiro.
E tem vários trunfos na mão. Quem ainda sanciona o papel
do dólar como moeda mundial são os asiáticos. A China,
por exemplo, tem US$ 600 bilhões em reservas. Se se desfizer de
20% disso, o padrão dólar naufraga. Por outro lado, um arranjo
monetário que englobasse algumas economias asiáticas importantes,
em um mundo em que o euro já está presente, afirmando-se
gradativamente como moeda de reserva, também abriria uma situação
nova, com o dólar sendo remetido à condição
de uma moeda regional, entre outras. Em qualquer desses casos, a economia
estadunidense teria de fazer um ajuste recessivo numa escala até
hoje desconhecida, inaceitável para os padrões da sua sociedade.
Desapareceria o efeito-riqueza decorrente do controle da moeda mundial.
Este ajuste, por sua vez, jogaria a economia mundial em depressão,
atingindo fortemente a própria China... Como se vê, é
um quadro muito complicado, em que os interesses dos grandes atores são
ao mesmo tempo complementares e divergentes.
Como esse quadro tende a
evoluir?
Ainda vivemos uma conjuntura em que há mais convergência
do que divergência entre os dois grandes pólos, os Estados
Unidos (o pólo maduro) e o Leste da Ásia (o pólo
em ascensão). Mas o tempo conspira contra isso. Se, em algum momento,
a divergência predominar, a conjuntura mundial mudará, talvez
dramaticamente. Os que dizem que já vivemos em instabilidade e
crise verão o que é uma verdadeira situação
de instabilidade e crise. Isso, como eu disse, poderá ocorrer nos
próximos dez anos.
Não afasto a hipótese de um novo arranjo,
e acredito que os melhores estrategistas dos Estados Unidos e da China
estão envolvidos em encontrá-lo. Essa gente é treinada
para pensar muito na frente. Mas, neste momento, ele não está
claro. Quanto à hipótese de um confronto, o estopim pode
ser a questão de Taiwan. A China aprovou uma lei que exige ação
militar contra Taiwan em caso de declaração de independência.
Em Washington, uma outra lei obriga os Estados Unidos a defenderem Taiwan
em caso de intervenção. Se algum dos lados decidir que chegou
a hora do confronto, o pretexto está ao alcance da mão.
Nos próximos anos, esse lado só poderá ser os Estados
Unidos, pois a China ainda quer ganhar tempo.
Como a Guerra do Iraque entra
nesse cenário?
Iraque está mostrando que a hegemonia militar também tem
limites. Os Estados Unidos são capazes de destruir um Estado não
detentor de armas nucleares, um sistema produtivo, uma rede de infra-estrutura,
praticamente sem sofrer perdas, mas não são capazes de ocupar
uma sociedade que não lhe oferece base política interna
para isso. Eles não conseguirão ficar dentro do Iraque,
expostos à ação de uma resistência legítima
e crescente. Já estão terceirizando a guerra, aumentando
o recrutamento de mercenários ou de gente pobre na América
Central e na África. Esse aspecto lembra um pouco a fase final
do Império Romano. Quando Roma caiu, há muito tempo os romanos
não lutavam. Contratavam soldados entre os povos conquistados.
Os Estados Unidos já devem ter percebido que Saddam
Hussein era um homem deles. Pois, quando eles tiverem de sair do Iraque,
o caminho ficará aberto para formar-se uma vasta área predominantemente
xiita que vem do sudoeste da Ásia até a fronteira da Arábia
Saudita. O regime de Saddam é que impedia isso. Parece-me claro
que, diante da deterioração da situação no
Iraque, os Estados Unidos vão bombardear instalações
estratégicas do Irã, para fazê-lo regredir tecnologicamente
e ter de dedicar-se durante muitos anos à própria reconstrução.
Por isso já colocaram o Irã dentro do “eixo do mal”.
Já se pode ver alguma
alternativa ao poder militar dos Estados Unidos?
