| O governo federal começa
a negociar a medida provisória 232, editada
dia 30 de dezembro de 2004, temendo que, caso não ceda em determinados
pontos, ela acabe rejeitada pelo Congresso. A MP corrige em 10% a tabela
do imposto de renda, eleva a base de cálculo da Contribuição
Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) para prestadoras de serviço
de 32% para 40% e inclui retenção na fonte da CSLL, Cofins
e PIS-Pasep para essas empresas. Acredita-se que o projeto vai elevar
a carga de tributos e, por isso, a pressão contrária na
sociedade tornou-se muito grande, tanta à esquerda, quanto à
direita. Nesta semana, o deputado federal Chico Alencar (PT/RJ) avalia
que o grande erro da MP foi ter sido editada no apagar das luzes de 2004
e incorporado no seu texto temas tão diferentes como o aumento
nas alíquotas do imposto de renda e a elevação dos
tributos para as prestadoras de serviço.
Correio da Cidadania:
Qual sua opinião sobre a medida provisória 232?
Chico Alencar: Ela tem um
pecado original. Foi editada no dia 30 de dezembro, no apagar das luzes
de 2004, sem uma discussão prévia e a necessária
claridade e transparência. Esse vício de origem é
negativo. O segundo aspecto é que ela, a partir da necessária
e correta, porém insuficiente, correção da tabela
de imposto de renda chegou a outros temas que deveriam ser objeto de projeto
diferente. Essas coisas deveriam estar separadas, pois a mistura tornou
tudo muito complicado.
CC: Por
que existe tanta resistência da sociedade a este projeto?
CA: Em primeiro lugar, pela
forma como ela foi editada. Segundo por causa da compensação
confusa que ela tenta fazer da perda de arrecadação decorrente
do reajuste das alíquotas do imposto de renda. Seja, aumentando
impostos de pequenas e médias empresas, seja por uma reação
negativa de pessoas que simulam ser pessoa jurídica quando na verdade
são física. Então, esses protestos são justos,
injustos, corretos e incorretos. Agora, há um processo de negociação
que eu creio pode melhorar a MP, pois esse é o papel do Congresso.
CC: O senhor
concorda com a alternativa de elevar o imposto apenas para prestadoras
de serviço que não têm empregados?
CA: Por que o profissional
liberal não deve pagar o mesmo que trabalhadores individuais, os
quais podem ser taxados em até 27% dos seus rendimentos? Prioridade
sempre e nenhum centavo a mais de imposto para quem tem atividade produtiva
e emprega.
CC: Mas
esses prestadores de serviço sem empregados não são
muitas vezes pessoas que foram obrigadas por seus patrões a se
tronarem pessoas jurídicas?
CA: Pois é. Estamos
enfrentando esses artifícios; esse mundo fantasioso que no fundo
está imbuído de um espírito muito negativo, porém
predominante na sociedade que diz: “quanto menos você pagar
ao fisco, melhor será para você”. É o império
do individualismo e do lucro máximo.
CC: O ministro
da Fazenda, Antonio Palocci, já começou a ceder com relação
a esse projeto. A eleição de Severino Cavalcanti (PP-PE)
para a presidência da Câmara tem alguma influência nisso?
CA: Talvez a vitória
do Severino tenha esse único aspecto positivo. Desobstruir a pauta
de uma série de matérias que estavam paradas por aqui porque
o governo queria. Um exemplo é a PEC Paralela da Previdência,
compromisso do governo, inclusive no Senado, e que veio para a Câmara
e ficou engavetada. O Severino já indicou que ela entra em votação,
provavelmente, na próxima semana. Outro reflexo é uma negociação
mais séria do Executivo com o Legislativo. O Palocci ter vindo
aqui é uma novidade, normalmente ele não se mexe muito não.
CC: Tais
negociações e alterações que venham a se realizar
em torno da MP 232 não podem levar o governo federal a construir
sua base ainda mais à direita?
CA: Eu acho que não
porque isso entra em contradição com o rigor fiscal da equipe
econômica, para o bem e para o mal. Entendo que as modificações
aqui mostram primeiro sensibilidade, há uma forte pressão
da opinião pública, com aspectos justos e injustos. Mas
acho que as modificações que vierem têm que caminhar
um pouco mais no sentido da justiça tributária. Mesmo porque
a reforma tributária feita ano passado foi totalmente insuficiente
e não tocou nas questões essenciais. Essa MP também
não faz isso, mas tem o avanço de corrigir a tabela do imposto
de renda. O que importa é taxar quem ganha muito e emprega pouco.
Se chegar lá, mesmo agradando a direita, não tem problema,
pois será justo.
CC: De modo
geral, o que se deve fazer na área tributária?
CA: Uma reforma de profundidade
e radical, porque o Brasil vive uma espécie de manicômio
tributário. Um setor do empresariado é contra qualquer imposto
e se puder se isentar de tudo ele o faz, pois não tem a mínima
dimensão social, acha que todo o dinheiro pago ao Estado é
perdido. Não tenho ilusões. Não há correlação
de forças nem interesse político do governo de fazer uma
reforma tributária que taxe as grandes heranças, que jogue
peso sobre os ricos de modo a ter um caráter distributivo. Isso
não vai acontecer. Então, temos que avançar na proteção
e na desoneração do micro, pequeno e médio empresário,
fazer controle do fluxo de capitais, sobretaxar investimentos no exterior
como as contas CC5... Existe um conjunto de medidas que enfrentam o grande
capital, como os bancos que estão muito facilitados em termos de
fisco. Para isso, precisamos enfrentar um núcleo de poder muito
forte no Brasil. E também informar mais a população
para haver uma crescente pressão da opinião pública.
CC: E quais
as chances da proposta original da MP 232 ser aprovada na íntegra
no Congresso?
CA: Nenhuma. A MP 232 não
passa como está. Ela vai sofrer alterações, isso
se não for rejeitada totalmente e o governo precise editar outra.
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