O desafio da CUT é enfrentar o neoliberalismo e a retirada de direitos
Agnaldo Fernandes*
PALAVRA CRUZADA - 22/04

Por uma CUT independente e de luta

Desde os ataques do 11 de setembro o imperialismo, em particular o norte-americano, tem aprofundado uma ofensiva brutal em todo o mundo e avançado política e militarmente em escala global (a ocupação militar do Iraque e Afeganistão, a imposição de uma solução reacionária para o Oriente Médio mesmo frente a um expressivo repúdio da população iraquiana, que não foi às urnas e segue resistindo e os avanços militares na América Latina, com o Plano Colômbia e a tentativa de golpe na Venezuela) em base ao uso da máquina militar e da cooptação dos governos submissos, inclusive os de centro-esquerda.

A burguesia, na Europa, tenta resolver o impasse mediante uma ofensiva contra a classe operária (flexibilidade trabalhista e privatização da previdência social). Essa ofensiva é a expressão da tentativa do império em buscar reverter a crise estrutural do capital. Mas ela segue inegável e se acentuando. Os EUA enfrentam um déficit fiscal recorde de US$ 600 bilhões e uma dívida externa bruta de US$ 4 trilhões. A dívida pública dos EUA é financiada com a emissão de dólares pelo Federal Reserve. Por isso, o dólar perdeu metade de seu poder de compra frente ao euro. Manifestam-se assim os limites dos déficits fiscais e das políticas monetaristas para contrabalançar a tendência para a depressão, derivada da sobre-acumulação de capital.

O incremento da produtividade nos EUA não reverteu a tendência declinante da taxa de lucros do capital, mesmo considerada a queda dos salários reais. Mas os trabalhadores estão resistindo e as mobilizações crescem. A resistência antiimperialista, cujo ponto mais profundo é a resistência iraquiana à ocupação militar do país, já produz crises na própria metrópole. Começaram críticas e insubordinações entre as tropas norte-americanas. A guerra de Iraque não será resolvida dentro dos limites de seu território, mas na escala de Oriente Médio e do contexto internacional. A questão decisiva é a Palestina. Por trás da suposta retirada de Gaza e das eleições para estabelecer o sucessor de Arafat, continua a ocupação de terras e fontes de água pelo Estado sionista. Isso tira margem de manobra ao colaboracionismo palestino da cúpula de Al Fatah, que se viu obrigada a vetar a candidatura de um líder popular, que se encontra na prisão em Israel, M. Barghouti.

Bush, com um segundo mandato em mãos, anuncia aos quatro ventos que vai manter sua política de ofensiva militar e econômica sobre os povos. Os aumentos seguidos dos orçamentos militares, a imposição de um amigo de Bush à direção da CIA, a tentativa de estabelecer um comando único dos serviços de inteligência atestam a tentativa de reforçar as características desta política, de cunho profundamente agressivo e autoritário, inclusive também sobre o próprio povo norte-americano, que desde os chamados “atos patrióticos” (decretos e leis estabelecidas pelo governo Bush após o 11 de setembro) começa a ter limitações nos seus direitos civis e democráticos.

Na América Latina, os EUA tentam impor seu controle por meio do avanço militar direto (bases militares) ou do uso de outras forças. No Haiti, o regime imposto pelos invasores franco-ianques restaurou as velhas camarilhas governantes sob Duvalier e os tonton macoutes. A polícia do regime de Latortue e as tropas de ocupação prenderam e assassinaram dúzias de militantes que se opunham à ocupação. Os principais contingentes que atuam em nome da ONU são latino-americanos, brasileiros e argentinos. Há também um processo de levante nacional. Partes do país não estão sob controle do governo, foi postergado o chamado às eleições. As tropas argentinas e brasileiras se empenham no desarmamento dos resistentes, atuando em conivência com as forças de direita. O envio de tropas ao Haiti prepara a intervenção das Forças Armadas na repressão interna na maioria de nossos países. O governo de Chávez e a comunidade de nações do Caribe desconhecem o regime fantoche de Latortue enquanto o governo do PT é responsável pelo envio do principal contingente de tropas de ocupação.

Na Bolívia, catorze meses depois da insurreição que derrubou o governo de Sánchez de Losada, seu sucessor, Mesa, lançou um pacote de medidas ditadas pelo FMI para minorar o déficit fiscal e defender o negócio fundamental do grande capital imperialista: a extração e exportação de seus recursos naturais do subsolo (gás e petróleo). O governo acreditou que tinha base para lançar o pacote. Mas, nos principais centros urbanos do país, começou uma onda de mobilizações e assembléias populares. Junto à reivindicação de anulação do aumento dos combustíveis para consumo, tornou a aparecer a luta pela nacionalização dos recursos petrolíferos e de gás. A luta boliviana repõe a perspectiva de uma luta de massas pela derrubada de um governo capitalista.

