Lula defende política econômica, mas admite problema com juros
Marco Aurélio Weissheimer
Agência Carta Maior - 29/04

A economia dominou a primeira entrevista coletiva concedida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a jornalistas brasileiros. Durante aproximadamente uma hora e meia, Lula respondeu a perguntas sobre a política de juros, as mudanças na equipe econômica, as denúncias contra o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e sobre mecanismos de controle da inflação. O presidente reafirmou apoio à política econômica, destacando a confiança que deposita no ministro da Fazenda, Antonio Palocci. “Eu e Palocci somos unha e carne”, resumiu. Para Lula, a economia está no rumo certo, criando as possibilidades para a consolidação de um período de crescimento sustentado. Indagado sobre erros cometidos até aqui, Lula mencionou como três possíveis falhas a derrota na eleição para a presidência da Câmara, a falta de investimentos em estradas e o fato de o governo não ter encontrado outro mecanismo, que não a taxa de juros, para controlar a inflação.

No terreno político, o presidente defendeu o trabalho do ministro da Previdência, Romero Jucá, e do presidente do BC, Henrique Meirelles, que atualmente são alvo de denúncias e investigações. Afirmando seguir a regra que diz que todo mundo é inocente até prova em contrário, Lula disse as investigações sobre qualquer cidadão devem ser consideradas com normalidade, evitando qualquer tipo de julgamento antes que elas cheguem a uma conclusão. Além disso, apesar de apontar a eleição na presidência da Câmara como um possível erro do governo, Lula qualificou o deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) como um aliado do Palácio do Planalto. “Severino faz parte da base do governo”, assegurou. Mas o tema que liderou a preferência dos jornalistas foi mesmo a política de juros praticada pelo Banco Central. As declarações do presidente criticando o comodismo da população em relação aos juros praticados pelos bancos foram lembradas em várias perguntas.

Três erros do governo

Na segunda metade da coletiva, um jornalista perguntou a Lula se o governo só tinha acertos ou se cometia erros também. Recorrendo a uma metáfora familiar, o presidente observou que um pai tem dificuldade para ver os erros dos filhos. E acrescentou, brincando: “é difícil reconhecer os erros em um governo que acerta tanto”. Mas admitiu que o governo comete erros e identificou três questões que, segundo ele, apresentaram ou apresentam problemas: a participação na sucessão na Câmara dos Deputados, a baixa realização de obras para a recuperação das rodovias brasileiras e a adoção da política de juros como único instrumento de controle da inflação. “Acho que pode ter sido um erro nosso ainda não ter feito com que os juros não sejam o único padrão de controle da inflação”, disse Lula. Ele admitiu que a lista pode ser maior, dizendo aos jornalistas: “espero que vocês os descubram e publiquem para que possamos consertar as coisas”.

Ainda sobre a política de juros praticada pelo Banco Central, Lula reafirmou que o governo deseja encontrar uma taxa de juros mais baixa para o país. E citou um número para sustentar que o Brasil já está caminhando nesta direção: a média da taxa de juros real do mercado foi de 15,5% em 2003 e de 10,2% em 2004. “Estamos caminhando para garantir a estabilização da economia, para que a gente possa ter certeza que a inflação não voltará mais, porque pode causar enormes prejuízos aos assalariados de todo o país”, resumiu o presidente da República. Manifestando confiança na política econômica conduzida pelo ministro Palocci, o presidente disse acreditar que o Brasil “caminha para estruturar sua política econômica e se transformar numa economia muito forte e muito competitiva”. E acrescentou: “a busca incessante para consolidar a nossa economia faz parte do meu cotidiano e do cotidiano do Palocci”.

Defesa do crédito consignado

Para Lula, outra medida importante adotada pelo seu governo para tentar diminuir os juros bancários é o aumento na concessão de créditos consignados (cujo pagamento é feito diretamente através da folha). Segundo ele, em 2004, essa modalidade de crédito injetou na economia cerca de R$ 13,5 bilhões, provocando um forte crescimento do consumo. O presidente defendeu ainda que a ampliação do crédito consignado aos aposentados a juros mais baixos será responsável por um aumento ainda maior do consumo. Outra medida apontada por ele como capaz de contribuir para a redução dos juros é a formação de cooperativas. “Eu digo sempre, e tenho pedido em todos os debates que eu faço, para que os comerciantes em cada cidade se organizem em cooperativas. Até porque eu tenho um sonho de transformar o Brasil no maior país cooperativado do mundo. Conheço algumas regiões em que prevalecem as cooperativas e as pessoas são mais solidárias”.

Através de medidas como o crédito consignado, “talvez a maior revolução bancária que aconteceu nesses últimos anos no Brasil”, e a constituição de cooperativas, Lula acredita que a sociedade poderá “reeducar o sistema financeiro”. “Para que um dia o banco perceba que ninguém está indo lá buscar dinheiro”. Na avaliação do presidente, com o crédito consignado “o trabalhador deixou de pegar dinheiro com agiota, deixou de pagar 8,5% no cartão de crédito, deixou de pagar o cheque especial, e agora pega dinheiro com contrato feito com o sindicato e com os bancos, tanto da CUT quanto da Força Sindical”. Isso é importante, acrescentou, “para o sistema financeiro entender que somos um país capitalista, que precisamos ter dinheiro em circulação, e que o nosso povo precisa – quando precisar – ter direito a um empréstimo a juros condizentes com a sua possibilidade de pagar”.

Autonomia do Banco Central

A polêmica proposta de formalizar a autonomia do Banco Central, defendida por Palocci, também apareceu em uma das perguntas. Lula respondeu dizendo que o Banco Central já tem autonomia para atuar em seu governo e que essa é uma questão exclusivamente técnica, que não deve ser contaminada por questões político-ideológicas. Afirmou ainda que vai esperar o resultado das discussões sobre esse tema no Senado e entre especialistas para decidir sobre a concessão de autonomia operacional ao BC. “Se em algum momento eu entender que a autonomia do Banco Central poderá baixar os juros, serei louco se eu não o fizer”. E concluiu: “ela tem que ser tratada do ponto de vista técnico, com especialistas, para que as pessoas possam efetivamente não ver o Banco Central vulnerável e, a cada dia, alguém fazer um discurso pedindo a cabeça do Banco Centra ou de um funcionário do Banco Central, porque aí você passa mais desconfiança”.

O único momento tenso da coletiva ocorreu quando um jornalista perguntou a Lula se ele estava conseguindo dormir bem em função das promessas feitas na campanha, de melhorar a vida do povo brasileiro, e da situação atual da população. “Olha, Roberto, não só durmo bem, como acho que você também dorme bem. Com a consciência tranqüila, de que estamos fazendo as coisas que podem e que devem ser feitas no Brasil”, respondeu o presidente. Ele citou números sobre o desempenho atual da economia e lembrou que o programa Bolsa Família está atendendo a 6 milhões e 700 mil famílias, “garantindo a essas pessoas que não tinham direito à comida, terem comida”. “Então, eu durmo com a minha cabeça tranqüila, durmo o sono dos justos todo santo dia, sempre com a preocupação de que eu preciso fazer mais, mais e cada dia mais, porque o desejo de fazer é insaciável da minha parte”, concluiu Lula.

Com informações da Agência Brasil

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