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| Democracia ameaçada |
| Léo Lince |
| PALAVRA CRUZADA - 07/04 |
| A página principal de “O Globo”, edição de domingo, dia 3, traz uma notícia aterrorizante. Nela se anuncia, a partir de um decreto do presidente Lula, a criação da BIL-GLO (Brigada de Infantaria Leve-Garantia da Lei e da Ordem), que recoloca o Exército brasileiro na perigosa tarefa da repressão interna aos movimentos sociais. Um espanto. Apesar de tantos retrocessos, este passou dos limites. Até o Genoíno, bedel do governo na presidência do PT, protestou. Disse, com razão, não ser este o papel das Forças Armadas. O comandante da nova força, um general chamado Burgos, não pensa da mesma forma. Ele definiu com precisão os objetivos e métodos que lhe animam o entusiasmo de infante. Disse, por exemplo, que “os movimentos sociais organizados hoje adotam certas posturas que vão contra a comunidade de uma maneira geral”. Anunciou que tem feito contatos com comandantes de operações contra civis que resultaram em chacinas, cita os de Eldorado dos Carajás e do Carandiru, para evitar os erros cometidos (os coturnos escorregavam nas escadas do presídio) e adequar equipamentos e uniformes. Sobre as bases teóricas e seus referenciais de segurança pública, fala da consulta de literaturas, “particularmente da Turquia, Nigéria, Coréia, Alemanha e Israel”. Mais claro, impossível. Talvez fosse o caso de recomendar ao general outras literaturas. Por exemplo: “Servidão e grandeza militares”, um clássico de Alfred de Vigny, editado no Brasil pela Garnier e pela Biblioteca do Exercito. Lá está dito que “ninguém mais que o soldado sofre com o papel de gendarme que lhes impõem os governos modernos”. E mais: “Ele sente que a pátria, que o amava por causa das glórias com que ele a coroava (o estoicismo e a abnegação da entrega da vida em defesa da soberania), começa a desdenhá-lo ou a odiá-lo por causa dos conflitos civis em que o empregam a golpear a própria mãe”. Frase forte, mas que ilustra bem a tese do autor, segundo a qual a escolha - herói ou gendarme - define a servidão ou a grandeza dos militares. Entre as tradições positivas do nosso exército, sem dúvida, está a recusa do papel de “capitão do mato”, bate-pau dos senhores de escravo. A “doutrina do inimigo interno”, que prevaleceu durante a ditadura e gerou siglas como OBAN, DOI-CODI (que soam parecidas com BIL-GLO), não figura entre as glórias das nossas forças armadas. Pelo contrário, dela resultou um rosário de sofrimentos escritos na “página infeliz da nossa história” recente à qual não devemos retornar. As primeiras manifestações críticas mostram que o decreto do Lula está na contramão dos anseios democráticos e republicanos. Desvirtua a Constituição, é um retrocesso político, afronta os direitos humanos, coloca em risco a democracia como livre manifestação dos conflitos sociais. Trata-se de uma grita que deve e precisa continuar e se engrossar. Pois a novidade, além de nefasta, pode ser incontrolável, criatura que costuma devorar o criador. Deslocado da função que lhe confere grandeza, o corpo do exército - é ainda Alfred de Vigny quem formula - “pergunta continuamente de si para si se é escravo ou rei do Estado”. Barbas de molho. Talvez fosse o caso de recomendar ao Lula uma visita ao passado, quando ele operava do outro lado. Na praça de São Bernardo, os metalúrgicos não se intimidaram diante da estética da força bruta da ditadura militar - tanques, helicópteros e gladiadores engalanados - e escreveram com seus corpos a palavra democracia. A plantinha tenra, sempre ameaçada. * Léo Lince é sociólogo |
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