| Contribuição
ao debate para a Conferência Nacional da
Tendência Democracia Socialista
Companheir@s
A Tendência Democracia Socialista passa pela mais
grave crise de sua história. Colocada frente ao desafio de oferecer
uma alternativa ao movimento democrático e popular brasileiro para
a difícil situação criada pelo governo Lula, nossa
tendência se integra no campo governista e desenvolve uma postura
muito pouco crítica ao governo federal. Esta postura contagia nosso
posicionamento em todas as frentes e sobre as demais questões –
talvez o caso mais grave, neste momento, seja a posição
adotada na direção da CUT de apoio à reforma sindical.
A resolução de nossa última Conferência
Nacional, em dezembro de 2003, foi o resultado de uma composição
entre diferentes visões sobre como tratar a questão do governo
Lula e da disputa de rumos do PT. Mas ela orientava para uma linha de
confrontação, para um tom e iniciativas de disputa muito
mais elevado do que foi colocado em prática pela maioria do GTN
e pela Coordenação Nacional. A resolução dizia
ser necessário “apresentar uma visão de conjunto alternativa
à da atual maioria da direção” e apontava para
uma plataforma de lutas: pela participação popular nas decisões
políticas; por alternativas de política econômica;
pela reforma agrária; e pela agenda internacionalista do movimento.
Consideramos que as instâncias de direção
da Tendência não encaminharam a deliberação
da nossa última Conferência Nacional. Esta questão,
entretanto, torna-se secundária frente ao grau das divergências
evidenciadas. O problema não é mais de tom mas de orientação
geral.
Em algum momento, em meados do primeiro semestre de
2004, ficou difícil dialogar com a posição da maioria
do GTN – a Coordenação Nacional praticamente não
se reuniu em 2004. Quando ficou claro, pelas decisões e declarações
do núcleo de governo que não haveria plano B ou transição
na política do governo Lula, colocou-se a opção fundamental
entre se acomodar ao marco geral da política governamental ou elevar
o tom do enfrentamento, o que poderia comprometer as relações
estabelecidas com o núcleo do governo e com a maioria da direção
do PT, que foi se evidenciando uma correia de transmissão do Palácio
do Planalto. De outro lado, a formação do PSOL também
passava a restringir o grau de liberdade da direção da DS
na condução de uma política até então
ambígua. A opção tomada foi, a partir de então,
pela clara acomodação com o governo. As críticas
vêm se tornando cada vez mais pontuais – o Miguel só
foi a imprensa criticar o governo quando o orçamento de seu ministério
sofreu um corte expressivo. E consolidou-se uma aproximação
com a Articulação de Esquerda, cuja orientação
é ainda mais governista que a da maioria da direção
da DS.
Esta linha levou a direção da DS a hostilizar
outras orientações que, de diferentes enfoques, estão
buscando construir uma alternativa para a esquerda brasileira. É
o caso da disputa de rumos do PT travada em tom elevado, na sociedade,
encaminhada desde o início do governo Lula pelo grupo de oito parlamentares
críticos, que desempenharam um papel decisivo no sentido de manter
uma posição de esquerda visível no cenário
político mais amplo – que, sob o argumento equivocado de
respeitar a disciplina do partido, nunca teve o respaldo da DS e da AE.
E é o caso da construção de uma alternativa partidária
através do PSOL, imposta pela expulsão da nossa companheira
Heloisa Helena. Esta orientação leva também a um
distanciamento importante do que João Pedro Stedile chamou de esquerda
social – isto é, o esforço do MST, Consulta Popular
e setores da Igreja de elevar o nível de confrontação
dos movimentos sociais com as políticas neoliberais do governo,
sem entrar na questão partidária. O preço que será
pago com a consolidação desta orientação é
a ruptura não com algumas correntes minoritárias (como o
discurso da esquerda governista apresenta), mas com o fundamental do que
a esquerda brasileira produziu de mais combativo ao longo de três
décadas de luta, com os setores mais conscientes do movimento democrático
e popular.
Alguns militantes e dirigentes da nossa tendência
sensíveis a esta situação contraditória lançaram
em julho um documento intitulado A esquerda brasileira na encruzilhada.