Na Argentina, por sua vez, sobrevive a crise gerada pela falência e a mobilização popular de dezembro de 2001, agora com projeção internacional devido a negociação que resultou no desconto dos títulos da dívida Argentina, o que acrescenta um novo fator de crise ao sistema financeiro internacional.

No Brasil, a cartilha neoliberal segue sendo aplicada. O governo Lula segue impondo uma política global de destruição tanto de direitos sociais quanto de organizações sociais, contraditoriamente ao imaginário político da maioria da sociedade. Incapaz de aceitar a divergência e a crítica, o governo Lula vem tentando quebrar a unidade dos movimentos sociais, seja pela incorporação de parcelas de suas direções ao campo governamental, transformando-os em burocratas estatais, seja pelo endurecimento e não-negociação real com os movimentos de resistência.

Ao mesmo tempo, porém, usou e abusou dos meios de comunicação para aparecer como um governo ligado ao social. Daí a tentativa de trazer para o seu lado as direções dos movimentos sociais. Em suma, linha dura no campo das reivindicações e absorção de direções no plano político. Trata-se de transformar uma antiga militância social em militância da nova ordem. É nesse quadro que se dá, por exemplo, o ataque ao ANDES através da criação de “entidades” paralelas ao Sindicato, que não foram eleitas por ninguém, mas são usadas conscientemente para realizar o trabalho de destruição do sindicalismo classista.

Beneficiado por um surto de crescimento econômico mundial superior a 5% nos países centrais e, ainda, pelo crescimento econômico da China, o Brasil teve uma taxa de crescimento da ordem de 5% do PIB. O problema é que, ao mesmo tempo, a expansão se deu para fora e de modo excludente, por meio de exportações de produtos primários e de mercadorias com baixo valor agregado. O Brasil se converteu na periferia da periferia (condição comprovada pelo fornecimento de matérias-primas à China), o que repercute diretamente no nulo prestígio que as universidades públicas possuem nas políticas do Estado brasileiro.

Esse padrão capitalista dependente não foi capaz de reverter o baixo consumo interno de produtos de valor agregado e nem a queda na renda do trabalhador. O aumento das exportações que está na base desse crescimento tão comemorado pelo governo e pela imprensa foi uma decorrência do elevado endividamento e da extrema vulnerabilidade externa da economia brasileira. De fato, em 1998, a dívida externa total atingiu um montante equivalente a 4,4 vezes o valor das exportações anuais, colocando em risco a capacidade do país de manter os elevados pagamentos do tributo neocolonial da dívida.

A partir desse quadro adverso para o capital financeiro, Lula da Silva deu seqüência ao procedimento adotado por Fernando Henrique Cardoso e empreendeu medidas para beneficiar o setor exportador. Em 2004, o saldo comercial foi de US$ 32 bilhões positivos. A contrapartida dessas medidas foi a redução dos investimentos e do consumo das famílias. A necessidade de exportar mais exigiu a redução do consumo das famílias, o que se deu pelo congelamento salarial, aumento dos impostos e contribuições diretas e indiretas, elevada taxa de juros e aumento do desemprego, causa da perda do poder aquisitivo da população e da diminuição do mercado interno.

Para reduzir os gastos sociais e deprimir o poder aquisitivo da população, o governo de Fernando Henrique Cardoso fez aprovar a EC 20, que acabou com a universalização do direito dos trabalhadores urbanos e rurais ao salário-família, que passou, então, a beneficiar apenas o trabalhador de renda mais baixa: o caminho para as políticas focalizadas foi aberto. A seguir, Lula da Silva fez aprovar a EC 41, que estabeleceu a tributação dos aposentados e limitou as fontes de financiamento da aposentadoria dos servidores às contribuições dos próprios servidores e do ente público empregador, estabelecendo fundos de pensão e impondo o regime de capitalização.

O capital, por sua vez, foi sendo liberado de tributos. A EC-33 (dezembro 2001) determinou que as receitas decorrentes de exportação ficariam isentas de contribuições sociais, dentre as quais a COFINS (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social). Lula da Silva, por sua vez, isentou os empresários do IR sobre recursos gastos na promoção de seus produtos no exterior, e os titulares de dívida externa foram gratificados com a redução do imposto de renda na remessa de juros ao exterior, nos casos de repactuação das dívidas (Lei 10.925, agosto de 2004).

