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| Esquerda petista enfrenta desafio de construir união |
| Marco Aurélio Weissheimer |
| Agência Carta Maior - 23/3 |
| As principais tendências de esquerda do PT vêm conversando desde o ano passado com o objetivo de tentar definir uma estratégia comum para a disputa das eleições internas no partido, que ocorrem este ano, e, de um modo mais amplo, para ampliar sua força no debate sobre os rumos do PT e do governo Lula. A Agência Carta Maior ouviu dois dirigentes deste setor que enfrenta o desafio de construir uma maior unidade tática e estratégica, um velho problema da esquerda, aliás. Valter Pomar, 3° vice-presidente nacional do PT e dirigente nacional da Articulação de Esquerda (AE), e Joaquim Soriano, secretário nacional de Formação Política do PT e dirigente da Democracia Socialista (DS), analisam o atual momento do partido, o debate sobre a reforma ministerial, o estágio das conversações no interior da esquerda partidária e a tentativa de construir a maior unidade possível visando ao processo de eleições diretas que o PT enfrentará em 2005. Entre os pontos que a esquerda quer discutir no processo eleitoral interno estão o desempenho do partido nas eleições municipais de 2004 e na recente eleição para a presidência da Câmara Federal, episódios que, na avaliação destas forças, expuseram fragilidades e riscos importantes para o futuro do PT e do governo Lula. Faz parte desta agenda também a política econômica do governo federal. A avaliação geral é que a continuidade desta política, com a produção de um superávit primário acima daquilo que é exigido pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e com a elevação progressiva da taxa de juros, bloqueia qualquer programa de desenvolvimento sustentável para o país. Com isso, defendem, a própria possibilidade de reeleição do governo Lula ficaria ameaçada. Outro tema que deve entrar no debate é o da governabilidade que, para a esquerda petista, não pode depender só de uma maioria parlamentar construída inclusive com partidos da direita. O atual momento do PT Para Valter Pomar, o PT, no momento em que comemora os seus 25 anos, vive uma situação muito difícil. Pomar lembra que o partido sofreu duas derrotas importantes, na eleição municipal de 2004 e na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados. Além disso, reconhece que o partido “está desgastado junto a uma parcela importante de sua base social e eleitoral, devido principalmente à política econômica e vem sendo atacado diariamente pela direita, sem conseguir responder à altura”. Pomar cita ainda o episódio da reforma ministerial, onde vários ministros petistas “foram submetidos a um processo de fritura, que se estendeu por vários meses”. “Nem mesmo a festa de 25 anos escapou de dificuldades. Em resumo, um verdadeiro inferno astral, que só começará a ser superado se o PT entender que partido é partido, governo é governo”, acrescenta o dirigente petista. Joaquim Soriano entende que o PT vive um momento importante por conta do processo de renovação das direções partidárias em todos os níveis. É uma oportunidade, diz, de fazer um balanço sobre os rumos do partido e do governo Lula, à luz de eventos recentes como o resultado das eleições municipais e da eleição para a presidência da Câmara. Para ele, os dois episódios mostram que o governo tem uma oposição forte, liderada pelo PSDB, com um ideólogo (FHC) e um candidato (Alckmin). A eleição de Severino Cavalcanti, acrescenta, indicou que o Congresso vive um retrocesso caracterizado pela sobreposição dos mandatos aos partidos. “Essa quebra do pacto partidário, capitaneada pelo PSDB, nos impôs uma derrota importante. O problema não é o baixo clero, mas sim a quebra deste pacto, inclusive no PT, como demonstrou a candidatura Virgílio. “Estes episódios tem que entrar no debate sobre os rumos do governo e do partido”, conclui. O debate da esquerda partidária Ao analisar o debate da esquerda partidária, Pomar observa que há várias iniciativas simultâneas e não necessariamente concorrentes. “Temos até o dia 18 de maio para concluir esse debate e, de preferência, apresentar uma chapa e uma candidatura única à presidência do partido. Caso não consigamos isso, tentaremos pelo menos ‘marchar separados e golpear juntos’. Nos dois casos, nossa estratégia visa ganhar o apoio da maioria das bases partidárias”, resume. Pomar enfatiza que o objetivo não é “convencer a nós mesmos ou quem já está de acordo com nossas posições”. “Achamos que a maioria do PT está em desacordo com a política de Palocci. O desafio está em fazer desta maioria insatisfeita, a base para uma nova direção, que leve o PT e o governo para um rumo distinto do atual”. Na última eleição interna, em 2001, a maioria obteve menos de 52% dos votos. Pomar acredita que “um pouco de esforço, unidade da esquerda e uma política acertada podem acabar com essa maioria”. A construção de uma ampla lista partidária com uma candidatura única é um dos objetivos centrais da DS, explica Soriano. A idéia é lançar uma candidatura identificada com o campo de esquerda, mas que dialogue com o conjunto do partido. “Queremos validar a tese de que vale a pena disputar o PT, um partido com profundas raízes na classe trabalhadora brasileira e na sociedade. Acreditamos que as diferenças regionais e pontuais que existem entre nós devem ficar subordinadas a este objetivo maior”, defende. O dirigente da DS admite que essa é uma tarefa difícil, pois em geral as correntes de esquerda têm diferenças em suas avaliações políticas e também há uma tensão sobre a questão de quem lidera esse processo. “Nós estamos oferecendo o nome de Raul Pont, não como um antagonismo a outras candidaturas, mas como um nome