Os Estados Unidos se manterão por muito tempo como a superpotência
militar. Pois, ao contrário do que se pensa, o fator decisivo no
equilíbrio do poder mundial não é o controle das
grandes massas terrestres, mas sim o controle dos oceanos, que é
o que permite controlar o deslocamento de grandes cargas (inclusive as
matérias-primas estratégicas) e projetar força. Quem
controla os oceanos tem poder de veto sobre os fluxos que movem a economia
mundial e tem capacidade de deslocar suas próprias forças
para qualquer região do planeta. Esse controle está solidamente
colocado nas mãos dos Estados Unidos. Construir uma marinha de
guerra de alcance mundial, centrada em porta-aviões e submarinos
movidos a propulsão nuclear, é um empreendimento caríssimo
e de longo prazo. Nenhum outro Estado, neste momento, pode trilhar esse
caminho. Quando a antiga União Soviética começou
a fazer isso, os Estados Unidos a atraíram para uma guerra terrestre
no Afeganistão, no interior da Ásia, para mudar o foco do
esforço militar soviético. Foi um lance de gênio.
Os grandes países asiáticos são
por natureza potências terrestres, seja pela massa territorial e
demográfica do continente, que eles precisam gerenciar e controlar,
seja pelos seus enormes e complexos contenciosos internos. Os Estados
Unidos, por sua vez, só têm dois vizinhos, que não
o ameaçam. Do ponto de vista geopolítico, são uma
ilha. Podem construir forças armadas totalmente desenhadas para
projeção de força, sem preocupações
defensivas territoriais relevantes. O Exército estadunidense é
fraco. Fortes são a Aeronáutica e a Marinha, que fazem bombardeios
e desembarques. Mas, se eles não conseguem manter ocupado um país
pequeno e despovoado, como o Iraque, muito menos conseguirão fazer
isso num país asiático relevante. A hegemonia militar, repito,
tem limitações. O que decide o processo são as condições
políticas internas de cada sociedade.
E a possibilidade de guerra
nuclear?
No atual estágio tecnológico, os arsenais nucleares não
são tão importantes em termos de ação ofensiva,
porque apenas neutralizam os arsenais dos outros. As armas nucleares são
feitas para não serem usadas. Uma pequena potência nuclear,
como a Coréia do Norte, consegue paralisar a máquina de
guerra dos Estados Unidos.
Nesse cenário, o que
o Brasil pode fazer?
Não pode fazer muito. Tem de preservar sua capacidade de agir,
que é pequena e reduziu-se na última década, e tentar
aumentar seus graus de liberdade. Historicamente, eles aumentam quando
a hegemonia mundial está em disputa: obtivemos Volta Redonda em
plena crise que antecedeu a Segunda Guerra Mundial. Nossa margem de manobra
pode aumentar também se a América do Sul assumir um projeto
próprio. É um continente com enorme potencial. Os Estados
Unidos, com a Alca, o Plano Colômbia e outras iniciativas, pretendem
consolidar sua hegemonia regional e nos encaixar solidamente em uma subárea
sob seu controle, que no futuro poderá vir a ser a área
do dólar. Mas um eixo formado por Venezuela, Brasil e Argentina,
constituído de forma consistente, apresentaria uma alternativa
de aglutinação. A complementaridade das economias é
enorme. A Venezuela é o segundo país mais importante do
mundo em recursos energéticos, só atrás da Rússia.
A Argentina tem uma agricultura fortíssima. Dos dez países
mais bem dotados em recursos biológicos, seis estão na Amazônia.
Temos gás, petróleo, minérios, capacidade de geração
elétrica, água, terras, insolação abundante.
Nossos povos podem construir com facilidade uma identidade comum. Um projeto
sul-americano é necessário e viável. O Brasil tem
um papel central nisso. É a maior economia do continente, faz a
ponte geográfica, tem um grande mercado, a base industrial mais
completa, boa capacidade técnica. Mas ainda não assumiu
de fato o seu papel.
Como você vê
a ação do governo argentino no caso da sua dívida
externa?
Até o início da década de 1990, os papéis
das dívidas externas dos países latino-americanos estavam
concentrados nas mãos de poucos grandes bancos, que acabaram ficando
muito expostos. Isso se tornou um problema para eles. Créditos
considerados duvidosos geravam grande incerteza, e eventuais moratórias
implicavam perdas consideráveis. Mas, ao mesmo tempo, aquela situação
conferia grande poder de pressão a esses mesmos credores. Oito
ou dez grandes bancos sentavam em torno de uma mesa, definiam posições
comuns, telefonavam para o secretário do Tesouro do governo dos
Estados Unidos e, a partir daí, pressionavam fortemente cada devedor.
Os credores eram frágeis economicamente, mas fortes politicamente.
Aproveitaram-se disso para impor condições duríssimas
aos nossos países.
