Abaixo da crítica
Tiago Soares
Planeta Porto Alegre - 29/03

No inicio de março, o presidente argentino, Néstor Kirchner, causou espanto mundo afora ao, sem meias-palavras, conclamar a seus compatriotas que boicotassem a Shell. A inusitada atitude, resultado de reajuste promovido pela transnacional no preço dos combustíveis, logo recebeu reforço argumentativo: a Shell, lembrou o presidente, é figura carimbada na lista das Dez Piores Corporações do Ano da revista Multinational Monitor.

Compilada desde o fim da década de 80 por Russell Mokhiber (editor do Corporate Crime Reporter, tradicional boletim semanal sobre o lado escuro do mundo corporativo) e Robert Weissman (editor do Multinational Monitor, bíblia do movimento pela responsabilidade corporativa), a lista das Dez Piores é um “quem é quem” do crime corporativo. A relação, que tem como regra nunca repetir as empresas citadas no ano anterior, é um desfile incessante de malfeitorias corporativas e absurdos administrativos.

O ranking citado por Kirchner, do qual a Shell faz parte, é o de 2002. Fosse a lista a de 2004, Kirchner poderia não encontrar novas malfeitorias da Shell, mas não ficaria de mãos abanando – entre as “eleitas”, estão velhas conhecidas, como Coca-Cola, GlaxoSmithKline, Dow Chemical e Wal-Mart. Eis a relação:

Abbott Laboratories -- O Abbott produz o Norvir, um importante medicamento utilizado no tratamento de portadores do HIV. Em 2004, numa decisão polêmica, o laboratório quintuplicou o preço da droga nos EUA. A decisão, insensata por qualquer ângulo, tem um porém – o aumento não é computado se o Norvir for comprado junto a outro medicamento produzido pelo Abbott. A companhia justifica a duvidosa manobra pela necessidade de cobrir supostos gastos com pesquisa. Detalhe: o desenvolvimento do medicamento foi bancado, em sua maior parte, por fundos governamentais.

AIG -- Negócios muito estranhos rondaram o American International Group Inc. em 2004. A companhia, maior seguradora do mundo, foi processada nos EUA por transações fraudulentas envolvendo outra empresa, a PNC Financial Services. A fraude, que, estima-se, chegaria a US$ 70 milhões, colocou a AIG na mira da justiça dos EUA, o que levou a companhia a acenar com um desembolso de US$ 126 milhões para que o caso fosse encerrado. Apesar dos indícios gritantes, é bem pouco provável que a financeira seja declarada culpada de qualquer crime. Acuado pelo mau-humor do mercado com o barulho em torno da seguradora, o processo envolvendo a companhia saiu da vista do público e, acredita-se, deve ser arquivado.

Coca-Cola -- Alvo preferencial de boicotes ao redor do mundo, símbolo número um da voracidade corporativa, mais uma vez a Coca-Cola é lembrada por outras coisas que não seus borbulhantes refrescos. A companhia é suspeita de colaborar com a intimidação, por esquadrões da morte, de funcionários de suas fábricas na Colômbia. Praticada por grupos paramilitares, os abusos -- que têm em sindicalistas alvos preferenciais -- estariam sendo promovidos, segundo levantamento de comissão norte-americana que investiga o caso, “com o conhecimento e, aparentemente, sob ordens dos diretores das subsidiárias (da Coca-Cola)”. Apesar de negar envolvimento nos incidentes, a companhia resiste, curiosamente, a apoiar qualquer investigação dentro das fábricas que mantém na Colômbia.

Dow Chemical -- A Dow é inventora do filme-plástico, aquela fina película plástica utilizada para embrulhar alimentos. É, também, responsável por coisas como o Napalm e o Agente Laranja, crimes químicos causadores de horrores durante a Guerra do Vietnã. Em 1999, a Dow tornou-se proprietária da Union Carbide, companhia responsável, em 1984, por vazamento de gás tóxico que resultou em oito mil vítimas fatais em Bhopal, na India. Estima-se que, hoje, 150.000 pessoas sofram de graves sequelas direta ou indiretamente ligadas ao desastre. Passados vinte anos da catástrofe, a Dow, apesar de dona da Union Carbide, finge que não é com ela, negando-se terminantemente a indenizar os atingidos.