O resultado dessas políticas voltadas para a exportação é devastador para os trabalhadores: a renda média real disponível dos brasileiros teve queda de 45% entre 1997 e 2003. Essa política, deliberadamente encaminhada por Lula da Silva, vem gerando uma extraordinária reconcentração da renda nacional dos setores financeiros, do agronegócio e de exportação de mercadorias. Nesse sentido, a Lei de Falências e a aprovação das PPP oferecem novos marcos jurídicos que darão um novo fôlego à concentração da renda. Assim, os investidores poderão espalhar seu campo de negócios sem correr nenhum risco: o retorno é garantido por tarifas pagas pelos cidadãos e os investimentos serão feitos, basicamente, com recursos públicos. Com isso, o endividamento público crescerá, exigindo mais exportações e cortes nos gastos sociais. O ciclo vicioso volta a girar em detrimento dos direitos sociais fundamentais.

Em 2003 e 2004, os encargos da dívida exigiram mais de 60% do orçamento total. Em 2005, os encargos financeiros sobre a dívida poderão chegar a 70% do orçamento total. As receitas primárias – impostos e contribuições – cobrem apenas 30% do gasto orçamentário. O superávit primário, apesar de chegar a 5% do PIB, cobrirá apenas a metade do pagamento dos juros devidos. Em suma, também no governo de Lula da Silva, o Estado foi capturado pelas altas finanças internacionais. O representante do setor financeiro certamente não irá reduzir a taxa Selic. O balanço apresentado pelos bancos e os melhores resultados da história do setor bancário brasileiro são as provas de que as opções políticas foram feitas.

Tem vindo a público, por meio da imprensa, que os militares estão colocando fogo em documentos importantes sobre a ação das Forças Armadas nesse período cruel de nossa história, que foi a ditadura militar. O fato aconteceu logo após a decisão do governo de tornar pública apenas parte dos arquivos relativos à ação das forças da repressão e da polícia política durante o período da ditadura militar. A forma como o governo Lula tem tratado essa questão demonstra que a concordância com a intervenção belicista (e imperialista) dos EUA no mundo faz parte da política interna e externa do governo brasileiro, ainda mais se levarmos em consideração o desrespeito e total descaso deste governo com o pagamento das pensões e indenizações às famílias dos desaparecidos, que sofreram torturas nas mãos dos governos militares.

A unidade das classes dominantes com o governo Lula em torno dos aspectos fundamentais da política econômica e dos projetos estratégicos dentro da lógica neoliberal novamente ficaram evidentes em três projetos tidos como indispensáveis para o FMI, a saber, a lei de falências, as PPP e a lei de inovação tecnológica que foram aprovados recentemente. Reservas de petróleo, biodiversidade, água, energia seguiram como mercadorias abertas às nações (e corporações) amigas. Ao mesmo tempo, projetos considerados indispensáveis para a mercantilização da educação foram aprovados sem dificuldades no parlamento, como o Sinaes e o Prouni, ambos tornados realidade a partir de medidas provisórias.

A ação da maioria da direção da CUT contribuiu decisivamente para esse avanço dos interesses imperialistas e de seus operadores no espaço nacional. Com os fundos de pensão, setores sindicais importantes acreditam que podem ser sócios da nova ordem econômica. A burocratização crescente e paulatina da CUT está erodindo os espaços de resistência e de crítica dentro da Central. O pensamento único neoliberal passou a ser um dogma inquestionável, a ponto de o presidente da central afirmar em artigo na imprensa que o ano de 2004 foi de vitórias para os trabalhadores visto que o salário-mínimo passou a R$ 300,00 (ao custo total de menos de 3% do orçamento) e a tabela do IR foi corrigida em 7,5% (apesar de defasada em mais de 45%!).

Um debate intenso ocorreu ao longo dos anos de 2003 e 2004 sobre a natureza e o caráter do governo Lula, motivando tendências de esquerda de dentro e de fora do PT a promover calorosas discussões. Os servidores públicos federais, a partir da CNESF, lograram uma importante ação unitária contra a reforma da Previdência e promoveram maciça manifestação contra esta, o que foi incapaz de reverter a derrota. Mas ficou firmado a possibilidade de ações de resistência às políticas de Lula da Silva. À essa resistência, o governo reagiu com métodos tipicamente autoritários como a repressão policial, a retirada de direitos, as tentativas sistemáticas de desmontar a CNESF e a expulsão dos parlamentares que votaram ao lado do movimento e contra a reforma previdenciária no setor público -- Heloísa Helena, Luciana Genro, Baba e João Fontes.