Depois, na seqüência das eleições, alguns parlamentares
federais da DS (em conjunto com outros) divulgaram no Diretório
Nacional do PT uma avaliação crítica das eleições
municipais de 2004 que alertava para estas mesmas questões. Em
dezembro, os subscritores do documento A esquerda brasileira na encruzilhada
voltaram a apresentar suas posições à Coordenação
Nacional por escrito em uma Carta à Coordenação Nacional
da Tendência Democracia Socialista. E, em janeiro deste ano, os
companheiros Michael Lowy, Daniel Bensaid e Francisco Louçã
enviaram uma carta à DS, externando suas preocupações
quanto ao curso adotado, posição que refletia as inquietações
que praticamente todas as seções da Internacional. E a última
reunião do CI da Quarta, em 26-28 de fevereiro – da qual
a maioria da Coordenação Nacional se recusou a participar
–, aprovou um posicionamento criticando a permanência da DS
no governo Lula.
De outro lado, na reunião da Coordenação
Nacional de dezembro foi aprovada a exclusão d@s militantes da
Tendência que estão no PSOL – quando o correto seria
colocar o tema em debate na Conferência Nacional da Tendência,
com @s companheir@s concernidos. E a sua reunião de fevereiro,
sem responder ao conteúdo da crítica feita pelos companheiros
da Internacional sobre a participação no governo Lula, a
Coordenação aprovou uma carta ao CI – antes mesmo
que qualquer posição fosse adotada – que, na prática,
significa uma ruptura com a Quarta Internacional – rompendo um vínculo
que sempre foi um dos pilares da nossa identidade política.
A reunião de fevereiro também aprovou
um projeto de resolução política para a Conferência
de abril que reduz drasticamente o teor e o tom das críticas ao
governo Lula. Este texto argumenta sobre uma suposta transição
para um paradigma não neoliberal em curso na América Latina
que envolveria Lula – na verdade, há iniciativas em curso
que vão nesta direção, mas o governo Lula tem, no
mais das vezes, se posicionado contra elas e a favor do mercado (como
mostra a posição frente a renegociação da
dívida externa argentina). Acena também com o fantasma da
rearticulação da direita tucana – ignorando que o
PP, PL, PTB e PMDB estão no governo e que a agenda de reformas
do governo Lula levou e continua levando adiante, em linhas gerais, o
projeto de FHC. De fato, em nenhum documento ou posicionamento da Coordenação
da DS é debatido seriamente o caráter do núcleo do
governo. Estes sempre mencionam a existência de um setor vinculado
ao capital financeiro e um setor popular, mas de forma algébrica,
sem avaliar as possibilidades efetivas de disputa, a hegemonia existente,
os elementos reais de correlação de forças –
porque eles mostram a inviabilidade de alterar o rumo do governo Lula.
Não porque o governo Lula seja igual ao governo FHC, mas porque
não é possível dar continuidade à luta pela
organização independente dos trabalhadores no Brasil apoiando,
depois de mais dois anos de política social-liberal, este governo.
Um governo não é uma federação de posições,
mas trabalha dentro de uma hierarquia de comando – e o comando está
nas mãos de aliados confiáveis do grande capital.
Em termos de contraposição, não
é o caso aqui de repetirmos o que já foi adequadamente exposto
em outros documentos. Além disso, foi estabelecido um limite ao
tamanho das contribuições para esta tribuna de discussão
(20 mil caracteres para os quatro pontos propostos). O que cremos ser
mais apropriado para debater, de forma sintética, a posição
que sustentamos já foi apresentado pelos companheiros Michael,
Daniel e Chico em sua carta e reproduzimos a seguir as partes mais relevantes.
“1. A questão central, ao fim destes dois
anos, é a da caracterização da política
do governo. Podemos defini-la, sem ambigüidade, como social-liberal.
É o que lhe valem as homenagens e o apoio do FMI e das instâncias
internacionais. A resolução da 7ª conferência
nacional da DS, em novembro de 2003, registrou esta questão claramente:
“Os primeiros oito meses do governo Lula foram marcados pela construção
de um leque de alianças que inclui amplamente setores conservadores,
por uma política econômica fundamentalmente conservadora
e, de outro lado, por avanços limitados na promoção
de mudanças” (II, 1). Ou ainda: “A política
macroeconômica tem expressado também uma total subordinação
às orientações do FMI” (II, 2). Mais recentemente,
no seu balanço das eleições municipais, o GTN da
DS observava (novembro de 2004): “A retomada da ascensão
dos juros, os superávits recordes, a submissão ao capital
financeiro e aos chamados mercados (…) garroteiam a nação”.
A prática cotidiana da maioria do DS, no curso
deste último ano, parece entretanto pouco coerente com as formulações
votadas pela conferência: como caracterizar nestes termos a política
governamental e adotar uma posição hesitante face às
reformas concretas que a caracterizam, continuando a participar do governo,
sem nem mesmo os camaradas diretamente implicados nas responsabilidades
governamentais expressarem claramente seus desacordos?