GlaxoSmithKline -- A GlaxoSmithKline parece não ligar muito para os efeitos colaterais de seus produtos. A companhia, fabricante do anti-depressivo Paxil (no Brasil, Aropax), é acusada de omitir dados sobre o alto nível de dependência e o elevado indice de suicídios causados pelo “medicamento” em crianças e adolescentes. Tais informações – temerárias, para dizer o mínimo – teriam sido postas de lado na hora de incensar o produto junto à mídia e à comunidade médica. Em 2003, porém, evidências dos estragos causados pela droga levaram especialistas britânicos a recomendar a suspensão de sua prescrição no tratamento de jovens. Apesar da pilha de evidências surgidas desde então, a GlaxoSmithKline segue negando qualquer culpa.

Hardee's -- Rede de fast-food, a Hardee's parece ter estabelecido, nos EUA, um novo parâmetro no assalto à saúde da população. Ela é inventora do “Monster Thickburger”, um sanduíche com nada mais, nada menos, que acachapantes 1.420 calorias. O quitute, que, quando do lançamento, foi definido pela própria empresa um “monumento à decadência”, traz, embalado para viagem, cerca de 75% de TODAS as calorias necessárias ao longo de um dia – 100%, se acompanhada de fritas. Nada mal para um país onde a obesidade é problema de saúde pública.

Merck -- Os números do estrago causado pela Merck são grandes, muito grandes. Fabricante do remédio para artrite Vioxx, a companhia é acusada de esconder do público os graves efeitos colaterais causados pelo medicamento. Acredita-se que, mesmo ciente dos danos do Vioxx ao sistema cardiovascular de usuários desde 2000, a companhia teria feito corpo-mole na hora de tirá-lo do mercado (o medicamento só foi ser recolhido em 2004). Para se ter uma idéia, apenas nos EUA calcula-se entre 88.000 e 139.000 o número de vítimas de derrames ou ataques do coração causados pelo “remédio”. Destes, estimam-se em 40% as vítimas fatais – ou algo entre 35.000 e 55.000 mortos. A companhia, porém, nega que tenha facilitado a catástrofe.

McWane -- A McWane encontrou uma maneira peculiar de aumentar sua margem de lucros: cortar nos gastos com a segurança de seu empregados. Fabricante de sistemas hídricos, a empresa norte-americana tem um impressionante histórico de 4.600 acidentes de trabalho num corpo de 5.000 funcionários. Colocada contra a parede pela justiça dos EUA, a companhia foi multada. Apesar da gravidade das violações trabalhistas, o valor da punição acabou sendo tão baixo que, para a corporação, acabou como apenas uma despesa a mais em sua cadeia de produção.

Riggs Bank -- Pinochet não é apenas um brutal carniceiro. É, também, um gigantesco corrupto. Informações levantadas pelo Subcomitê de Investigação do Senado dos EUA revelam o auxílio, pelo Riggs Bank, na construção de um labirinto financeiro utilizado para esconder o dinheiro desviado pelo ex-ditador. O esquema, que, acredita-se, vem desde meados da década de 80, teria, entre 1994 e 2002, escoado entre US$ 4 milhões e US$ 8 milhões para contas controladas por Pinochet. Para o Riggs, o envolvimento com a ditadura chilena é coisa de rotina: o banco é, também, acusado de ajudar na lavagem do dinheiro de ditadores na África e Oriente Médio.

Wal-Mart -- Gigante do varejo global, o Wal-Mart corresponde, com seu faturamento, a cerca de 2% do PIB dos EUA. A mais festejada entre as corporações norte-americanas, eleita pela revista Fortune (a bíblia do mundo corporativo) a “Companhia Mais Admirada da América”, o Wal-Mart é ponta-de-lança de uma escola de administração que busca a maximização dos ganhos da empresa através do repasse de custos para funcionários e sociedade. A idéia, baseada numa matemática engenhosa -- e perversa -- é simples: jogar salários para baixo, deixando nas mãos do Estado (através de programas públicos de auxílio a famílias de baixa renda) parte dos gastos que caberiam ao empregador. O contribuinte banca os custos, mas o lucro fica com a corporação.

A lista com as Dez Piores Corporações de 2004 pode ser lida na íntegra (em inglês) no endereço http://multinationalmonitor.org/mm2004/122004/mokhiber.html

Publicado em www.planetaportoalegre.net

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