Com as renegociações, na primeira metade
da década de 1990, as dívidas foram securitizadas, ou seja,
pulverizadas em milhares de pequenas dívidas cujos papéis
passaram a ser negociados nos mercados secundários. Os grandes
bancos deixaram de ficar expostos, mas ao mesmo tempo os credores se fragilizaram
politicamente. Agora são milhares, dispersos, anônimos, cada
um com um pedacinho das dívidas. Não podem mais formar um
cartel. Com a Argentina já em moratória, Kirchner compreendeu
que era a hora de dar o troco. Repudiou de vez os papéis velhos
e propôs a troca deles por papéis novos, com cerca de 25%
do valor dos anteriores. Obteve um enorme êxito. Afinal, é
melhor receber 25% do que nada. Terminada a operação, curiosamente,
a Argentina passou a obter uma classificação de risco melhor
que a do Brasil, que vem pagando tudo religiosamente...
E a política externa
do governo brasileiro?
Lula gosta de fazer afirmações bombásticas: “Vamos
reconstruir a geografia comercial do mundo”, ou “Vamos fazer
uma parceria estratégica com a China”. Parte da esquerda
adora isso, mas os profissionais sabem que é tudo uma imensa bobagem.
O Brasil não tem peso para refazer geografia comercial nenhuma
– nossa participação no comércio internacional
gira em torno de 1% --, e se quisesse fazer uma parceria estratégica
com alguém – especialmente com a China – nunca deveria
anunciar isso prematuramente. Talvez não devesse anunciar nunca.
Não teremos política externa forte se não
tivermos controle sobre nossa própria base produtiva, capacidade
de defesa, estoques estratégicos de alimentos e de matérias-primas
essenciais, capacidade de produzir nossas sementes e remédios,
alto grau de cidadania, e assim por diante. Esse conjunto de condições
é vital para podermos tomar decisões com uma boa margem
de autonomia. Sabotar tudo isso dentro do Brasil e transformar a política
externa numa griffe é pura demagogia. Quando o nosso governo sai
da retórica para a ação é um desastre, como
mostra a intervenção no Haiti. Os argentinos, aliás,
acusam o governo Lula de ter atuado para que a reestruturação
de sua dívida não desse certo. Os representantes do Brasil
no FMI e em outras instituições atacaram a proposta argentina,
talvez porque ela deixasse exposto o nosso servilismo diante dos mesmos
credores.
Que avaliação
podemos fazer do governo Lula como um todo?
Lula governa há mais de dois anos e não foi capaz de apresentar
ao país nenhuma grande idéia, daquelas que marcam uma época
e cuja influência se projeta para o futuro. A marca do seu governo,
antes de tudo, é a mediocridade.
A política interna do Brasil continua a ser feita
dentro da mesma estrutura conservadora que prevaleceu nos governos anteriores.
Forças de natureza supranacional, representantes dos nossos credores
internos e externos, ocupam o Banco Central e o Ministério da Fazenda.
A partir dessas posições, manejando as políticas
monetária, cambial e fiscal, bem como a execução
do orçamento, controlam e subordinam a ação de todo
o Estado brasileiro. As demandas de natureza subnacional se expressam
no Legislativo, onde são negociadas caso a caso, na margem, de
acordo com a necessidade de composições políticas
em cada momento. E o povo pobre recebe as migalhas das políticas
compensatórias. Lula opera dentro dessa mesma estrutura de organização
do poder, radicalizando todos os seus aspectos.
Não há atenuantes?
Alguns companheiros dizem que a conjuntura nacional e internacional é
muito difícil. Outros dizem que Lula ainda não conseguiu
governar. Outros centram sua crítica na política econômica,
como se ela fosse um enclave conservador dentro de um governo progressista.
Tudo isso é escapismo. O governo Lula fez uma opção
ideológica conservadora, embora contenha dentro de si alguns enclaves
progressistas, como quase sempre ocorre em qualquer governo. Isso pode
ser reconhecido na agenda que vem cumprindo – com alterações
retrógradas na Previdência, na legislação trabalhista,
na organização sindical; com seu apoio ao agronegócio
e aos transgênicos; com o pagamento de juros indecentes aos que
vivem de rendas – e na relação com o povo. Depois
de mais de dois anos de um governo supostamente de esquerda, deveríamos
esperar que o povo brasileiro estivesse mais informado, mais mobilizado,
mais consciente, mais preparado para a luta, mas o que vemos não
é isso. Nenhum discurso de Lula está voltado para construir
a força social transformadora. Nenhum desperta novas consciências
e novos valores. Nenhum mobiliza. Ao contrário. Ele age sistematicamente
para desmoralizar as forças progressistas e enfraquecer o mundo
do trabalho, enquanto diz ao povo: espere, não faça nada,
no fim eu vou dar conta de tudo. É chocante a diferença,
por exemplo, com os pronunciamentos de Chávez ou de Fidel aos seus
povos. Cada pronunciamento de um desses líderes tem forte conteúdo
dialógico e pedagógico. São chamamentos à
consciência, à organização, aos valores, à
colocação do povo como protagonista de sua própria
história.
