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Fomos surpreendidos com a mais nova e grave informação.
Trata-se da criação de uma Brigada do Exército, sediada
na cidade paulista de Campinas, para reprimir o movimento social. Foi
instituída pelo governo Lula, conforme decreto de 3 de novembro
de 2004, transcrito abaixo. Começou a vigorar no dia 1º de
março. Vejamos em qual contexto isso se passa e quais suas conseqüências
para o movimento social.
Estamos assistindo às mudanças na Constituição
Brasileira que eliminam os poucos avanços obtidos quando da sua
aprovação na Assembléia Constituinte de 1988 (eleita
em 86):
• Já perdemos praticamente a seguridade
social com a reforma da Previdência e outras mudanças neste
campo vão acontecendo, aos poucos;
• A reforma tributária foi aprovada para
desonerar o bolso dos grandes empresários, porém, veio
onerar o bolso do contribuinte comum, embora isso não seja percebido
pelo povo por falta de informações;
• A nova Lei das Falências rouba parte
dos direitos dos trabalhadores, favorece os banqueiros e prejudica o
Estado - que será o último a receber, se sobrar, é
claro – principalmente com os grandes débitos com a Previdência;
• As PPPs (Parcerias público-privadas)
transferem para empresas privadas muito dinheiro do BNDES para obras
de infra-estrutura (nosso dinheiro, mais de R$ 25 bilhões já
anunciados pelo seu novo presidente, Guido Mântega), enquanto
os lucros ficarão com as empresas, durante mais de 20 anos;
• A Reforma Universitária caminha como
o primeiro passo para a privatização das universidades
públicas;
• A Reforma Sindical, encaminhada dia 2 de março
ao Congresso Nacional, abre as portas para a flexibilização
dos direitos trabalhistas; neutraliza a ação sindical
de base; enquadra como criminosos comuns os dirigentes sindicais que
- de acordo com deliberações de suas assembléias
- discordarem dos acordos de cúpula; recoloca os sindicatos subordinados
ao Ministério do Trabalho, dando-lhe inclusive poder de cassar
sindicatos; dá enormes poderes e rios de dinheiro às centrais
sindicais, dinheiro que sairá das “contribuições
sindicais”;
• A Reforma Trabalhista, anunciada por Lula,
conforme suas próprias palavras, irá eliminar direitos
conquistados com lutas, prisões e assassinatos de trabalhadores.
• A autonomia do Banco Central está sendo
praticada, apesar de não ser lei ainda, e atua favorecendo escandalosamente
os grandes banqueiros;
• O dinheiro reservado no orçamento da
União para a reforma agrária, saúde, educação,
habitação, saneamento básico, Fome Zero vem sendo
desviado para garantir o “superávit primário”
e garantir, neste ano de 2005, cerca de 170 bilhões de reais
para os serviços da dívida;
• Segundo palavras do Zé Dirceu à
imprensa (10/03/05), logo após sua visita aos Estados Unidos,
o acordo sobre a Alca estaria garantido - em favor das multinacionais
estadunidenses, porém, contrariando a vontade popular e os interesses
reais da nação.
Diante desse quadro econômico-político nada
animador e das crescentes manifestações populares em discordâncias
de tais medidas, o governo Lula institui, por decreto, uma Brigada do
Exército para atuar na repressão aos movimentos populares.
Tal ato cria a guerra contra o povo. O exército, que deveria defender
a pátria, o território nacional e os interesses da nação,
passa a ter a função de reprimir seu povo, quando este exigir
seus direitos, quando estiver no exercício sagrado e constitucional
de sua plena cidadania.
Tal medida é um enorme passo em direção
a um Estado autoritário, uma verdadeira ditadura. É a implantação
do fascismo. Está se criando uma estrutura jurídica (um
arcabouço) que coloca o Brasil nas mãos do poder econômico
internacional e, ao mesmo tempo, criando instrumentos repressivos eficazes,
visando esmagar qualquer manifestação de descontentamento
popular.
DECRETO Nº 5.261, DE 3 DE NOVEMBRO DE
2004
Dispõe sobre a 11ª Brigada de Infantaria
Blindada, a 5ª Brigada de Cavalaria Blindada e a 5ª Brigada
de Infantaria Blindada e dá outras providências.
O Presidente da República, no uso da atribuição
que lhe confere o art. 84, inciso VI, alínea "a", da
Constituição, decreta:
Art. 1º A 11ª Brigada de Infantaria Blindada,
com sede na cidade de Campinas-SP, fica transformada em 11ª Brigada
de Infantaria Leve - Garantia da Lei e da Ordem, permanecendo subordinada
à 2ª Divisão de Exército.
Art. 2º Fica extinta a 5ª Brigada de Cavalaria
Blindada, com sede na cidade do Rio de Janeiro-RJ.
Art. 3º A 5ª Brigada de Infantaria Blindada,
com sede na cidade de Ponta Grossa-PR, fica transformada em 5ª
Brigada de Cavalaria Blindada, permanecendo subordinada à 5ª
Região Militar e 5ª Divisão de Exército.
Art. 4º Cabe ao Comandante do Exército
fixar a data de implementação das medidas de que tratam
os arts 1º, 2º e 3º e baixar os atos complementares necessários
à execução do disposto neste Decreto.
Art. 5º Este Decreto entra em vigor na data de
sua publicação.
Art. 6º Ficam revogados os dispositivos do art.
2º do Decreto Reservado nº 1, de 11 de novembro de 1971, que
tratam da 11ª Brigada de Infantaria Blindada, da 5ª Brigada
de Cavalaria Blindada e da 5ª Brigada de Infantaria Blindada.
Brasília, 3 de novembro de 2004; 183º da
Independência e 116º da República.
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
José Viegas Filho
A escolha de Campinas não foi ao léu. A
região industrial dessa cidade produz nada menos que 6% do PIB
brasileiro. Ali estão instaladas grandes indústrias multinacionais,
com enormes interesses financeiros. Além disso, essa Brigada dispõe
de moderno aeroporto internacional (Viracopos) capaz de propiciar rápido
deslocamento de seus contingentes para qualquer parte do país.
Contudo, o poder de mobilização popular da região,
principalmente operária, não é desprezível.
Aí está a razão de sua escolha.
“... esse decreto de Lula, gestor do e para o capital,
mostra, melhor que tudo que ele já fez até aqui, que não
há perspectiva nenhuma de favorecer o “trabalho” na
luta dura contra o “capital”. Nem FHC havia assinado decreto
tão fascista”. (assinado por “Leo”, no CMI, em
27/02/05).
* Waldemar Rossi é metalúrgico
aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de
São Paulo. |