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| Carta do Encontro de Mulheres Estudantes da UNE |
| PALAVRA CRUZADA - 7/3 |
| Carta do Encontro de Mulheres Estudantes da UNE Ao longo dos últimos meses, ficou fácil perceber que nós, mulheres militantes do movimento estudantil (ME), sofremos a mesma opressão de gênero, e que essa se reproduz na Universidade e no próprio movimento. Por isso, nós nos mobilizamos em torno da necessidade da nossa auto-organização, retomando para isso a construção de um Encontro de Mulheres Estudantes a partir da UNE, por entender que é a intervenção coletiva o melhor caminho na luta pela emancipação das mulheres. O formato do Encontro refletiu o entendimento de que são as mulheres as protagonistas de sua libertação. Dessa forma, o convite para participar e construir o Encontro foi direcionado às mulheres. No entanto, considerando a importância dos espaços mistos, com caráter de sensibilização e de socialização do acúmulo conquistado, os painéis de formação foram abertos aos homens. Esses espaços de formação, assim como as místicas, o debate e a socialização de diferentes experiências que o Encontro trouxe nos apontaram o desafio de avançarmos para a construção de uma plataforma feminista para a sociedade, a Universidade e para o movimento estudantil. Num âmbito mais geral, entendemos que a superação da opressão está diretamente relacionada à mudança das estruturas desiguais da sociedade. Isso significa que a luta das mulheres tem interface com as pautas mais gerais, afinal, o avanço do neoliberalismo, além do sucateamento da Universidade pública, o que trouxe conseqüências para as mulheres estudantes e trabalhadoras da comunidade universitária, também representou retrocessos nos direitos da mulheres. Por isso, também compreendemos que a luta das mulheres relaciona-se diretamente com os desafios do movimento estudantil na defesa da Universidade pública. Nós mulheres estudantes e entidades organizadoras do EME (UNE, UEE-SP, UEE-MS, ABEEF, CONEP, DENEM, ENEENF, ENESSO, FENED, DCE-Livre da USP) queremos olhar a Universidade com outros olhos, os olhos das mulheres, que sempre foram minimizados diante da construção masculina de referências. Isso porque há um recorte de gênero importante a ser feito nas discussões e nas pautas encaminhadas pelo ME. Por exemplo, vale lembrar que, hoje, mais mulheres estão na universidade. Contudo, concentram-se em áreas do conhecimento que são associadas ao espaço privado, sendo assim as profissões menos valorizadas no mercado de trabalho. Para reafirmar a busca de espaços públicos de representatividade, respeito e reconhecimento perante a comunidade acadêmica, faz-se necessário abarcar e legitimar a diversidade encontrada também na luta das mulheres, compreendendo que sobre a opressão de gênero recaem outras. É aí que entram os debates e as lutas acerca da livre orientação sexual (movimento LGBTT), de questões raciais (mulheres negras) e étnicas (mulheres indígenas). Lutamos para que esses segmentos de mulheres tenham seus espaços de auto-organização potencializados pelo movimento estudantil na sua luta por outra sociedade e Universidade. Da mesma forma, há que se lembrar que as demandas diferenciadas e dificuldades específicas das mulheres ao entrar na universidade devem ser contempladas na estrutura da mesma, visando a combater as desigualdades de gênero. É preciso reivindicar que uma universidade de fato pública tenha essa compreensão, e que esta se reflita na assistência estudantil, no atendimento e estrutura dos Hospitais Universitários, nos currículos e nas estruturas de poder.Pode-se concluir então que somente o aumento do financiamento público para a Universidade garante a inclusão e permanência das mulheres. Também a produção do conhecimento, cotidianamente, invisibiliza a desigualdade entre homens e mulheres quando deveria estar a serviço da superação dessas fortalecendo outros referenciais subvertendo a lógica machista tão presente na ciência. É por tudo isso que as mulheres do movimento estudantil devem estar organizadas para interferir no processo de reforma universitária em curso. Nos espaços do movimento estudantil a opressão de gênero também se reproduz. Desde a divisão sexual do trabalho, que coloca os homens nos espaços públicos e as mulheres nas tarefas do privado, até a composição das entidades gerais do movimento, que apresentam um numero reduzido de mulheres, enquanto somos maioria na base do movimento. Sem falar nos constrangimentos que muitas de nós somos obrigadas a enfrentar ao ocuparmos determinados espaços num contexto de masculinização da política e dos espaços públicos. É preciso que o movimento estudantil assimile as pautas das mulheres e as especificidades das companheiras. No sentido de avançar na superação da desigualdade, de ampliar e dar centralidade a esse debate, propomos que o conjunto das entidades estudantis privilegiem a participação das mulheres garantindo a presença feminina em suas instancias de direção; que haja secretarias de mulheres da UEEs, DCEs, e CAs, garantindo nossos espaços de auto-organização, bem como oficinas mistas para a socialização de debates e experiências do feminismo. Indicamos também, como fundamental para as entidades do ME, que se discuta a questão da autonomia das mulheres, o direito a decidir sobre seus corpos e a legalização do aborto. É preciso que o feminismo conquiste seu espaço dentro do movimento estudantil, porque é através dele que combateremos o machismo que vivenciamos cotidianamente. Para isso, é preciso que nós, mulheres, estejamos organizadas, que aceitemos a tarefa e o desafio de construir um olhar feminista sobre a Universidade e possamos ter cada vez mais mulheres se sentindo à vontade no papel de direção política desse processo e do conjunto do ME. Reunidas em São Paulo de 5 a 7 de março
de 2005. |