2. A resolução da conferência
notava que o período inicial do governo “revela uma dinâmica
conflitiva tanto ao interior das políticas governamentais como
na relação do governo com as forças sociais que
deram origem à sua eleição” (II, 12). Deduz
daí, por extensão, uma “disputa de rumos”
simultânea “do partido e do governo” (V, 9).
Ora, há entre o partido e o governo uma diferença
fundamental. O partido é o resultado de mais de vinte anos de
lutas, de experiências ligadas à mobilização
dos movimentos sociais. Esta história política se traduz
em contradições internas entre as definições
originais do partido e sua prática atual de subordinação
às orientações governamentais. É o que permite
reivindicar a legitimidade e a herança petistas (o PT “é
nosso”). De outro lado, como seria possível pretender que
o governo que acabamos de caracterizar como conservador e “continuísta”
em relação ao de FHC “é nosso”? O partido
é um produto das lutas. O governo é uma instituição
de Estado. Há certamente, em teoria, a possibilidade de promover
reformas positivas. Esta possibilidade existe, inclusive em governos
de gestão leal da ordem estabelecida, como os de Blair, Schröder
ou Jospin. Mas um governo não é por isso a simples adição
das políticas setoriais de seus ministros e o espaço de
uma espécie de dualidade de poder entre ministérios “econômicos”
e ministérios sociais. O de Lula tem, assim, uma política
global, cujo rumo é definido pelas escolhas econômicas
e financeiras. Nas primeiras semanas ou nos primeiros meses, podíamos,
por preocupações pedagógicas, centrar o fogo da
crítica nas opções econômicas, em Meirelles,
em Palocci. Mas o que há é claramente uma orientação
política do governo, com as decisões ditas “econômicas”
definindo as restrições orçamentárias e
condicionando o conjunto da política seguida.
3. Nestas condições, a participação
no governo torna-se cada vez mais problemática. Nas discussões
entre militantes da IV Internacional, insistimos em evitar que a questão
fosse colocada em termos abstratamente doutrinários, sem levar
conta as características do país, a história do
PT, seus laços com os movimentos sociais e sindicais. Vários
sinais, entretanto, nos faziam temer que, na ausência de fortes
mobilizações sociais (com exceção dos sem-terra),
alguns ministros conhecidos por serem de esquerda se tornassem simples
fiadores ou reféns de uma política cujas opções
haviam sido anunciadas desde a campanha eleitoral, na Carta ao Povo
Brasileiro. Sobre a participação de Miguel existiam, portanto,
desde o início, avaliações diversas, tanto na Internacional
quanto entre vocês. Mas, uma vez a decisão de participação
tendo sido tomada pela DS, sem esconder nossas reservas e nossas dúvidas,
respeitamos sua escolha e procuramos ajudar mais do que colocar empecilhos.
Assim, nós nos esforçamos para convencer os camaradas
de nossas próprias seções de que a questão
da participação no governo deveria, logicamente, subordinar-se
à avaliação das orientações governamentais.
Infelizmente, não havia quase nenhum suspense neste ponto. E
em todo caso, ele não durou quase nada: a nomeação
de Meirelles e de Palocci e as primeiras medidas anunciaram muito depressa
a cor do governo. Concordemos ou não com o argumento, podemos
compreender a preocupação de não causar dificuldades
adicionais, pela saída do governo, aos nossos candidatos a prefeituras,
especialmente em Porto Alegre. Depois das eleições, esta
reserva deixou de ser pertinente.
4. Sem chegar a uma revolução agrária,
o Programa Nacional de Reforma Agrária adotado em novembro de
2003 teria podido representar uma reforma substancial, apoiada de fato
pelos sem-terra no momento da sua apresentação. Ele poderia,
de fato, com a condição de ser efetivamente aplicado,
iniciar uma dinâmica de mobilização. Para além
da controvérsia quanto aos números de 2004, é claro
hoje que os atrasos se acumulam em relação aos objetivos
do programa e que é cada vez mais duvidoso que estes objetivos
sejam alcançados até o fim do mandato. Diante dos obstáculos,
orçamentários notadamente, teria sido possível
elevar o tom, para fazer a responsabilidade pelos atrasos recair sobre
as opções macroeconômicas, e preparar desta forma
uma possível saída do governo — ou, pelo menos,
a apresentação de um balanço defensável
diante dos movimentos sociais. Parece, ao contrário, que o MDA
tem permanecido muito discreto na sua expressão pública.
Ele se arrisca, assim, a ser imprensado entre uma política de
governo da qual quase não se demarcou e o descontentamento crescente
dos movimentos agrários.