Agora, para avançar em novas medidas e reformas neoliberais, é preciso, para o capital e o governo, capturar as bandeiras e as propostas das classes trabalhadoras e transformá-las no seu oposto mantendo, porém, a aparência anterior. Quando se fala em ProUNI, do ponto de vista governamental, temos não o fortalecimento de uma fatia do empresariado universitário, mas supostamente uma manifestação de democratização do saber. A destruição, progressiva e por etapas, da seguridade social nunca é apresentada como forma de criar as condições para os fundos de pensão, mas como combate aos privilégios de uma minoria em detrimento do social. Esse processo de apropriação/desnaturação das bandeiras sociais é fundamental para o capital e seus aliados.

Em 2004, a contra-reforma da educação superior ganhou centralidade na agenda governamental. Após inúmeras ações pontuais, lideradas por tendências estudantis, DCEs, Executivas de Cursos, os protagonistas que estavam nessa luta lograram construir uma plenária unitária para organizar a luta contra essa reforma, reunindo o ANDES e setores da FASUBRA, militantes dos CAs, DCEs e Executivas de cursos, grupamentos da esquerda petista, o PSTU e o PSOL. Essa unidade de ação dos que estão na luta convergiu para a preparação da Marcha do dia 25 de novembro. A iniciativa de maior amplitude contra as políticas de Lula, incluiu os setores estudantil e sindical da esquerda do PT, PSTU, PSOL e independentes insatisfeitos com os rumos do governo, que organizaram caravanas partindo de todas as regiões, totalizando cerca de 20 mil manifestantes. A greve nacional dos bancários, que há quase uma década não realizavam um movimento tão forte e tiveram que se enfrentar com a maioria das direções dos sindicatos da categoria, da CNB e da própria CUT, além dos banqueiros e do governo, foi outra expressão de que os trabalhadores não estão dispostos a baixar a cabeça para o impotente discurso da “correlação de forças”.

Neste ano, a realidade da política imposta pelo governo não mudou, se aprofundou. O corte de R$ 15,9 bilhões do orçamento (das áreas sociais) para garantir o superávit primário acordado com o FMI foi o maior da história do país. Em Felisburgo, Minas Gerais, cinco trabalhadores sem terra foram chacinados. Depois, mais três companheiros sem-terra foram chacinados em Passira (PE). A crônica do massacre anunciado seguiu com o assassinato da missionária Dorothy Stang e de outros três trabalhadores no Pará. Na mesma semana, um verdadeiro massacre promovido pela PM de Goiás, no loteamento Sonho Real, resultou na morte de dois trabalhadores e no desaparecimento de 32 outras pessoas e na destruição de centenas de moradias populares a partir de uma operação de guerra que nos faz lembrar as incursões do exército israelense sobre os bairros palestinos nos territórios ocupados. Depois do massacre contra os sem-teto de Goiânia, ainda teve o cruel assassinato do ambientalista Dionísio Júlio Ribeiro no Rio de Janeiro.

A continuação dessa situação deixa nosso povo indignado e vai no sentido de tudo o que representou a luta dos trabalhadores que, finalmente, levou Lula ao governo em 2002. Ninguém votou para que continuasse a negação da terra aos que nela trabalham, ninguém votou para que trabalhadores sem-terra, sem-teto, militantes e dirigentes da luta pela terra e ambientalistas continuassem sendo assassinados. Pelo contrário, o voto e a luta dos trabalhadores foi para que, finalmente, se fizesse a reforma agrária e se detivesse a sanha assassina do latifúndio. Por exemplo, a proposta de reforma agrária para um milhão de famílias, começando pelas 240 mil famílias acampadas, proposto no início do governo por Plínio de Arruda Sampaio, nunca saiu do papel.

Não é possível aceitar que o Orçamento da República continue sendo comido pelo superávit fiscal primário de quase R$ 80 bilhões ao invés de ir para a reforma agrária, o salário mínimo, emprego, educação, saúde e serviços públicos. Não é possível aceitar, também, que o governo Lula siga aplicando a política do FMI no campo, enquanto os sem-terra e trabalhadores urbanos seguem sendo mortos.

