Nós nos enganamos; eles gostam
Paulo Piramba
PALAVRA CRUZADA - 18/04

Sempre que penso na compulsão suicida da esquerda em se fragmentar e colar os caquinhos, para mais tarde fragmentar de novo, até que não haja mais onde colocar a cola, lembro de uma cena do filme “A vida de Brian”, do grupo inglês Monthy Pyton. Nesta cena, num estádio quase vazio, enquanto gladiadores lutam e pessoas são devoradas por leões, os únicos espectadores são os integrantes de dezenas de organizações da “esquerda revolucionária”, compostas por – no máximo – 3 membros, e que insistem em se reunir em separado, uma das outras.

Tenho andado com vontade de organizar um ciclo itinerante de exibições deste filme, entre os diversos pedaços que hoje compõem a esquerda socialista brasileira. Mesmo que não promovesse nenhuma catarse coletiva, já valeria a pena, porque o filme é muito engraçado, e todos nós estamos precisando urgentemente rir um pouco. Mas, a par da saúde mental dos queridos leitores, minha principal preocupação é quanto à nossa saúde política. O movimento de rearranjo da esquerda, desencadeado após as eleições do ano passado, e cujo ritmo vem se acelerando a partir do Fórum Social Mundial, criou uma série de grupamentos e sub-grupamentos, cada um com seu ritmo e tática próprias.

Acho importante dar um corte nesse baralho e separar os ases e curingas dos dois de paus. Estou me referindo aos companheir@s que já estão no PSOL e aquel@s que, ainda no PT, têm manifestado freqüentemente suas discordâncias quanto às veredas escolhidas pelo governo Lula e, por via de conseqüência, pelo PT. Da esquerda governista – o que cada dia mais parece ser uma contradição em termos – há muito eu já desisti de esperar por alguma coisa positiva. Triste fim para quem um dia pretendeu “revolucionar o PT”, e, ao invés, acabou se “petizando”, no pior sentido possível.

Ao longo de 2004, principalmente no 2º semestre, tive a oportunidade de ler vários documentos que, apesar de já apontarem sensibilidades e visões diferentes, tinham como ponto comum a necessidade da união da esquerda. Seminários, articulações e movimentos conjuntos foram propostos para discutir e apontar saídas comuns e, alguns realmente aconteceram. Só que estes eventos serviram mais para aproximar mais gente de cada um dos projetos, do que para reunir projetos com táticas diferentes. A própria diáspora ocorrida durante o V Fórum Social Mundial, na verdade foram várias, com intensidades e destinos diferentes.

Foi um erro não termos conseguido manter os canais de comunicação funcionando entre todos e todas nós, mesmo com tantas nuances táticas. Friso e sublinho a palavra “nuances” porque é exatamente do que se trata: a velha mania de criar o inferno das pequenas diferenças, nesta nossa “vida de Brian”. Como não conseguimos nos entender, é lógico que os nossos calendários para 2005 também tenham pouco em comum, além dos mesmos 365 dias divididos em 12 meses. Pior do que isso, como estamos divididos e fragilizados, inevitavelmente ficamos à mercê da agenda dos nossos adversários. A escolha de grande parte da esquerda não-governista petista, em participar do Processo de Eleições Diretas [PED] do PT, em setembro de 2005, parece fazer parte dessa subordinação.

Para quem está no PSOL, principalmente para os setores que defendem um partido mais amplo, dialogando com a sociedade e com os movimentos sociais, esta notícia é muito desagradável, porque afasta da discussão sobre o caráter e o programa do partido, interna ao PSOL, dezenas de pessoas que teriam muito a contribuir. E esta discussão está sendo feita agora. Por outro lado, perceba a leitora que, do ponto de vista de quem acha que o PSOL já está pronto e acabado, e de quem acha que quem tinha que vir do PT, já veio, a intenção da esquerda-esquerda petista de participar do PED só confirma o que eles “já sabiam há muito tempo”.

Mas a situação é ainda mais complexa. Como o companheiro leitor deve lembrar, o PED foi criado exatamente como uma forma de controle – por parte do Campo Majoritário – sobre as decisões partidárias que, algumas vezes, teimavam em ser diferentes dos anseios e vontades dos dirigentes da Articulação e seus satélites. O PED aboliu a cultura petista da tomada de decisões que percorria o partido de alto-a-baixo, desde os núcleos de base, até chegar aos encontros nacionais. Foi a vitória da urna aberta e do esquema “van e lanchinho”, sobre a participação consciente e militante dos petistas.

Como então acreditar que, neste ano da graça de 2005, quando o rolo compressor do Campo Majoritário receberá o auxílio da máquina do governo federal, existirá espaço para a discussão que os petistas-petistas querem fazer, sobre o desvio de rota do partido e sua subserviência aos ditames neoliberais do governo Lula? Pode-se argumentar que a dificuldade em realizar o debate interno no PT, poderia ser compensada pelo acesso à mídia, já que ela habitualmente abre espaço para noticiar as dissidências petistas. Além de não haver nenhuma garantia quanto a este espaço, também não existe garantia quanto à qualidade da cobertura. É sempre bom lembrar que, quando a grande imprensa se propõe a falar sobre a luta interna dentro do PT, ela, várias vezes, cria mais confusão do que esclarece, e acaba confundindo Joaquim com Waldick.

E mesmo que os debates internos acabem sendo transmitidos pela GloboNews, terá valido a pena deixar de ter influído no processo de construção do PSOL, neste momento tão agudo, e, mesmo que indiretamente, convalidar as adaptações programáticas do PT já anunciadas? Que a esquerda governista petista tenha se conformado em ser a vanguarda do atraso, a chancela de esquerda que o PT necessita como instrumento de marketing, a gente faz força para entender. Mas que tanta gente boa, de luta, participe de um PED que sempre denunciaram, num partido em que não mais acreditam e, involuntariamente, emprestem suas biografias e trajetórias, para os dirigentes petistas arrotarem uma democracia que não é mais praticada no PT faz tempo, é pedir demais.

Além disso, se a vontade desses grupamentos for a de participar do PED para aglutinar forças e, mais tarde, avaliar a entrada no PSOL [recuso-me a acreditar na possibilidade de ser em um outro partido], o prazo não poderia ser pior. Não por acaso, o PED está marcado para setembro, às vésperas do prazo-limite do TSE para re-filiações partidárias válidas para as eleições de 2006. Entre um e outro, sobrarão duas semanas para que esta questão seja resolvida. Mesmo que não exista nenhum projeto eleitoral envolvido – o que seria válido, diga-se de passagem – não faltarão detratores para afirmar que o movimento é igual a dos políticos tradicionais, que trocam de legenda para acomodarem seus projetos próprios. Evidentemente, neste caso, a entrada posterior no PSOL se daria em condições políticas muito mais desfavoráveis.

É preciso mais do que nunca romper este isolamento. Isso significa ir além de simplesmente escrever e trocarmos documentos entre nós. Ou de abrirmos todos os dias nossas caixas de correio e lermos cada e-mail. Ou superamos nossas pequenas divergências e tentamos construir uma saída comum, que leve em consideração os ritmos e demandas particulares, mas que privilegie uma movimentação coletiva, ou estaremos fadados a nos fragmentarmos mais e mais. Enquanto nossos adversários, aliviados e contentes, continuarão a bater palmas.

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