que dialoga com a esquerda e com o partido em geral”. Já a AE tem o nome de Pomar para tentar cumprir a mesma tarefa. A reforma ministerial Valter Pomar tem uma posição crítica sobre os argumentos apresentados pelo governo federal para justificar a necessidade de uma reforma ministerial. Para ele, a reforma partiu de uma premissa equivocada e foi mal conduzida. E adverte: “Embora Lula tenha encerrado o diálogo sobre a reforma, ainda não está descartado o risco da direita aumentar seu peso no governo”. Na avaliação do dirigente petista, a premissa equivocada que orientou o debate sobre a reforma é a da “governabilidade parlamentarista”. “Embora tenham perdido o plebiscito de 1993, os que dirigem o governo comportam-se como se vivêssemos no parlamentarismo e tornam nossa governabilidade dependente da maioria de direita do Congresso. Ocorre que o Brasil é presidencialista e o gabinete ministerial não precisa, obrigatoriamente, ter maioria congressual, especialmente se o preço para ter maioria fora a incorporação da Arena no governo”, resume. Quanto à condução do processo de negociações com outros partidos, Valter Pomar assinala que nunca viu “reforma tão longa e tão baseada no método da fritura pública de ministros do mesmo partido do presidente da República”. “A direita”, acrescenta, “tem se aproveitado disto, para desgastar o PT, paralisar o governo e acusar-nos, hipocritamente, de negociata e politicagem”. “Na verdade, uma reforma que visasse melhorar o desempenho do governo poderia ser limitada a duas mudanças: um desenvolvimentista para o ministério do Planejamento e trocar toda a equipe do Banco Central, colocando no seu lugar gente comprometida com a autonomia do BC frente ao capital financeiro”, defende o 3° vice-presidente nacional do PT. As mudanças anunciadas na terça-feira não contemplaram nenhuma das duas propostas. A equipe do BC permanece intacta e o novo ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, é apontado como homem de confiança de Palocci. Do ponto de vista partidário, Joaquim Soriano considerou positivo o resultado da reforma. “Não sei quais foram as inúmeras equações montadas pelo presidente Lula, mas o fato é que não houve uma ampliação de alianças à direita. O PMDB ficou como está e o PP não levou nenhum ministério”, resume. Por outro lado, ele esperava um sinal na indicação do novo ministro do Planejamento, que fosse forte o suficiente para demonstrar que o governo Lula precisa discutir alternativas ao doutrinarismo do Banco Central e alavancar novas possibilidades para um segundo mandato. “Uma alteração de rumos a favor do programa que elegeu Lula presidente”. Mas essa alteração de rumos, enfatiza Soriano, depende muito do próprio PT. “O ator político com maior capacidade de incidência é o próprio partido, como ficou demonstrado na festa do PT em Recife, quando o ministro Humberto Costa recebeu uma forte solidariedade de todas as correntes”, exemplifica. As chances de uma candidatura unitária No último domingo (20), um grupo de parlamentares do partido lançou em São Paulo a proposta de criação de um bloco de esquerda para atuar no Congresso Nacional. Nesta reunião, o nome de Plínio de Arruda Sampaio foi apresentado como um possível candidato de consenso da esquerda partidária para a disputa da presidência do partido. Ao mesmo tempo em que destacam a importância do encontro e do debate que ele produziu sobre os rumos do partido e do governo Lula, Pomar e Soriano fizeram algumas ressalvas a estes dois movimentos. Para Pomar, os parlamentares críticos à política do governo têm o direito e o dever de articular sua intervenção na bancada. No entanto, ressalta, “não podemos confundir a defesa de novos rumos para o governo com uma atitude de oposição sistemática ao governo”. “Nem devemos confundir a posição de alguns parlamentares de esquerda com a atitude de todos os parlamentares de esquerda”, acrescenta Pomar. Na bancada do PT, observa ainda Pomar, “existem muitos parlamentares da esquerda que não querem fazer parte deste bloco e preferem outros métodos de atuação, mesmo que os fins possam ser os mesmos ou parecidos”. Quanto ao nome de Plínio de Arruda Sampaio como um possível candidato da esquerda à presidência do PT, Pomar reconhece que "se trata de um companheiro muito respeitado", mas não considera possível um consenso em torno do seu nome. E aponta um dos motivos centrais para justificar essa impossibilidade: “na eleição municipal de São Paulo, em 2004, ele defendeu publicamente o voto nulo, demonstrando que ele possui uma posição política muito diferente da nossa”. O mesmo motivo é apontado por Soriano que não vê no nome de Plínio características que o tornem um possível candidato da esquerda. “A opção pelo voto nulo na disputa entre Marta e Serra não tem nada a ver com a esquerda”, sintetiza. Soriano também fez ressalvas ao modo como foi anunciado a criação do bloco de esquerda. “O seminário em São Paulo foi positivo com um debate de ótimo nível, mas vários parlamentares que apoiaram o encontro não sabiam que seria lançado o bloco do modo como ocorreu”. Esse é um debate que precisa ser mais aprofundado, defende. E indaga: “Qual é a natureza desse bloco? Qual sua relação orgânica com o partido? Se ele não tem qualquer relação orgânica com o partido, qual o seu papel?”. Soriano sustenta que o momento não é para ficar fazendo disputas retóricas em torno de documentos ou tomando atitudes isoladas. “Sabemos que construir uma candidatura unitária da esquerda é difícil, mas possível. O que é importante assinalar é que não queremos construir uma anti-candidatura. Não somos dissidentes, somos petistas e queremos disputar os rumos do partido. Há uma diferença abismal entre essas duas posturas”, conclui. |