A derrota do governo na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados só aprofunda a necessidade de que os trabalhadores se mobilizem para combater o toma-lá-dá-cá do Congresso-Governo. Ao eleger Severino, representante das oligarquias mais atrasadas e reacionárias do Nordeste, os deputados querem na verdade aumentar o poder de barganha para pressionar pelo aumento de seus já vergonhosos salários, negociar emendas para seus currais eleitorais, e espaço na reforma ministerial que está sendo iniciada por Lula para aconchegar o PP de Maluf, Roseana Sarney, minar a “oposição” peemedebista e aprofundar o controle sobre o PTB do collorido Roberto Jefferson e seus aliados. A lógica do governo e do PT de estabelecer a barganha e o toma-lá-dá-cá para ampliar sua base de sustentação e arco de alianças é que resulta em fenômenos como a eleição de Severino. São os novos aliados do PT, controlando agora a presidência da Câmara, o que não deveria soar assim tão estranho para o governo, pois os precedentes não eram menores, como a aliança eleitoral Marta-Maluf no 2º turno das eleições municipais de SP, que já sinalizam uma ampliação ainda mais à direita do arco de alianças para dar sustentação ao governo nos próximos dois anos de mandato.

E a maioria da direção da CUT segue aprofundando um curso que leva à morte do projeto que deu origem à fundação da Central: a independência de classe, a luta pelo socialismo, a auto-organização dos trabalhadores dão lugar ao “sindicalismo propositivo” cada vez mais descarado. Chegando às raias da organização de um ato de 1º de maio bancado pelos maiores empresários e exploradores do país, como no ano passado e na proposta de “pacto social” bradada na imprensa por Marinho.

A proposta de “reforma” sindical apresentada pelo governo Lula e apoiada pela maioria da direção da CUT e pela Força Sindical, é um profundo ataques à liberdade e autonomia sindicais, restringe a democracia nas instâncias de base e a independência de organização de base, limita o direito de greve, aumenta o poder intervencionista do estado e do empresariado sobre a estrutura sindical, aumenta o poder das cúpulas sindicais e, limita e divide a capacidade de resistência dos trabalhadores com um modelo de cima para baixo, prepara as condições para o estágio seguinte, que seria a reforma sobre a legislação trabalhista, verdadeiro objetivo do grande capital.

Dessa forma, a Articulação Sindical coloca a CUT do outro lado da trincheira dos trabalhadores. Não por acaso, a CUT passa a ser vista por milhares de trabalhadores como um representante ativo da política do governo Lula. A CUT vem sendo hoje o pilar de sustentação da destruição da liberdade e autonomia sindicais, ainda que proclame alto e bom som estar patrocinando uma lei de liberdade sindical. Não encarar isso de frente é que fará com que percamos de uma vez por todas esse instrumento construído nos últimos 22 anos sobre o sangue de centenas de companheiros, como Santo Dias e Margarida Alves, que entregaram suas vidas no enfrentamento capital-trabalho, que agora a Articulação Sindical pretende transformar em “consensos”.

Não é de agora que a maioria da direção da Central vem fazendo esforços para destruir o caráter de luta e independência da CUT: a capitulação na reforma da Previdência do governo FHC (emenda 20), as relações comprometedoras entre Estado e Central através dos convênios em torno do FAT, a tentativa de pactos sociais com o governo Collor e as seguidas mudanças estatutárias para reduzir a democracia interna e restringir a participação dos trabalhadores nos seus congressos, já foram manifestações para lá de preocupantes dos rumos que começavam a imperar na CUT. Mas a atitude diante das reformas propostas pelo governo Lula (apoiadas pelo mercado financeiro e o grande capital) já se constituem em traições abertas aos interesses, reivindicações e direitos históricos dos trabalhadores. A defesa da CUT que fecha os olhos a essa realidade ajuda a enterrar o projeto cutista firmado nos estatutos da Central em 1983. A política da Articulação Sindical e dos seus aliados incondicionais, é a verdadeira responsável pela divisão, fragmentação e dispersão que pode ocorrer no campo do sindicalismo combativo, no campo dos mais de 3 mil sindicatos filiados a CUT, produto do esforço de milhões de trabalhadores durante duas décadas de lutas e organização. Esta situação é de inteira responsabilidade da direção majoritária da Central.

