Porto Alegre resistirá?
Marco Aurélio Weissheimer
Agência Carta Maior - 11/04

No decorrer dos últimos 16 anos, Porto Alegre transformou-se em uma referência obrigatória para a esquerda mundial. Capital do Fórum Social Mundial, a cidade viveu um ciclo de 16 anos de governos petistas (1988 – 2004) que, somados aos quatro anos do governo Olívio Dutra (1999 – 2002) em nível estadual, compuseram uma rica experiência do PT gaúcho, uma experiência que se defronta agora com um cenário de incertezas quanto à sua sobrevivência. No momento em que a direção nacional do PT prepara a incorporação programática dos princípios da política macroeconômica do governo Lula e consolida uma política de alianças pragmática, os símbolos e as práticas que construíram a “marca” Porto Alegre podem perder espaço. Orçamento Participativo, luta contra a liberação de transgênicos, reforma agrária, crítica ao pensamento único na política e na economia: essas foram algumas das bandeiras que fizeram de Porto Alegre a capital do FSM.

Além da guinada ao centro, vivida pelo PT em nível nacional, a seção gaúcha do partido (onde a esquerda é tradicionalmente mais forte) enfrenta uma realidade regional adversa. As derrotas eleitorais de 2002 (no governo estadual) e de 2004 (na prefeitura da capital) impuseram um novo quadro político no Estado. Os conceitos de democracia participativa, sistemas locais de produção e economia solidária, entre outros, começam a ser substituídos por práticas de gestão privada, incentivos fiscais a grandes empresas e subordinação da questão ambiental ao discurso do empreendedorismo. Pior ainda, o discurso e a prática do governador Germano Rigotto (PMDB) e do prefeito de Porto Alegre, José Fogaça (PPS), confundem-se muitas vezes com o que é feito em nível federal pelo governo Lula. De modo inteligente, em várias ocasiões, Rigotto responde a críticas da oposição petista dizendo que está adotando as mesmas linhas de gestão do governo federal.

Rigotto, vice de Lula?

Nas últimas semanas, cresceram os rumores sobre a possibilidade de Rigotto ser indicado como vice de Lula nas eleições de 2006. Quem conhece a política gaúcha sabe que, até bem pouco tempo, a mera consideração dessa possibilidade poderia valer a alguém uma vaga no hospício mais próximo. Hoje, embora poucos acreditem na sua concretização, ela já transita com mais naturalidade, sem riscos de internação psiquiátrica compulsória. Os líderes do campo majoritário que dirige o PT nunca morreram de amores pelas idéias da esquerda petista gaúcha, considerada por eles como demasiadamente radical. Essa distância, hoje, é ainda maior. O PT gaúcho é visto como uma incômoda pedra no sapato. Apesar de também ser afetada pelo pragmatismo que tomou conta do partido em nível nacional, a esquerda petista no RS, comparativamente, é um foco de resistência à idéia de “mudar sem mudar de lado”, como prega o presidente nacional do PT, José Genoino.

No encontro do campo majoritário, realizado no último final de semana no Rio de Janeiro, Genoino causou um certo espanto ao dizer que ele e seu grupo político é que representam hoje a esquerda do PT. O corolário imediato dessa afirmação é que um nome como Raul Pont estaria à direita de Genoino. Rigotto vice de Lula? Genoino à esquerda de Pont? A mera circulação dessas hipóteses já indica bem o atual estado de coisas da política nacional, marcado por um forte mecanismo que tenta, ao mesmo tempo, pasteurizar e embaralhar as diferenças ideológicas. É neste contexto que as forças políticas que participaram da construção do símbolo Porto Alegre tentam agora sobreviver, em condições extremamente adversas. As adversidades aparecem em todos os níveis: nacional, estadual, municipal e interno ao próprio partido. As disputas internas entre as principais tendências da esquerda gaúcha podem facilitar o trabalho do campo majoritário que quer derrotá-la.

As eternas disputas internas

Essas disputas têm uma longa história e, em diferentes momentos, causaram pesados prejuízos a governos do partido, como ocorreu, por exemplo, durante o governo Olívio Dutra, quando algumas correntes da esquerda partidária aliaram-se com forças do campo majoritário no exercício do famoso fogo amigo. Está em curso agora uma tentativa, em nível nacional, de superar as divergências e garantir, onde for possível, candidaturas unitárias para a disputa das eleições internas do PT, que ocorrem este ano. Os primeiros sinais indicam, no entanto, que, apesar de um diagnóstico comum sobre a gravidade do momento para a sobrevivência da esquerda petista, as divisões podem permanecer em uma intensidade maior do que a que seria desejável. As suas principais tendências atravessam um momento difícil, com divisões internas, e a tentação de recorrer à prática do patriotismo de tendência é muito forte. Assim, a necessidade estratégica da unidade fica subordinada aos problemas internos de cada grupo.

Como se não bastassem todos esses problemas, há ainda uma outra adversidade, não menos poderosa, que é a progressiva perda da disputa simbólica junto à sociedade, particularmente em Porto Alegre. As ambigüidades impostas por algumas escolhas estratégicas do governo Lula e do próprio PT, em nível nacional, deixaram os petistas gaúchos, em vários momentos, sem chão sólido para pisar. A mudança de discurso e prática em questões de política econômica, política ambiental e nos critérios adotados para firmar alianças com outros partidos políticos alimentam uma progressiva desconstituição simbólica junto a setores sociais que sempre estiveram com o partido no Estado. Há quem minimize esse processo de desconstituição, sustentando que ele se resume a uma pequena parcela da sociedade. Mas os recentes resultados eleitorais parecem apontar na direção contrária. A derrota em Porto Alegre é o indicador mais forte de que algo se rompeu.

O desafio da sobrevivência

Em resumo, a esquerda gaúcha, que não se resume ao PT mas é liderada por ele, já teve, ao mesmo tempo, a prefeitura da capital, o governo do Estado e o Fórum Social Mundial. Talvez essa força tenha levado a algumas lideranças do partido imaginar que, no terreno das disputas internas, tudo era possível e que nada iria acontecer de grave. O ex-prefeito da capital, Tarso Genro, chegou a renunciar à prefeitura para disputar uma prévia com o então governador Olívio Dutra. O desastroso resultado dessa operação é bem conhecido: Tarso derrotou Olívio, foi derrotado por Rigotto, e o vice João Verle, que assumiu a prefeitura, não conseguiu eleger seu sucessor. Para culminar, pelo menos nos próximos três anos o Fórum Social Mundial andará por outros pagos. É neste cenário de derrotas recentes e adversidades multiplicadas que cabe perguntar: conseguirá a experiência de Porto Alegre sobreviver?

Um cenário de tamanha adversidade aconselha, no mínimo, a adoção do critério da prudência para não causar estragos maiores com a repetição de práticas que já se revelaram perniciosas. E aconselha, em um plano máximo, a ousadia de construir soluções novas para velhos problemas.

Velhos problemas como as disputas internas que continuam subordinando interesses estratégicos maiores, como a própria sobrevivência dessa esquerda. Hoje, Porto Alegre ainda é reconhecida internacionalmente como capital do Fórum Social Mundial e como símbolo de resistência ao neoliberalismo. Se os problemas citados acima não forem superados rapidamente, essa referência corre o risco de se tornar, em breve, em uma mera lembrança histórica de um período onde a ousadia, a firmeza e a imaginação construíram um espaço de resistência e esperança. Esperança de que é possível resistir às tentações do pensamento único, do conformismo e do recuo ideológico.

<<< voltar >>>
Hosted by www.Geocities.ws

1