Maioria do PT defende a ortodoxia
Tatiana Merlino
Brasil de Fato - 20/04

Quem ainda apostava numa possível mudança na ortodoxia econômica do governo Luiz Inácio Lula da Silva pode perder as esperanças. Durante seu encontro nacional, dias 9 e 10, no Rio de Janeiro, o chamado "Campo Majoritário" do Partido dos Trabalhadores lançou o documento "Bases de um projeto para o Brasil", que defende veementemente a política econômica do governo.

No seu projeto, o Campo Majoritário, integrado, entre outros, pelos ministros Antonio Palocci, da Fazenda, José Dirceu, da Casa Civil, Luiz Gushiken, da Comunicação e Gestão Estratégica, e José Genoíno, presidente do PT, considera que as metas de ajuste fiscal nas contas públicas, o superavit primário e o controle da inflação perseguidos pelo governo não são incompatíveis com o programa do PT e com os seus objetivos históricos de aumentar a oferta de emprego e a distribuição de renda.

"Isso nada mais é do que a assimilação do paloccismo", afirma o deputado federal Ivan Valente (PT/SP), referindo-se à política econômica do ministro Antonio Palocci. Para ele, o documento representa "a maior traição dos últimos 25 anos". Segundo Valente, dentro do governo não há interesse em enfrentar o capital financeiro, por falta de coragem. Então, "defende-se o equilíbrio fiscal para justificar a política econômica. Assim, estão transformando vício em virtude", avalia.

Defesa dos juros

O ministro José Dirceu, antes crítico da política de juros, por exemplo, foi um dos maiores defensores da política econômica. "Ela está voltada para os problemas reais do país, como a busca de estabilidade e o controle da inflação. O PT tem consciência disso e não somente apóia, como reivindica para si a responsabilidade pela política econômica", afirmou.

Com mais de 60% das 83 cadeiras da direção petista, o campo majoritário argumenta que as mudanças fazem parte de um processo. "A redução da taxa de juros é essencial, porém, é um processo a ser pacientemente construído, combinado com equilíbrio fiscal, reformas e investimento público eficiente", afirma o documento.

Para Jorge Luis Martins, o Jorginho da executiva nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e dissidente do PT, o documento representa uma "debandada de qualquer visibilidade de ruptura com a lógica monetarista do governo".

Segundo Jorginho, aqueles que tinham alguma esperança na mudança da política econômica do governo podem desistir. "Quem tinha ilusões, que vá procurá-las em outro lugar", afirma. Ele lembra que ficou claro "que o governo jogou a toalha. Isso é muito triste do ponto de vista histórico".

O encontro também decidiu apoiar a reeleição de José Genoíno para a presidência do partido nas eleições de setembro, e serviu para armar politicamente os dirigentes da maioria petista para o encontro nacional do PT, em dezembro.

Reações

A esquerda do PT reagiu ao documento, e defende a criação de uma frente única de oposição interna, elaboração de um programa comum e uma chapa para o diretório nacional. Também discute a possibilidade de o ex-deputado Plinio Arruda Sampaio ser o seu candidato contra José Genoino na eleição para renovar a direção nacional. Sampaio aceita, desde que haja consenso na esquerda.

Para o deputado Ivan Valente, é importante que o candidato de oposição seja um nome que "represente resistência, polarize a militância e tenha visibilidade". Ele ressalta, ainda, que esse debate não é apenas interno. "Ele diz respeito a toda sociedade, que precisa discutir essa política nefasta".

O deputado petista defende o nome de Sampaio para representar o bloco de esquerda por ser uma das referências históricas do PT. Jorginho concorda, mas acredita que, para alguns setores da esquerda, o ex-deputado é muito radical. "Ele não é uma pessoa de ficar no meio do caminho".

O dirigente da CUT acredita que a esquerda do PT deveria fazer oposição renunciando aos cargos que ocupa, e criando uma chapa de oposição real, com autonomia para fazer duras críticas ao governo. "Senão, ficamos apenas na argumentação". Segundo ele, a esquerda corre o perigo de ficar na ilusão, achando que pode fazer algo para salvar esse governo, um dos maiores vexames da história dos trabalhadores. "O PT aderiu às políticas neoliberais".

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