Mais em geral, o governo não sendo um simples
mosaico de ministérios, mas sim o instrumento de uma política
global, mesmo no caso de um regime presidencialista em que não
existe o equivalente de um Conselho de Ministros, não é
possível circunscrever-se à gestão de “um
só ministério” ignorando a lógica global
das orientações.
5. No plano social, o alerta soou desde meados de
2003, com o debate sobre a reforma da Previdência. Compreendemos
o argumento de que esta questão não tinha a mesma centralidade
na vida política do país que tiveram a reforma das aposentadorias
na França ou na Alemanha. Tratava-se, porém, nitidamente,
de uma reforma liberal do mesmo tipo, que abria o caminho aos fundos
de pensão e, para além das tecnicalidades, a uma maior
privatização das proteções sociais. A questão
era grave o bastante para justificar a passagem de uma crítica
oblíqua (ou “de lado”), justificada pela preocupação
pedagógica dos primeiros meses, de não ficar dez passos
na frente das massas na sua relação com o governo, a uma
crítica mais frontal. Esta inflexão, é claro, não
teria deixado de colocar em questão de uma maneira mais aguda
nossa participação em um governo cuja política
estaríamos combatendo abertamente. Ora, no lugar de uma oposição
clara e nítida à reforma, tivemos uma orientação
hesitante, ilustrada pela dispersão dos votos dos deputados e
senadores da esquerda petista (inclusive os da DS): variaram do voto
a favor “por disciplina” à abstenção
argumentada e ao voto contra. O argumento da disciplina e do risco de
sanções é pouco convincente: quanto mais parlamentares
se opusessem francamente (ou pelo menos se abstivessem), mais difícil
teria sido, para a direção do partido, tomar medidas burocráticas.
6. Parece também — as coisas estão
estreitamente ligadas — que nós subestimamos por muito
tempo o sentido do processo de exclusão encaminhado contra Heloísa
e os três deputados dissidentes. A resolução adotada
pela 7ª conferência, “Em defesa da democracia e contra
as expulsões de parlamentares do PT” — é muito
boa. Conclui com o anúncio de uma campanha pública contra
as ameaças de expulsão. Menos de quinze dias depois da
conferência, entretanto, as ameaças já tinham se
transformado em fato consumado. A direção do partido se
antecipou e desmontou a campanha anunciada antes mesmo de ela começar.
Quaisquer que tenham sido as inabilidades dos parlamentares incriminados,
esta exclusão não era uma peripécia secundária.
Tratava-se, para a direção lulista, de mostrar claramente
a subordinação do partido ao governo e de dividir preventivamente
as oposições que não deixariam de emergir contra
os efeitos sociais da política governamental. As sanções
burocráticas ilustravam assim a transformação do
partido em correia de transmissão das opções do
governo junto à sociedade, no lugar de ser a representação
dos movimentos sociais diante do governo. Esta evolução
foi consolidada e ampliada pelo recrutamento para o novo PT de uma espécie
de “promoção Palocci”, mais carreirista e
menos militante (...)
7. As resoluções da 7ª conferência
representaram em novembro de 2003 uma busca responsável de uma
unidade consensual, segundo a tradição da DS, sem esconder
com isso diferenças importante de apreciação. Da
mesma maneira, as medidas decididas em matéria de organização
(imprensa, direções, etc.) demonstravam a ambição
nova de uma “DS grande”, na perspectiva de uma tendência
mais visível, melhor delimitada, e ampliada. Mas foi a direção
do PT quem deu as cartas e ditou o ritmo, precipitando especialmente
o processo de exclusão, empurrando os excluídos, sob pena
de aceitar a morte ou uma hibernação política,
a tomar iniciativas fora do partido. Alguns de nós avaliamos,
no entanto, o movimento que levou à proclamação
do P-SOL como prematuro, pensando que teria sido preferível conduzir
durante alguns meses uma campanha democrática para a reintegração,
organizando ao mesmo tempo reuniões e coletivos em favor de uma
“reconstrução socialista do PT” (seguindo
a fórmula que figura na resolução da conferência).
Pouco importa: não há instrumento científico seguro
para decidir estas questões de ritmo e de tática. A política
é um campo de forças e de iniciativas, das quais ninguém
tem o domínio absoluto (caso contrário a idéia
mesma de decisão perderia todo o seu sentido).
O P-SOL se constituiu, então, na base de um
ato de legítima defesa. Tem sem dúvida uma possibilidade
de desenvolvimento. Mesmo se o PT ainda capta algumas formas de radicalização,
sua evolução direitista libera outros espaços de
radicalização social: há vida fora do PT. Entretanto,
mesmo se puder vir a organizar uma campanha significativa em 2006, o
P-SOL está longe de representar, no estado atual, uma alternativa
credível ao PT, mesmo a um PT cada vez mais burocratizado e corrompido.
