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| Eleições internas do PT põem em xeque relação partido/governo |
| Bia Barbosa e Marco Aurélio Weissheimer |
| Agência Carta Maior - 25/04 |
| O PT vive este ano um processo de renovação de suas direções partidárias em todos os níveis. A disputa interna adquire maior relevância na medida em que o partido atravessa um período de turbulência em função da nova conjuntura em que está inserido, a saber, pela primeira vez em sua história está na presidência da República. A disputa promete ser intensa. Três candidaturas já foram lançadas: a do atual presidente, José Genoino, pelo chamado campo majoritário, que dirige hoje o PT; a da deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), pelo Movimento PT; e a do deputado estadual e ex-prefeito de Porto Alegre, Raul Pont (PT-RS), pela Democracia Socialista. Outra candidatura que deve ser oficializada é do atual 3° vice-presidente nacional do PT, Valter Pomar, pela Articulação de Esquerda. Além destas, há a possibilidade ainda de uma outra candidatura, a de Plínio de Arruda Sampaio, um nome que seria lançado por setores dissidentes da esquerda petista. As tendências da esquerda petista buscam construir uma candidatura única, que aumente suas chances na disputa com o campo majoritário, mas até agora essa unidade ainda é um projeto. As duas maiores tendências deste setor, a Democracia Socialista (DS) e a Articulação de Esquerda (AE), tem nomes fortes para a disputa interna, Pont e Pomar, e há resistências mútuas para que um deles apóie a candidatura do outro. Já o nome de Plínio de Arruda Sampaio dificilmente terá o apoio da DS e da AE. Uma das razões apontadas para justificar essa dificuldade foi a decisão de Plínio optar pelo voto nulo na disputa entre Marta e Serra na eleição para a prefeitura de São Paulo. Mas todos esses setores pretendem estar juntos no segundo turno, caso houver, na disputa contra Genoino. “Poderemos até marchar separados, mas vamos golpear juntos”, costuma dizer Valter Pomar, dirigente nacional da Articulação de Esquerda. Debate promete ser duro O alvo dos golpes, no caso, é a atual direção do PT, criticada por ter transformado o partido em uma mera correia de transmissão do Palácio do Planalto, pelo afastamento em relação aos movimentos sociais e à militância de base e também pela diminuição dos espaços de debate interno. Genoino, que concorre à reeleição, rejeita essas críticas dizendo que o partido vive um período de transição e que precisa “assumir uma cultura de governo, uma responsabilidade de governo e um programa de governo”. “É preciso ter consciência de que a natureza da cultura, da responsabilidade e das ações de um partido de oposição são diferentes da natureza da cultura, da responsabilidade e das ações de um partido de governo”, escreveu Genoino em um artigo intitulado “As eleições diretas do PT”. Entre as mudanças defendidas por Genoino está a assimilação, pelo atual programa do PT, dos princípios orientadores da política econômica do governo Lula. O atual presidente do PT acha natural e saudável a existência de várias candidaturas nas eleições que serão realizadas em setembro, das quais cerca de 800 mil filiados poderão participar. “Não seria nem conveniente nem desejável para o debate, para a energia e para a força do PT que suas eleições diretas internas se reduzissem à configuração de uma única chapa e de um único candidato a presidente”, diz Genoino no artigo citado. E esse desejo será cumprido, prometendo um debate duro sobre os atuais rumos do partido. Raul Pont já indicou qual será o tom deste debate. Defendendo a necessidade de renovação partidária, Pont prega uma maior independência do partido em relação ao governo. Na avaliação do ex-prefeito da capital gaúcha, José Genoino tornou-se uma espécie de embaixador do governo Lula dentro do partido. Como conseqüência disso, o partido estaria sem autonomia para criticar e propor mudanças de rumo ao governo. A agenda da Carta aos Petistas No lançamento oficial de sua candidatura, durante encontro nacional da DS, sábado, em São Paulo, Raul Pont destacou que a idéia central da esquerda partidária (mais especificamente dos setores organizados em torno da DS e da AE) é fazer o debate interno em torno das propostas apresentadas na Carta aos Petistas, lançada durante o Fórum Social Mundial 2005, em Porto Alegre. A carta foi assinada por 13 correntes petistas