A eleição de
Lula não foi uma demonstração de avanço do
povo brasileiro?
Não. Resultou da mesma operação política que
vem desde Collor, que liga os de cima com os de baixo.
Explique isso melhor.
A Constituição de 1988 manteve o presidencialismo, garantiu
liberdade de organização e ampliou enormemente o contingente
eleitoral do país, principalmente em direção aos
pobres (com o voto dos analfabetos, por exemplo) e aos jovens (com o voto
aos dezesseis anos). Nunca tivemos um eleitorado tão amplo, tão
representativo da nação como um todo, o que, em tese, deveria
favorecer as forças da mudança.
Paradoxalmente, porém, desde 1989 temos uma sucessão
quase linear de políticas anti-sociais e antinacionais, sempre
referendadas pelo voto popular.
Para entender isso é preciso desvelar as operações
políticas que ligam, numa ponta, a grande burguesia nacional e
internacional e, na outra, o povo mais pobre, aquele que decide as eleições.
Collor inaugurou isso no terreno simbólico. Fernando Henrique deu
seqüência com o Plano Real, que permitiu uma convergência
momentânea desses interesses tão díspares. Mas esses
casamentos dos mais ricos com os mais pobres acabam sempre em frustração
e em divórcio. Não geram uma estrutura política estável.
A operação tem de ser refeita periodicamente, com nova roupagem.
Hoje, Lula é quem faz essa ligação. Oferece R$ 140
bilhões em juros para os mais ricos e R$ 10 bilhões, pulverizados,
em bolsa-família para os mais pobres. Ele será tolerado
pela burguesia enquanto cumprir bem esse papel. Depois será defenestrado.
Quando se desgastar, um novo arranjo político será apresentado
ao povo brasileiro, para que tudo continue na mesma.
Tudo continuará na
mesma?
Acho que não. Essa sucessão de arranjos é intrinsecamente
instável, e por isso o sistema político brasileiro, como
um todo, é instável também. Se o sistema que nasceu
na Constituinte de 1988 for mantido – eu não tenho certeza
de que será –, é questão de tempo que o povo
brasileiro coloque um reformador na presidência. Por isso está
em curso uma operação de blindagem, cujo aspecto principal
é a concessão de autonomia legal ao Banco Central, que é,
de longe, o principal órgão formulador e executor de política
econômica. Se ele for separado do poder político, o povo
poderá eleger quem quiser para a presidência, que nada mudará.
É um golpe branco.
E quanto às expectativas
de reeleição de Lula?
Para mim, são incertas. Não creio que Lula venha a ter um
final de mandato tranqüilo. A Presidência da República
é uma instância muito complexa, para onde convergem todas
as demandas e interesses. Só se gerencia bem a Presidência
quando existe um projeto, legitimado pela Nação, que sirva
de eixo ordenador das negociações e imponha limites aos
apetites de cada parte. Lula abriu mão de um projeto e passou a
fazer política no varejo, atendendo ou deixando de atender cada
interesse conforme as pressões do momento, agora cada vez mais
ponderadas pela grande meta da reeleição, a única
que de fato interessa ao grupo hegemônico do PT. Com o tempo, o
governo está se tornando inconfiável para todos. Ninguém
governa dois anos, desse jeito, sem crise.
Então, que fazer?
Nossa tarefa é impedir a reprodução da aliança
espúria dos mais ricos com os mais pobres, a que me referi, seja
qual for a forma que ela vier a assumir. E encontrar o caminho político
que viabilize a aliança do mundo do trabalho e da cultura com os
mais pobres. Poderemos formar assim uma maioria política e moral
de novo tipo, o bloco histórico de que a nação necessita
para sair da crise. Apesar das aparências, isso é perfeitamente
possível. Quando a necessidade existe, imperiosa, a coisa tende
a acontecer.
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