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| Aliadas, sim senhores!* |
| Nurit Peled-Elhanan |
| Planeta Porto Alegre - 29/03 |
| Nurit Peled não é somente israelense. É uma oposicionista israelense, cuja filha de 14 anos foi morta há alguns anos em um atentado suicida. Ela fundou a associação das famílias israelenses e palestinas vítimas da violência. Seus dois filhos são refuzeniques. Convidada em 8 de março passado a se pronunciar diante do Parlamento Europeu, por ocasião da Jornada das Mulheres, disse: "Obrigada por terem me convidado para esta jornada. E é uma grande honra e um prazer estar aqui, entre vocês. Entretando, devo dizer que vocês deveriam ter convidado uma mulher palestina em meu lugar, uma vez que as mulheres que sofrem mais violência dentro de meu país são as palestinas. Eu gostaria de dedicar meu discurso a Miriam R'aban e a seu marido Kamal, de Bet Lahiya, que fica dentro da Faixa de Gaza, e cujos cinco filhos pequenos foram mortos por dois soldados israelenses quando colhiam alguns morangos no campo de morangos da família. Eles jamais serão julgados por estes homicídios. Quando perguntei às pessoas que me convidaram porque não convidariam a mulher palestina, sua resposta foi de que isto tornaria a questão “muito localizada”. Eu não sei de violê ncia que não seja localizada. O racismo e a discriminação podem ser dois conceitos teóricos e dois fenômenos universais, mas seu impacto é sempre local, e bem real. A dor é local, a humilhação, os abusos sexuais, a tortura e a morte são todos muito locais, assim como as cicatrizes. É infelizmente verdade que a violência local, inflingida contra as mulheres palestinas pelo governo de Israel e pelas forças armadas israelenses, se estende por todo planeta. De fato, a violência de Estado e a violência militar, a violência individual e coletiva, são o quonhão das mulheres muçulmanas todos os dias, não somente na Palestina, mas por qualquer lugar onde o mundo ocidental tenha colocado seu grande pé imperialista. É uma violência quase nunca abordada e que a maioria das pessoas na Europa e nos Estados Unidos desculpa discretamente. É assim pois que o auto-proclamado mundo livre teme o útero mussulmano. A grande França da liberdade, igualdade e fraternidade, está assustada com algumas crianças pequenas com lenços na cabeça. O grande Israel judeu está com medo dos úteros muçulmanos que seus ministros qualificam de ameaças demográficas. A América toda-poderosa e a Grã-Bretanha contaminam seus cidadãos com um medo cego dos mussulmanos, que são descritos como vis, primitivos e sedentos de sangue, além de serem não-democraticos, machistas/chauvinistas e de produzirem futuros terroristas em massa. Isto, apesar do fato de que as pessoas que hoje destroem o mundo não são muçulmanas. Eu nunca passei pelo sofrimento que as mulheres palestinas vivem todos os dias, todas as hjoras. Eu não conheço o tipo de violência que faz da vida de uma mulher um inferno constante. Esta tortura física e mental cotidiana das mulheres que são privadas de seus direitos humanos fundamentais, de sua necessidade fundamental de uma vida privada e de dignidade, mulheres cujas casas são arrombadas a qualquer hora do dia ou da noite, e às quais se ordena sob ameaça de armas que se dispam na frente de estranhos e na frente de seus próprios filhos, cujas casas são destruídas, que são privadas de seus meios de existência e de qualquer vida familiar normal. Estas coisas não fazem parte de minhas experiências pessoais. Mas eu sou uma vítima da violência contra as mulheres na medida em que a violência contra as crianças é na verdade uma violência contra as mulheres. As palestinas, iraquianas, afegãs são minhas irmãs uma vez que nós somos todas presas no mesmo cerco dos criminosos sem escrúpulos designados como dirigentes do mundo livre e iluminado e que, em nome dessa liberdade e dessa luminosidade, nos roubam nossas crianças. As mães israelenses, americanas, italianas e britâncias tem sido, na maior parte, violentamente cegadas e enganadas a tal ponto que elas não conseguem dar-se conta de que suas únicas irmãs, suas únicas aliadas neste mundo são as mães muçulmanas palestinas, iraquianas ou afegãs cujos filhos foram mortos por nossos filhos ou se fizeram explodir em pedaços junto com nossas filhas e filhos. Elas são todas infectadas pelos mesmos virus fabricados pelos políticos. E os virus, ainda que pudessem ter diversos nomes ilustres como Democracia, Patriotismo, Deus, Patria, são todos os mesmos. Eles fazem parte de ideologias falsas e fabricadas, que só têm o objetivo de enriquecer os ricos e dar poder aos poderosos. Nós somos todas vítimas da violência