e centenas de dirigentes do partido, numa tentativa de unificar os setores descontentes com os rumos do PT. “Foram essas correntes que indicaram o meu nome e também o de Valter Pomar. Agora temos um mês para aprofundar o debate e estabelecer uma candidatura única dessas forças”, observou Pont. E garantiu que não será feita uma política de alianças com ultimatos, respondendo a uma pergunta de um jornalista sobre a dependência da unidade da esquerda a um consenso em torno do seu nome. Pont descartou essa hipótese. “Precisamos ir desarmados para esses encontros, não impondo nomes. A nossa candidatura tem um trânsito junto às outras correntes, um reconhecimento no Executivo e um acúmulo de experiência no Legislativo e no Executivo no Rio Grande do Sul. É um acúmulo para justificar esse nome. Confiamos que, até o dia 18, vamos chegar a essa unidade”, acrescentou. DS e AE, as duas maiores tendências da esquerda do PT, apostam que um debate amplo em torno da agenda da Carta aos Petistas pode levar a essa unidade. Raul Pont disse que a carta não foi feita somente para o Processo de Eleições Diretas (PED), mas é com ela que a esquerda está trabalhando. “De qualquer forma, se não chegarmos a uma candidatura única, as correntes estarão representadas na direção por conta da proporcionalidade”, acrescentou. O critério de proporcionalidade garante assento na direção nacional de acordo com a votação de cada candidatura. Aposta em um segundo turno Raul Pont repetiu um argumento que vem sendo empregado também por Valter Pomar sobre a possibilidade dos setores de esquerda conseguirem levar a disputa para o segundo turno. “A probabilidade de um segundo turno, mesmo sem um candidato único da esquerda, é real, existe”, disse Pont. “Em 2001, José Dirceu (que venceu as eleições naquele ano) teve 55% dos votos e a soma dos minoritários chegou a 45%. No Diretório Nacional, foi 50% a 50%. Então não é nenhuma surpresa a existência de um segundo turno ou até dessas minorias comporem uma maioria. Se a unidade não for possível até o dia 18 (prazo para a inscrição de chapas), a proporcionalidade dará conta disso. Mas duas ou três candidaturas tiram força na disputa”, admitiu. No dia 9 de maio, será realizada uma plenária da esquerda partidária, quando deve ser decidido se AE e DS terão um candidato único ou lançarão Pont e Pomar. Raul Pont definiu do seguinte modo a agenda destes setores para o PED: “Queremos levar o maior número de filiados à votação e à participação no debate sobre os rumos do governo. Nossa corrente tem uma relação crítica com o governo, reivindicamos uma maior autonomia do partido. Um governo de coalizão exige de um partido como o nosso uma maior autonomia, para que, com esse distanciamento, seja possível promover uma maior mudança de rumos e fazer com que o governo ouça mais o partido e que o partido esteja em maior sintonia com sua base e com os movimentos sociais”. Em relação ao governo Lula, a esquerda petista defende mudanças nos rumos da política econômica, especialmente em relação à política de juros. “A maioria esmagadora dos economistas do PT está contrária. É uma política que tem lado. Não é neutra. E carreia e transfere brutais recursos da sociedade para o setor financeiro”. Para Pont, “a equipe econômica já deveria ter sido mudada, para se ter condição de cumprir o programa do partido, para o bem da sociedade”. Ele também defendeu a substituição do presidente do BC, Henrique Meirelles. “Estamos vendo denúncias e acusações sobre questões que vão além da orientação do governo. São acusações com comprovações sólidas contra o presidente do Banco Central, que já deveria estar fora do governo. Nosso partido deveria ter um outro tratamento em relação a isso. Esse é um dos problemas da atual política de alianças”, emendou. O candidato da DS acredita que essa mudança de rumos é essencial para a reeleição de Lula em 2006. “Não acredito que a vitória de Lula venha da ampliação de alianças. Em momentos como a Reforma da Previdência, a Reforma Tributária e a eleição de Severino Cavalcanti, essa maioria já mostrou que não existe, e nos custa cargos, ministérios e nos traz desgastes”. Ao tomar conhecimento das declarações de Pont, José Genoino respondeu: “Vou debater as idéias de futuro. Não vou debater essa agenda do Raul. Ela é pequena, é pobre e rebaixa o debate”. Está aberta a temporada do PED. |
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