A esquerda do PT
Paulo Nogueira Batista Jr.
Folha de São Paulo - 23/3

No domingo , estive num seminário organizado pelo bloco de esquerda da bancada federal do PT. Aceitei o convite com uma condição, que foi atendida: deveria ficar claro que não faço parte do PT. Nunca me filiei a nenhum partido político e não tenho, há mais de dez anos, atividade partidária de nenhum tipo, mesmo informal.

Por que a condição? Durante muitos anos, pensava-se que eu era um "economista do PT" ou "ligado ao PT". A imprensa se encarregava de propagar o equívoco. Era o raciocínio binário de sempre: se eu criticava tanto o governo Fernando Henrique Cardoso, devia ser petista, na certa.

Nada me deixava mais irritado. Conhecendo o PT, sobretudo o de São Paulo, sabia há muito tempo que existia um parentesco (hoje evidente) entre os tucanos e boa parte dos petistas, especialmente da cúpula do partido - parentesco disfarçado, porém, pela barulhenta crítica ao "neoliberalismo" do governo FHC. Além disso, os economistas mais influentes do partido destacavam-se quase todos por uma mistura indigesta de amadorismo e oportunismo. Resultado: Lula foi candidato à Presidência da República em 1989, 1994 e 1998, mas chegou à eleição que venceria, em 2002, sem ter formulado um programa econômico alternativo e nem mesmo uma crítica consistente das políticas do período Collor-FHC!

A leitora dirá: "São águas passadas". Claro, mas águas passadas que movem moinhos. Criou-se um vácuo em torno do candidato petista à Presidência. E esse vácuo foi solidamente preenchido pelo ministro Palocci e seu grupo de financistas e economistas ortodoxos.

No seminário da esquerda do PT, a política econômica foi o principal alvo. Impressionou-me o número de militantes presentes. Era uma massa de 800 a 1.000 pessoas, segundo os jornais -um sintoma do tamanho da insatisfação da base petista. Além dos deputados federais, compareceram deputados estaduais, prefeitos, dezenas de vereadores, dirigentes sindicais e representantes de movimentos sociais.

Esses políticos e militantes costumam ser considerados irrealistas e imaturos. Talvez sejam. Mas a esse respeito, leitora, quero deixar consignado o seguinte: imaturidade nunca foi defeito. Cada um de nós deve lutar sempre, dia após dia, em todas as áreas da vida, para cultivar e conservar intacto o seu capital próprio de imaturidade. E mais: devemos encarar com preocupação, e até alarme, todo e qualquer sintoma de amadurecimento. O que é, afinal, a maturidade senão a ante-sala do apodrecimento? Muitos políticos e governantes pragmáticos e realistas estão aí, apodrecendo à vista de todos.

Mas deixo esses arroubos românticos de lado e volto à esquerda do PT. A má vontade com o ministro Palocci e sua equipe era tanta e tão intensa que me senti compelido a mencionar os aspectos positivos da política econômica. Decepção da platéia, que passou a dar sinais de inquietação. Como negar, entretanto, que há pontos positivos a destacar nos primeiros dois anos do governo Lula, mesmo na área econômica? Alguns exemplos. A inflação, que ameaçava disparar em 2002 e no início de 2003, foi rapidamente contida (o sociólogo não deixou nem a inflação sob controle!). O crescimento econômico, embora ainda modesto, foi superior ao esperado em 2004. Alguns indicadores das finanças públicas melhoraram. E, mais importante, ocorreu rápida expansão das exportações e um ajustamento notável do balanço de pagamentos, reduzindo a vulnerabilidade externa da economia.

Uma parte desses resultados deve ser atribuída a condições internacionais favoráveis. E, infelizmente, a lista negativa na área econômica é muito maior, como tenho apontado incansavelmente nesta coluna. A Fazenda e o Banco Central estão dominados por um conservadorismo estreito e inflexível. As políticas macroeconômicas, especialmente a monetária e a cambial, ameaçam o crescimento da economia, a retomada dos investimentos e a posição do balanço de pagamentos. Os exageros da política de juros sobrecarregam o custo da dívida pública, provocam concentração de renda e estimulam a sobrevalorização cambial. A busca incessante de elevados superávits fiscais primários, destinados a cobrir parte dos juros da dívida pública, bloqueia os programas de distribuição de renda e induz à manutenção da pesada carga tributária herdada do período FHC.

Não só a esquerda do PT, mas todos que querem ver mudanças na sociedade brasileira e pensam nos interesses permanentes do Brasil têm motivos de sobra para continuar descontentes com Palocci e companhia. Como o ministro da Fazenda parece cada vez mais encantado com o caminho que escolheu, a batalha vai ser longa.

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