Unidade para lutar contra as reformas neoliberais do governo e os ataques do capital

Esta situação dramática exige que os setores combativos, que os milhares de sindicatos e sindicalistas que honram a trajetória de luta e a história da Central façam o debate e a mobilização no movimento, aberta e pública, buscando a unidade para lutar contra a política do governo e contra a política da direção majoritária da CUT. A divisão que hoje se expressa na direção de nossa Central é a demonstração de que é necessário e urgente combater o projeto da Articulação Sindical para recolocar a CUT na trincheira das lutas dos trabalhadores brasileiros. As tarefas estão colocadas. Não há lugar para a indecisão e postergação. Historicamente, o movimento sindical tem enfrentado os desafios com coragem e objetividade, defendendo os seus direitos históricos e imediatos. Continuar essa luta e nela fortalecer-se com o conjunto dos trabalhadores é o caminho necessário para as transformações históricas na atual conjuntura.

Por isso, a CUT tem que se retirar imediatamente do FNT, que agora discute as diretrizes da reforma trabalhista, e se colocar contra a reforma sindical que a antecede. A CUT tem que trabalhar intensamente no sentido de desvelar as armadilhas dessas políticas; demonstrar que as “reformas” sindicais e trabalhistas produzem ainda mais dependência, falta de estabilidade, precarização do trabalho. Da mesma forma, deveria ser tarefa da CUT explicar para os trabalhadores o verdadeiro sentido da “reforma” universitária promovida por Lula como sendo o privilégio e a liberdade para que o capital se apodere, como está fazendo com a seguridade, desse campo rentável para a acumulação que é a educação.

Ao contrário disso, de forma arrogante, prepotente e desrespeitando as decisões de todas as entidades nacionais da educação, Andes, CNTE, Contee, Fasubra e Sinasefe além da própria executiva da CUT, que também já se posicionou contrária ao PROUNI, o Presidente da Central, em artigo da Folha de São Paulo de 28/2/2005, defende o projeto do governo de forma apaixonada, levando confusão aos trabalhadores e favorecendo o ensino privado e mostrando total desconhecimento sobre a matéria.

A disposição de ajudar o governo é tamanha que nem a própria executiva da CUT é respeitada. A luta pelo salário mínimo do DIEESE, bandeira histórica da CUT, não pode ser abandonada em troca de um “pacto” que só garante a lucratividade dos patrões e o pagamento das dívidas públicas. Por isso, a CUT deve levantar as bandeiras históricas (e também necessárias e absolutamente atuais) da ruptura com o FMI e o pagamento da dívida externa. Mas isso não será possível se a CUT aceitar o papel de ser co-administradora de fundos de pensão e do dinheiro do FAT.

A Central não pode continuar a ser escudeira do governo na aplicação do projeto neoliberal, com a aceitação da política para o salário mínimo, da lei de falências, do engodo de reforma agrária anunciada por esse governo. A unidade da luta é, em primeiro lugar, para derrotar a política do governo; para rechaçar a reforma sindical e trabalhista, para defender os direitos e reivindicações contra qualquer política de pacto ou flexibilização; para ter uma verdadeira reforma agrária; para que a ruptura com o FMI e o não pagamento da dívida externa voltem a ser parte das bandeiras históricas do melhor do sindicalismo brasileiro. A tarefa urgente é de derrotar a política de arrocho e desemprego aplicada pelo governo Lula.

Isso exige a mobilização de milhões de trabalhadores, exige a unidade com os movimentos populares e estudantis, implica que o movimento sindical combativo precisa assumir a sua tarefa de ser vanguarda nesse processo. É também uma tarefa urgente desenvolver uma ampla campanha de massas pelo fim da impunidade, contra os assassinatos de trabalhadores e dirigentes do movimento popular. É preciso ir até o fim na investigação e punição de todos os mandantes dos assassinatos no Pará. E parte da luta pelo fim de toda impunidade no Brasil é a reivindicação de imediata abertura de todos os arquivos da ditadura militar, bandeira que deve ser assumida pela CUT. Também se faz necessário desenvolver uma ampla campanha de solidariedade aos sem-teto de Goiânia, exigindo a desapropriação do terreno em favor das 4 mil famílias de sem-teto, além da investigação e apuração independente e rigorosa capaz de resultar na punição dos assassinos dos sem-teto.

A CUT precisa ter uma posição firme pela volta imediata das tropas brasileiras no Haiti, pelo fim da ocupação militar no Iraque; além de uma clara defesa e solidariedade ao povo venezuelano e sua luta. Acreditamos que a base dos 3 mil sindicatos filiados a CUT e o conjunto do movimento sindical combativo, estão chamados a estes desafios, em um momento tão grave da nossa história.

*Agnaldo Fernandes, membro da Exec. Nacional da CUT e da Direção Nacional Provisória do PSOL

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