No papel (e talvez olhando de longe demais) as coisas parecem claras:
nem subestimação esquerdista do capital acumulado neste
partido, nem fetichismo do PT. (...)
8. Naturalmente, uma dificuldade maior da situação,
agravada ainda no Brasil pela dimensão do país e pelos
contrastes regionais, é a dessincronização dos
ritmos de tomada de consciência no PT, na esquerda do PT, nos
movimentos sociais, entre os diversos estados. E nossa tarefa deveria
ser combinar este desenvolvimento inevitavelmente desigual. Mas seria
necessário, para isto, ter uma orientação clara
e uma vontade firme, ao invés de reforçar as hesitações
hesitando junto com os hesitantes. Em Fortaleza, a determinação
deu resultado. A DS, se tivesse o projeto de uma alternativa clara à
política governamental, seria certamente a força com melhores
condições de reunir uma esquerda radical no PT e de engajar
o diálogo com as forças que já não vêem
neste partido a ferramenta principal da luta das classes. (...)
9. (...) A campanha, sem nenhuma dúvida, sofreu
as conseqüências da imagem do governo Lula junto a setores
importantes, do retrocesso que ele representa aos olhos de setores dentre
os mais militantes de PT, pela maneira com que reagiu, procurando alianças
cada vez mais amplas, no lugar de reforçar suas próprias
capacidades de ação social e de valorizar as experiências
militantes de um PT combativo e unitário.
10. (...) A demissão de Carlos Lessa (e a ausência
de Lula nos funerais de Celso Furtado) simboliza a renúncia ao
que poderia restar de expectativas “desenvolvimentistas”.
A saída discreta de Frei Betto ilustra as dificuldades da campanha
Fome Zero, caso exemplar do estrangulamento das reformas sociais em
favor da austeridade orçamentária. Enquanto alguns esperavam
uma inflexão à esquerda da política do governo
depois das eleições municipais, Lula reafirmou duramente
as opções econômicas. Ainda que a melhora da conjuntura
lhe dê um pouco de margem de manobra pré-eleitoral até
2006, o que é verossímil, a “linha geral”
permanece, entremeada de aspectos anedóticos mas, não
obstante, chocantes (imunidade sob medida para Meirelles, autorização
de sementes transgênicas, etc.).
11. O tempo é, daqui em diante, curto. Ninguém
é mestre dos ritmos e do tempo. Mas o calendário institucional
imporá, desde 2006, escolhas claras. E 2006 começa hoje,
com a preparação do Encontro do PT e do PED. As questões
táticas deveriam, em relação a estes prazos, subordinarem-se
às questões de fundo e de conteúdo. A resolução
da 7ª conferência contém a respeito os elementos de
um “necessário revigoramento de uma perspectiva de transição
ao socialismo” (I, 8), uma proposta de autonomia nacional contra
a dependência mundializada, uma proposta de moratória da
dívida (em relação à qual uma frente poderia
ser proposta à Venezuela, à Argentina, talvez amanhã
à Bolívia, etc.), proposições de campanha
sobre a Alca, sobre o salário e o emprego, sobre uma abordagem
generalizada de controle e de orçamento participativo ao nível
do Estado, sobre uma reforma agrária e ambiental radical. É
transformando tal plataforma em campanhas concretas, ao invés
guardá-la como “um programa de domingo”, e colocando
a questão de uma ruptura com o governo, que nós poderemos
redesenhar as alianças e as convergências, dentro e fora
do PT, em bases sólidas e não a partir de impressões
e interesses flutuantes”.
Esta é a orientação geral que, de
nosso ponto de vista, deve ser adotada pela Tendência Democracia
Socialista.
Saudações revolucionárias
Amanda Cardoso, Carlos Schmidt, Cheron Zanini Moretti,
Cláudio Antonio Barbosa, Elisabete Burigo, Magda Bia Vaschi, Ralfe
Cardoso (Rio Grande do Sul); Allan Coelho, Ângela das Graças
Santos, Félix Sanchez, José Cláudio Batista, José
Corrêa Leite, Luiz Emir (Gaúcho) (São Paulo); Adolfo
Wagner, Djair Dias de Sousa, José Roberto Anastásio (Jackson),
Rogério Alimandro, Veraci Alimandro (Rio de Janeiro); Arthur Viana
(Espírito Santo); André Lima, Demitri Cruz, Enelza Costa,
Igor Moreira, Márcio Caetano, Renato Roseno, Roberto Araújo,
Simone Holanda (Ceará). |