mental, psicológica e cultural que faz de nós um só grupo homogênero de mães enlutadas ou potencialmente enlutadas. As mães ocidentais que aprenderam a crer que seus úteros são um trunfo nacional são como as que apreenderam a crer que os úteros mussulmanos são uma ameaça internacional. Foram educadas a não exclamar: “eu lhe dei o nascimento, eu lhe dei o peito, ele é meu e eu não permitirei que ele se torne aquele cuja vida vale menos que o petrólero, e cujo futuro vale menos que um pedaço de terra”. Cada uma entre nós está aterrorizada por uma educação que contamina o espírito para que nós acreditemos que tudo que podemos fazer é apenas rezas para que nossos filhos voltem pra casa ou sentir orgulho de seus corpos mortos. E somos todas levadas a suportar tudo isto em silêncio, para conter nossas crenças e nossas frustrações, para tomar prozac para a ansidade, mas jamais chamar a Mãe Coragem em publico. Jamais sermos as verdadeiras mães judias ou italianas ou irlandesas.Eu sou uma vítima da violência do Estado. Meus direitos naturais e civis como mãe foram violados e são violados porque eu tenho medo do dia em que meu filho chegará ao seu décimo oitavo aniversário e será levado de mim paa tornar-se um instrumento de um jogo criminoso promovido por Sharon, Bush, Blair e seu clã de generais sedentos de sangue, sedentos de petróleo, sedentos de terra. Vivendo no mundo em que eu vivo, no Estado em que eu vivo, no regime sob o qual eu vivo, eu não ouso oferecer às mulheres mussulmandas qualquer idéia que se tenha sobre a maneira de mudar suas vidas. Eu não quero que elas tirem seus lenços ou eduquem seus filhos de forma diferente, e eu não quero pressioná-las a constitutuir qualquer democracia à imagem das democracias ocidentais que enganam a elas e a pessoas como elas. Eu quero apenas pedir-lhes humildemente que sejam minhas irmãs, expressar minha admiração por sua perseverança e sua conragem de continuar, de ter filhos e de manter uma vida familiar plena de dignidade apesar das condições impossíveis sob as quais meu mundo às colocou. Eu quero dizer a elas que estamos todas ligadas pela mesma dor, nós somos todas vítimas dos mesmos tipos de violências, mesmo que elas sofram muito mais, já que são elas as maltratadas pelo meu governo e seus exércitos, com a ajuda de meus impostos. O Islam em si, como o judaísmo em si, e o cristianismo em si, não é uma ameaça para mim ou quem quer que seja. É o imperialismo americano, é a indiferença e a cooperação européia, é o regime israelense racista e cruel de ocupação que são a ameaça. É o racismo, da propaganda dentro da educação e a xenofobia unculcada que convencem os soldados israelenses a ordenarem que as mulheres palestinas, sob a ameaça de armas, se dispam na frente de seus filhos por razões de segurança, e é a falta do mais profundo respeito pelo outro que permite aos soldados americanos violentar as mulheres iraquianas, que dão licença aos israelenses de manter jovens mulheres em condições inumanas, sem a higiene necessária, sem eletricidade no inverno, sem água potavel ou limpa e separá-las de seus bebês e a estes de seus seios. Por interromper seu caminho aos hospitais, por bloquear seu acesso à educação, por confiscar suas terras, por arrancar suas árvores e impedí-las de cultivar seus campos. Eu não posso compreender completamente as mulheres palestinas ou seu sofrimento. Eu não se como teria sobrevivido a tamanha humilhação, a tal falta de respeito da parte do mundo inteiro. Tudo que eu sei é que a voz das mães tem sido sufocada durante um tempo longo demais neste planeta devastado pela guerra. O grito das mães não é ouvido porque as mães não estão sendo convidadas aos fóruns internacionais como este. Aquilo que eu sei é muito pouco. Mas basta então que eu lembre que estas mulheres são minhas irmãs e que elas merecem que eu grite por elas e me bata por elas. E quando elas perdem seus filhos nos campos de morangos ou nas rotas que passam perto dos check points , quando seus filhos são abatidos a caminho da escola por crianças israelenses que foram levadas a acreditar que praticar o amor e a compaixão depende da raça e da religião, a única coisa que eu posso fazer é ficar ao seu lado e daqueles seus bebês traídos e perguntar aquilo que Anna Akhmatova, uma outra mãe que viveu sob um regime de violência contra as mulheres e as crianças, havia perguntado: porque este fio de sangue rasgando a pétala da sua face?” Tradução: Rita Freire Publicado em www.planetaportoalegre.net * Nurit Peled-Elhanan durante a Jornada Internacional das Mulheres, Parlamento Europeu, Estrasburgo, 8 de Março de 2005. |
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