A DS que queremos
Militantes da Democracia Socialista
PALAVRA CRUZADA - 01/04

Em 25 anos de construção do PT e da Quarta Internacional no Brasil, a DS forjou uma história de militância que lhe dá uma responsabilidade decisiva no movimento da esquerda brasileira. Como toda corrente revolucionária a DS foi formada para enfrentar os desafios da luta de classes e não para responder de forma burocrática, agindo por inércia ou omissão, às novas realidades que se apresentam.

Com a eleição de Lula o acúmulo de um quarto de século de lutas e de organização independente dos trabalhadores está sendo colocado em xeque. Nós estamos diante de um momento muito singular, que cobra de uma corrente política socialista coerência com sua trajetória e com sua razão de ser. No entanto, a DS, longe da reflexão e da ação que o momento exige, se afasta da opção da construção de um projeto partidário portador de efetivas transformações sociais.

Através dos quatro pontos que se seguem, queremos sintetizar estas opções, contribuindo para reorientar nosso debate e a ação política de nossa tendência.

1) O governo Lula

Enquanto a maioria da Coordenação Nacional (CN) da DS parece considerar que o rumo político do governo, apesar de tudo o que já presenciamos, ainda pode ser disputado "por dentro", consideramos que a luta contra as iniciativas políticas do seu núcleo neoliberal exige uma disputa aberta nos movimentos organizados e na sociedade.

Esta disputa não pode ser feita de forma coerente se ela estiver subordinada (e portanto comprometida!) aos cargos e vínculos materiais atuais e se não pudermos expressar publicamente nossas posições críticas sempre que necessário. Se compararmos a resolução da Conferência Nacional de dezembro de 2003 com o projeto de resolução da CN para a Conferência de 2005, fica evidente a redução do tom crítico em relação ao governo. O posicionamento adotado por algumas lideranças da DS tem sido tímido e "bem comportado" em relação ao conjunto de iniciativas do governo Lula, incluindo aí a reforma da previdência, a reforma sindical e as tentativas de justificar o indigno reajuste do salário mínimo. Onde antes a nossa posição seria de rechaço incondicional, agora é, em termos práticos, de apoio envergonhado. Em nome de uma reorientação profunda da política do governo, flexibilizamos como táticas posições sobre questões que dizem muito para a vida dos trabalhadores(as) em termos de retirada de direitos. Ou seja, há um divórcio entre a estratégia e a tática sob a alegação "que o fundamental é a disputa de rumos do governo", sendo o resultado desastroso para a correlação de forças dos trabalhadores no país.

2) A disputa de rumos do PT

A maioria da CN da DS encaminha uma aliança privilegiada com a Articulação de Esquerda, profundamente empenhada em uma política governista pouco crítica, procurando disputar o PED nos moldes impostos pelo campo majoritário, que restringe o espaço de discussão e o envolvimento das bases partidárias, e evita o questionamento da domesticação do PT pelo governo Lula. O enquadramento do partido pelo núcleo de governo deve agora, neste PED, ganhar uma nova qualidade, na medida em que o campo majoritário do PT, pretende formalizar como política do partido as orientações do governo.

Sustentamos, por outro lado, que a disputa do PED deve ser um momento importante de debate e diálogo não só com os militantes e com os filiados, mas com as bases sociais amplas do movimento democrático e popular para reafirmar a necessidade de um projeto partidário de esquerda e socialista. É assim que vamos encontrar energias capazes de apontar perspectivas de superação do neoliberalismo. É preciso tornar visível para todos os setores politicamente ativos da sociedade a existência de um campo de esquerda do partido que não se amesquinha, curvando-se ao núcleo do governo. Um exemplo positivo neste sentido foi o sucesso do ato político do dia 20 de março em São Paulo, que reuniu um número expressivo de militantes e parlamentares da esquerda do PT. Este campo do PT vem disputando sistematicamente a formação e orientação da consciência dos setores mais politizados da classe trabalhadora e do movimento democrático e popular.

3) A bancada federal

Enquanto a maioria da CN tem sistematicamente se esforçado em contestar, ou diluir, as iniciativas do grupo da bancada federal do PT que, desde a reforma da previdência, tem publicamente criticado e combatido as propostas de caráter neoliberal oriundas do governo Lula, consideramos que este grupo tem sido uma das principais expressões de resistência ao abandono do nosso programa e do projeto socialista, abandono que é promovido, pragmática e conceitualmente, pelo governo Lula e pela direção do PT. Nos parece lógico e conseqüente defender vigorosamente e potencializar o apoio a atuação desses parlamentares.

4) A construção da DS e da Quarta Internacional

Enquanto a maioria da Coordenação Nacional da DS reage de forma autoritária e burocrática às diferenças políticas que aparecem nas respostas táticas a esta conjuntura particularmente difícil, inclusive expulsando da tendência a senadora Heloísa Helena – que já havia sido arbitrariamente expulsa do PT –, enquanto a maioria da CN não aceita debater as críticas à sua orientação que lhe são dirigidas de forma praticamente unânime pela Quarta Internacional, consideramos que a DS deveria ser mais cuidadosa no tratamento das diferenças e não precipitar, ou produzir artificialmente, expurgos. A Internacional, ao contrário do que vem acontecendo, precisa ser valorizada como refe-rência para o conjunto da nossa militância.

Consideramos que a resolução do Comitê Internacional da Quarta de 27 de fevereiro de 2005, fruto de dois anos de debates, é um importante marco político de orientação que a Democra-cia Socialista não deve desconsiderar. Esta resolução destaca a atual centralidade da disputa de rumos do PT travada por sua ala esquerda que dialoga com a necessidade de recomposição da luta e perspectiva socialista no Brasil, e, ao mesmo tempo, reconhece a legitimidade de outras táticas de atuação na presente conjuntura. Mantido este curso, a posição da maioria da coordenação nacional da DS, marcada pela acomodação ao governo Lula, conduzirá à ruptura política tanto com a esquerda socialista brasileira quanto com a Quarta Internacional. Esperamos que nossa militância impeça, no processo de Conferência em curso, que isso ocorra.

Como conclusão

Não é fácil lutar contra o medo, o cinismo ou o obscurantismo reinante na política, mas tampouco é fácil, para muitos outros, negociar com os princípios, esquecer a história e tergiversar com a lógica. A situação é inédita, o que significa, simultaneamente, perigos inauditos e esperanças renovadas. Nossa certeza, que precisa ser confirmada pela prática diária, é que eles não venceram, e o sinal ainda está aberto pra nós.

Saudações socialistas

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